Preço do papelão varia de acordo com o mercado; queda não é culpa de Lula

Publicações nas redes sociais usam um vídeo com a fala de um suposto catador de materiais recicláveis para sugerir que o governo Lula (PT) é o culpado pela queda no preço do papelão. Entretanto, economistas ouvidos pelo UOL Confere, explicam que o valor da commodity é definido no Brasil principalmente pela oferta e demanda e pelo câmbio do dólar.

O UOL Confere considera impreciso conteúdo com alegações que trazem dados próximos da realidade, mas que são inexatos; ou com alegações sem contexto suficiente para a compreensão correta do assunto.

O que diz o post

Vídeo que viralizou no Instagram mostra um homem, que se intitula catador de materiais recicláveis, acompanhado da seguinte legenda: "O pai dos pobres".

O homem diz: "Olha, você que não acredita que o Lula acabou com o país, preste bem a atenção. Sou catador de reciclagem. Na época do Bolsonaro, papelão tava 80 centavos. Isso mesmo, bateu 80 centavos. Hoje, com esse bandido no Lula, está 4 centavos. 'Ah, não tem nada a ver'. Eu vou provar pra você que tá me ouvindo que tem tudo a ver. A reciclagem varia de acordo com o dólar, e o dólar varia de acordo com a presidência. Quem vai confiar em um país onde o presidente é um bandido? O Brasil é um país de tolos e é de todos. Só isso, tem tudo pra dar certo e está dando tudo errado. Pense bem nas próximas eleições".

Por que é impreciso

Preço do papelão é influenciado pelo dólar, mas não é o único fator. Paulo Feldmann, professor de Economia da USP, explica que o papel é uma commodity e, portanto, tem o valor regulado nas bolsas internacionais a partir da lei da oferta e da procura. "Eles vêm qual é o total da produção daquele item naquele momento e qual é a possível demanda. Então, fazem o balanço. Se for faltar o produto, o preço sobe. Se vai sobrar, o preço cai", diz.

No Brasil, o valor do papelão também é afetado pela estrutura da cadeia de reciclagem interna. Segundo Dione Manetti, presidente do Instituto Pragma e especialista no tema há 30 anos, existem muitos intermediários no processo de reciclagem, portanto o catador individual e as cooperativas não conseguem vender diretamente para a indústria.

Normalmente a cooperativa é pequena e vende para o aparista [empresário responsável pela compra de aparas de papel dos pequenos comerciantes] ou ferro-velho. Por sua vez, eles vendem para outro aparista maior, porque é necessário um grande volume --acima de toneladas-- para vender direto para indústria. A existência de muitos intermediários na cadeia cria uma instabilidade no preço, porque se o comprador está com muito papelão estocado, ele vai te pagar menos. Se ele não tem tanto, vai te pagar mais
Dione Manetti

Estoques em alta. Segundo a Anap (Associação Nacional dos Aparistas de Papel), a demanda da indústria papeleira por reciclados está caindo. "A grande indústria papeleira tem preferido utilizar a celulose (matéria virgem) na produção de papel e papelão ao invés do material reciclável dos catadores e aparistas. Com isso, os estoques dos aparistas estão altos."

Cotação do dólar não depende diretamente do presidente da República. A afirmação é da economista e professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Carla Beni. A variação do câmbio é o resultado da interação de agentes econômicos que demandam e ofertam a moeda americana, sendo eles: pessoas físicas, empresas, o setor financeiro, o governo com o Banco Central e reservas internacionais. Por tanto, o cenário político de um país pode afetar o preço do dólar, mas não é fator único.

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Instabilidade política de um governo provoca o aumento no preço do dólar, e não a queda. No vídeo, o catador sugere que o preço do quilo do papelão está extremamente baixo no Brasil em razão da desconfiança do mercado internacional com o atual governo, porém a associação não está correta. A incerteza política pode, por exemplo, reduzir investimentos estrangeiros e o rumo do desenvolvimento econômico.

Se houvesse instabilidade [no governo Lula], o dólar iria aumentar. Mas nesse momento o Brasil é muito bem-visto no mercado mundial. É um dos países mais estáveis, não há risco nenhum à democracia, não tem risco de inflação. Então, o Brasil é visto como um país onde os investidores podem investir e investem
Paulo Feldmann

Valor do papelão no Brasil é variável e depende de cada região. Segundo levantamento do Instituto Pragma, organização responsável pela elaboração do Anuário de Reciclagem (aqui), a média do preço do papel vendido nas cooperativas no Brasil ficou em torno de R$ 0,36, analisando os últimos três meses do ano passado.

Para o presidente da instituição, dificilmente um ferro-velho ou aparista pagaria R$ 0,04 pelo quilo do material reciclável, como afirma o catador no vídeo. "Não posso dizer que não pode acontecer isso, mas a média [nacional] do papelão nesse valor não existe", reitera Dione Manetti.

O último Anuário de Reciclagem de 2023 revela que a média do preço do papelão no país foi de R$ 0,46 em 2022 (veja aqui na página 43). Enquanto, na região do Nordeste, por exemplo, o valor pago pelo quilo do material foi de R$ 0,48.

Pandemia

Crise de abastecimento. Durante o governo Bolsonaro, o preço do quilo do papelão alcançou a marca de R$ 1 em razão da falta do material no mercado interno, provocada pela pandemia de covid-19. O papel teve um pico de valor, porque muitos municípios interromperam a coleta seletiva e muitas cooperativas de catadores interromperam as suas atividades, como a capital paulista, explica Manetti.

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Viralização. Vídeo registrava, nesta sexta-feira (9), 1,1 milhão de visualizações, 71,3 mil curtidas, 2.922 comentários e 48 mil compartilhamentos.

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