Trabalhadores informais, senegaleses dizem sofrer violência em Florianópolis

Aline Torres

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

  • Janaína Santos/UOL

    Refugiados protestam no centro de Florianópolis contra agressões policiais que dizem sofrer

    Refugiados protestam no centro de Florianópolis contra agressões policiais que dizem sofrer

Foi longa a jornada de Boubacar Dieye, 39, de Dakar, no Senegal, até Rio Branco, no Acre. Como muitos, ele cruzou ilegalmente a fronteira e pediu refúgio, fugindo da fome.

Boubacar estava desempregado. Sem entender nenhuma palavra em português, vieram ele e a mulher, em 2013. Passaram por subempregos em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, e em Chapecó, no Oeste Catarinense.

No ano passado, ele acreditou que a migração tivesse chegado ao fim. "Gostei muito de Florianópolis, pensei que fosse meu lugar", disse.

Os senegaleses estão abrigados na região no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, e comercializam seus produtos no Centro e no Norte da Ilha, principalmente, em Canasvieiras.

De acordo com o Observatório de Migrações de Santa Catarina, no ano passado havia 200 senegaleses em Florianópolis. Atualmente há 50 refugiados.

A maioria fala apenas francês. Os porta-vozes do grupo têm sido Boubacar, Serigne Modou Dieng, Falliu Housny e Musa Yakhia Ba. Eles relatam casos de abuso policial, como espancamentos, agressões com spray de pimenta e apreensão de suas mochilas com pertences pessoais.

Há relatos ainda de invasão de suas casas, abordagens quando estão andando nas ruas e expulsão de lugares públicos. De acordo com um depoimento, um casal de senegaleses que estava tomando café na manhã em uma padaria foi retirado à força pela Guarda Municipal de Florianópolis (GMF).

A Guarda Municipal negou as acusações. A comandante da GMF Maryanne Mattos afirmou que eles comercializam produtos na rua e que as ordens são de que os materiais sejam sempre apreendidos. Ela também afirmou que eles vendem produtos piratas.

A Polícia Militar respondeu que não irá se pronunciar.

 

Para Serigne Modou Dieng, as apreensões de mercadorias são seletivas. "Na mesma esquina que vendemos nossos produtos há muitos brasileiros. No Centro de Florianópolis há o Camelódromo e ninguém os persegue. E mesmo assim porque nos batem? Nos tratam dessa forma porque somos negros, africanos".

Boubacar disse que os senegaleses compram os produtos no mesmo local que os demais comerciantes de Florianópolis, na região da rua 25 de Março, em São Paulo. "Não há diferença entre o que vendemos e o que vendem os camelôs", disse.

Ele também conta que perdeu R$ 5 mil em mercadoria, que por isso está há três meses sem dinheiro para pagar o aluguel e comprar comida.

Todas essas denúncias foram protocoladas na Defensoria Pública da União. Na próxima terça-feira (18) haverá uma audiência pública sobre o caso e serão apresentadas provas, como fotos e vídeos. Na última sexta-feira (7) os senegaleses protestaram contra a violência nas ruas da capital.

O superintendente da Secretaria Especial de Serviços Públicos Maycon Cassimiro de Oliveira disse que as leis estão defasadas, que são da década de 1980 e não previram a vinda de imigrantes. Ele também disse que o credenciamento dos ambulantes foi feito na gestão anterior, portanto, não há o que fazer. "Sinceramente não vislumbro uma solução para agora. E a obrigação dos fiscais é recolher as mercadorias", afirmou o superintendente.

Para a pesquisadora e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina Janaína Santos, "tudo que eles precisam é trabalhar em condições legalizadas".

"Não queremos atrapalhar ninguém, fazer mal ao outro, mas temos de trabalhar. Temos de comer, temos de viver", afirmou Boubacar.

Ao poder público, por meio de uma carta, eles pediram a "liberação de alvarás, mesmo que de forma provisória; um espaço para o livre exercício do trabalho; o fim da violência, do racismo, das abordagens diferenciadas, violentas e segregadoras".

 

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