Fechado há 3 meses, teleférico do Alemão é exemplo da crise financeira do RJ

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Júlio César Guimarães/UOL

    Fechado desde setembro, teleférico do Alemão não tem data para voltar a funcionar

    Fechado desde setembro, teleférico do Alemão não tem data para voltar a funcionar

Inaugurado em 2011 e anunciado pelo governo do Rio como obra símbolo do projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), o teleférico do Complexo do Alemão --conjunto de favelas da zona norte carioca-- tornou-se ícone da grave crise financeira vivida pelo Estado. A euforia de seis anos atrás, quando o Rio ainda realizava grandes investimentos para receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, deu lugar à desesperança.

O serviço foi paralisado em 14 de setembro por conta da inadimplência do Executivo e não tem data para voltar a funcionar. As estações estão praticamente abandonadas, relatou uma funcionária.

O atual operador do sistema, o consórcio Rio Teleféricos, reclama que o Estado lhe deve seis meses de pagamento --os repasses mensais são de R$ 2,7 milhões. Ou seja, desconsiderando juros e correção, o débito chegaria a quase R$ 19 milhões.

Construído com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o modal de transporte custou cerca de R$ 253 milhões. Segundo a Operação Lava Jato, ele está entre as principais obras sob suspeita de pagamento de propina na gestão do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), preso na Operação Calicute, no mês passado.

A investigação aponta que dez empreiteiras formaram um cartel para fraudar licitações no Rio, e a do Complexo do Alemão, onde as obras foram realizadas pelas empresas Odebrecht, OAS e Delta, está entre elas. Coube às próprias construtoras a tarefa de elaborar o edital do certame, narra a delação feita pela Andrade Gutierrez em acordo com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

Júlio César Guimarães/UOL
Verônica diz ter assumido a tarefa de regar as plantas da estação de Bonsucesso
UOL esteve na estação de Bonsucesso, na zona norte, considerada a base do teleférico do Alemão. Responsável pela segurança no local, a vigilante Verônica Vieira de Araújo, 35, afirmou ser "impossível" não se "chocar" com a situação atual do teleférico.

"Há dois anos e seis meses, quando fui contratada, tinha muita gente aqui. Tinha até jardineiro para cuidar das plantas. Agora, sou eu que tenho que cuidar porque não sobrou muita gente. As plantas estão todas morrendo. Impossível não ficar chocada com essa situação", declarou ela.

Até maio de 2014, cerca de 12 mil pessoas utilizavam o teleférico diariamente. Entre 2015 e 2016, a média caiu para aproximadamente 9.000 --muito abaixo da capacidade prevista, que era de 30 mil pessoas por dia.

"Aqui [em Bonsucesso] ainda tem algumas pessoas trabalhando, lá para cima é pior. Está tudo abandonado", completou ela, em referência às outras estações da rede: Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Palmeiras.

A limpeza das estações também foi seriamente afetada pela crise, segundo Verônica. Eram oito funcionários responsáveis pela limpeza, e hoje "são só duas meninas para dar conta de tudo". A vigilante diz reconhecer, no entanto, que os trabalhadores terceirizados não sofreram com falta de pagamento. "Pelo menos não até agora."

Felipe Dana/AP
Vista do complexo de favelas do Alemão, um dos maiores da cidade

"Por não haver perspectivas para a regularização dos pagamentos pendentes, não restou ao consórcio Rio Teleféricos outra alternativa que não a de suspender o cumprimento de suas obrigações contratuais", informou, em nota, o diretor de operações do teleférico, Marcos Medeiros. O contrato foi oficialmente suspenso em outubro.

O consórcio é apenas um dos vários credores que não estão sendo pagos pelo Estado, que encaminhou para a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) um pacote com medidas que incluem aumento da contribuição previdenciária, cortes em programas sociais, entre outras.

As iniciativas provocaram protestos por parte de servidores, principalmente da área da segurança pública. Houve confronto entre manifestantes e policiais, e o centro do Rio virou uma praça de guerra.

Procurado pelo UOL, o governo do Estado reconheceu que há "faturas em aberto desde abril" com o Rio Teleféricos e que, em razão do agravamento da crise financeira, "a prioridade absoluta do governo é o pagamento dos salários do funcionalismo".

A reportagem solicitou, por telefone e por e-mail, entrevista com o secretário de Transporte, Rodrigo Vieira, mas não houve resposta ao pedido.

Júlio César Guimarães/UOL
Sebastião diz que os moradores idosos foram os mais prejudicados com a suspensão do teleférico

O aposentado Sebastião Soares de Andrade, 69, que mora há 63 anos na comunidade da Baiana, afirmou que muitos moradores, em especial os idosos, foram diretamente prejudicados pela paralisação do teleférico.

"Antes, a gente descia e subia em menos de cinco minutos. Agora você tem que gastar pelo menos 20 minutos para ir até a parte alta, sem contar a dificuldade que é andar isso tudo. Para nós, foi um castigo", reclamou ele.

Júlio César Guimarães/UOL
Wellington diz que as vendas caíram depois da paralisação do teleférico do Alemão

Wellington Silva, 22, que trabalha em um quiosque situado dentro da estação de Bonsucesso, afirma estar receoso quanto ao seu emprego. Isso porque, após a suspensão do teleférico, a demanda caiu quase pela metade. Segundo ele, antes, eram comprados 50 sacos de pão de queijo por semana, mas hoje são necessários apenas 30.

"A procura caiu muito. Se a gente estocar muita coisa, há o risco de estragar", disse ele. "A gente fica com medo, claro. Sem movimento, não tem por que trabalhar. Daqui a pouco o chefe manda a gente embora."

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