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Dúvida sobre autoria de crime faz Justiça libertar jovem preso há um mês em SP

23.ago.2017 - Jonathan de Araújo Sousa, 18, é solto do CDP de Guarulhos por falta de provas - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Jonathan de Araújo Sousa corre para abraçar a família ao sair do CDP
Imagem: Arquivo Pessoal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

23/08/2017 19h00Atualizada em 24/08/2017 08h23

O vendedor de loja de roupas Jonathan de Araújo Sousa, 18, foi para casa, na tarde desta quarta-feira (23), após a Justiça de São Paulo entender que não há provas suficientes para sustentar a acusação feita por policiais militares de que ele teria roubado uma moto.

O UOL revelou que, a polícia investiga se o jovem foi baleado por um PM e preso por engano em 9 de julho deste ano.

Os policiais envolvidos na ocorrência, Carlos Henrique Fogaça Mattos, 29, e Marcos Roberto Santos de Almeida, 44, foram afastados do trabalho operacional e atualmente trabalham na parte administrativa da corporação enquanto a Corregedoria da PM apura o caso.

Segundo a versão apresentada pelos PMs à Polícia Civil, Sousa atirou contra eles e foi reconhecido pela vítima do roubo. A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos policiais.

01.ago.2017 - Vendedor Jonathan de Araújo Sousa, 18, baleado por um PM na zona sul de SP - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
"Acho que tomei um tiro", teria dito ao amigo que o socorreu, segundo a polícia
Imagem: Arquivo Pessoal

Sousa ficou preso por um mês preso no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Guarulhos, na Grande São Paulo. Antes, ficou oito dias internado no Hospital da Pedreira, na zona sul da capital, por ter sido baleado nas costas pelos PMs, e outros sete dias em DPs (Distritos Policiais) da zona sul, antes de ser encaminhado ao centro de detenção.

"Após a prisão, apresentamos provas claras de que Jonathan era inocente. Ele estava no lugar errado e na hora errada. A moto dele, com a marca de tiro, era vermelha. Os policiais afirmaram que a moto roubada era branca. Havia provas de que ele estava na casa de um amigo no momento do roubo da moto branca", afirmou ao UOL o advogado de Sousa, Afonso Luís Fernandes de Oliveira.

A liberdade provisória foi concedida pelo juiz José Roberto Cabral Longaretti, da 13ª Vara Criminal da Barra Funda, pela tese de dúvida sobre os fatos. “Diante daquilo que consta dos autos e considerando também a manifestação favorável do Ministério Público, bem como que a instrução oral já foi concluída, concedo ao acusado liberdade provisória condicionada a não se ausentar da Comarca por mais de dez dias sem prévia comunicação ao Juízo, bem como não mudar de endereço também sem prévia comunicação”, determinou Longaretti.

Antes da liberdade, o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) enviou ao juiz um relatório que apontava “indícios” da inocência de Jonathan. À reportagem, o advogado Ariel de Castro Alves, membro do conselho, disse que "a concessão já denota que a Justiça está reconhecendo que existem indícios que ele seja inocente e foi vítima de um flagrante forjado e de abusos praticados por policiais".

23.ago.2017 - Jonathan de Araújo Sousa, 18, é solto do CDP de Guarulhos por falta de provas - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Jonathan de Araújo Sousa abraça a avó ao sair do CDP de Guarulhos por falta de provas
Imagem: Arquivo Pessoal

Segundo Alves, das duas vítimas do roubo da moto, uma não reconheceu Sousa como o criminoso que roubou o veículo, afirmando que o ladrão estava com capacete na cabeça, e outra o reconheceu através de uma foto, tirada pelo policial Carlos Mattos, através do aparelho do PM, dentro do Hospital da Pedreira, quando o jovem estava internado.

"O sorriso dele foi o que mais me fez falta"

A mãe de Sousa, a atendente Irene Araújo, 35, afirmou que "a felicidade de buscar o Jonathan no CDP para levar para casa não tem tamanho, não tem dimensão. Não há dimensão para descrever como todos da família e amigos estão felizes". Na manhã desta quarta-feira, 10 pessoas esperavam na frente do CDP a saída do vendedor.

"Meu filho é um menino de caráter. Formado. É um menino de 18 anos, mas um menino de coração enorme. Na rua onde ele nasceu e se criou, todo mundo o conhece e o adora. Ele é trabalhador. Trabalha desde os 14 anos e sempre buscou conseguir as coisas com os esforços dele", disse a mãe.

"Esse tempo de prisão foi um tempo de muita angústia e de muita dor. Meu filho não fez nada para parar dentro de um lugar desses, para ter ficado entre a vida e a morte, numa mesa de cirurgia, perder o rim esquerdo, perder o pedaço de um intestino. Ele ama viver. Vive sorrindo. O sorriso dele foi o que mais me fez falta durante todo esse período", afirmou Irene Araújo.

23.ago.2017 - Jonathan de Araújo Sousa, 18, é solto do CDP de Guarulhos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Jonathan abraça a mãe na saída do CDP
Imagem: Arquivo Pessoal

Ao falar em perdão, a mãe diz que é "Deus quem tem que perdoar, não sou eu".

A caminho de casa, Jonathan conversou rapidamente com o UOL. Ele diz estar feliz ao lado da família de novo e afirma que é inocente. "A felicidade de estar na rua novamente é imensa. Nem caiu a ficha direito ainda", disse. "Todo mundo está aqui comigo graças a Deus. Tava com muita saudade de todo mundo", complementou.

"O pior de tudo era estar estar lá dentro sem ter feito nada. Até os próprios presos ficavam revoltados. Falavam: 'A gente tá aqui pagando pelo que fez, mas você, que não fez nada, não é certo'", afirmou. Os presos me ajudaram porque eu cheguei muito debilitado. E, querendo ou não, os agentes não são aqueles amores de pessoas", disse. 
 

As investigações

De acordo com a versão dos policiais militares à Polícia Civil, a qual o UOL teve acesso, o jovem de 18 anos dirigia a moto branca, roubada. "Ele [Sousa] se desequilibrou e caiu. Quando se levantava, colocou a mão na cintura, sacou uma arma e apontou", afirmam. Em uma suposta reação, um dos policiais atirou duas vezes.

Ainda segundo o depoimento dos PMs, logo após os disparos, Sousa teria conseguido fugir a pé e deixado cair uma arma, um revólver calibre 38 com numeração raspada. A moto vermelha não foi citada no registro da ocorrência. Os policiais afirmam ainda que, ao saberem que um homem baleado havia dado entrada no Hospital Pedreira, foram até lá para verificar se era o mesmo suspeito que haviam encontrado momentos antes.

A moto branca, recuperada e entregue aos donos, não teve nenhum dano. O mesmo não se pode dizer da moto vermelha, de propriedade do vendedor. Do lado direito da lataria, há uma perfuração causada por arma de fogo. Dentro do veículo foi encontrado um projétil de pistola calibre .40, o mesmo usado pela Polícia Militar.

Segundo o advogado Afonso de Oliveira, que defende Sousa, o vendedor estava pilotando sua própria moto e em nenhum momento teria dirigido a moto de cor branca roubada. "Sendo que esta somente passou por ele em alta velocidade", afirmou.

A defesa diz que, quando Sousa estava se aproximando da rotatória no final da rua, viu quando um rapaz que pilotava a moto branca tentou entrar em uma viela próxima. Neste momento, o suspeito teria jogado a moto no chão e saído correndo.

O vendedor teria continuado seu trajeto, em baixa velocidade, e, quando passava pela moto branca jogada no chão, viu um policial militar com a arma em punho. Sousa teria continuado seu trajeto normalmente, porque o PM não teria pedido para ele parar.

"Na sequência, escutou o primeiro disparo que acertou sua moto na lateral direita. Em seguida, escutou o segundo disparo, e, neste momento, sentiu uma forte dor nas costas e o sangue escorrendo. Ainda assim, conseguiu voltar para a casa de seu amigo, para pedir socorro", afirmou o advogado.

A Polícia Civil ouviu o amigo de Sousa. A reportagem não vai identificá-lo. Segundo a versão dele, por volta das 15h15, o vendedor chegou em sua casa, com a moto vermelha. Os dois teriam conversado por cerca de 30 minutos, logo após Sousa teria decidido ir embora.

Cerca de 10 minutos depois, segundo o amigo, Sousa teria retornado conduzindo a moto vermelha e pedindo ajuda. "Jonathan (Sousa) parou e disse: 'acho que tomei um tiro'. Eu vi que as costas dele estavam com sangue, levantei a blusa e vi que ele tinha tomado um tiro", afirmou à polícia. Na sequência, o amigo teria levado Sousa ao Hospital Pedreira.

Procurada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que "a Polícia Civil encaminhou os depoimentos e provas coletadas no dia da ocorrência à apreciação dos representantes do Ministério Público e do Poder Judiciário, que expediram o mandado de prisão preventiva contra o acusado. A arma encontrada no local dos fatos, assim como a de um policial, foi apreendida e encaminhada para perícia".

Ainda segundo a pasta, "a moto roubada foi periciada e entregue ao dono. A Corregedoria da Polícia Militar também instaurou inquérito policial militar para apurar a ocorrência. Os PMs que participaram da ação foram designados para serviços administrativos, sendo afastados do trabalho nas ruas até o término das investigações."

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