Rebelião em Goiás foi motivada por disputa entre PCC e o Comando Vermelho

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

O secretário da Segurança Pública e Administração da Penitenciária de Goiás, Ricardo Balestreri, confirmou que a rebelião que resultou em nove mortes em um presídio da região metropolitana de Goiânia, foi motivada pela disputa entre as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).

"Esse fato está largamente comprovado pelas investigações que estão sendo conduzidas e pela análise do nosso setor de inteligência", afirmou Balestreri, que está há dez meses no cargo. "Os líderes responsáveis pela ação já foram identificados".

"Essas facções dominam presídios em todo o Brasil, inclusive em Goiás. Elas disputam espaço mercadológico dentro e fora das prisões", disse. O termo mercadológico, segundo Balestreri, se refere refere à competição por áreas de tráfico de drogas, cooptação de membros para as facções e realização de crimes como assaltos a bancos. 

A guerra entre PCC e CV remonta ao ano de 2013 e teve origem em Mato Grosso, como mostrou reportagem do UOL publicada em 20 de agosto

Membros do CV local passaram a impedir que o PCC cooptasse novos criminosos nos presídios do Estado. A postura de enfrentamento ao grupo paulista começou a ser seguida por outras facções regionais e franquias do CV. A partir daí, começou uma disputa pelo controle dos presídios e das rotas de tráfico de drogas no país.

Divulgação/TJ-GO
Inspeção mostra buraco em prisão de Aparecida de Goiânia (GO)

A consequência direta dessa guerra foi a ocorrência de massacres em unidades penitenciárias no ano passado: Em Manaus, membros da FDN (Família do Norte), aliada do CV, mataram 56 presos no primeiro dia de 2017; a metade dos mortos era integrante do PCC.

Duas semanas depois, foi a vez do troco do PCC: 26 integrantes do Sindicato do Crime do RN foram assassinados no Presídio de Alcaçuz (RN).

Para o crime, Goiás tem posição estratégica

Localizado na região central do país, o Estado de Goiás ocupa uma posição estratégica dentro da lógica de negócios do crime organizado.

"Pela posição geográfica, Goiás é um centro de distribuição para outros Estados e, além disso, está nas proximidades do Distrito Federal, que é um mercado (para venda de drogas) cobiçado por esses grupos criminosos", afirma o vice-presidente da Fenapef (Federação Nacional de Policiais Federais), Flávio Werneck.

"Por ser uma cidade com um grande contingente de pessoas pertencentes à classe média, Brasília é um grande mercado consumidor de cocaína e seus derivados de alta qualidade", completa.

De acordo com investigadores federais ouvidos pelo UOL, o PCC busca manter posição em cidades goianas próximas do Distrito Federal, onde há um contingente policial proporcionalmente menor que o da capital federal.

O contraponto ao grupo paulista são quadrilhas ligadas ao Comando Vermelho, com origem no Rio de Janeiro. "Esse movimento dessa facção paulista de se firmar posição em Goiás se intensificou nos últimos dois anos e meio", afirma Balestreri. "Essa facção paulista tem dois adversários: a facção inimiga e o Estado democrático de direito. Nossa polícia vem aumentando o número de prisões com consequência direta na redução de 12 índices de criminalidade".

Como aconteceu a rebelião

De acordo com o governo goiano, a rebelião começou por volta das 14h de segunda-feira (1º), quando presos da ala C da Colônia Agroindustrial do Regime Semiaberto do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia invadiram as alas A, B e D. Estas alas abrigam detentos do chamado grupo dos "bloqueados" --os que cumprem pena em regime fechado dentro da colônia. 

Claudio Reis - 2.jan.2018/O Popular/AFP
Foragidos são levados de volta para a cadeia em Aparecida de Goiânia

A instituição tem um total de 768 "bloqueados", sendo que a ala C é a mais numerosa, com 449 presos. Esta ala é dominada por presos integrantes do PCC. 

Dos nove mortos -- cujos corpos foram carbonizados -- sete pertenciam ao Comando Vermelho. Ou seja, a suspeita é que os integrantes do PCC mataram seus rivais do CV.

Uma inspeção feita nesta quarta-feira (3) na cadeia de Aparecida de Goiânia (GO) revelou a existência de um buraco na parede de uma das alas da prisão. O furo liga o interior de uma das celas à parte externa da prisão.

Até a noite de quarta-feira, 99 detentos ainda estavam foragidos após a rebelião e outros 143 haviam sido recapturados, segundo a Seap-GO (Superintendência de Administração Penitenciária de Goiás).

Com isso, entre foragidos e recapturados, o total de presos que fugiram durante a rebelião chega a 242.

Goiás diz que vai separar presos por periculosidade

Em entrevista, o secretário Ricardo Balestreri afirma que uma das dificuldades do sistema prisional de Goiás decorre do fato de que as vagas nos presídios são "administradas" pelo sistema judiciário e não pelo Executivo. "Então nós não conseguimos fazer transferências de presos sem autorização dos juízes responsáveis por cada caso", afirma.

De acordo o secretário, essa situação deverá mudar, a partir da entrada em vigor de uma lei recém-aprovada pela Assembleia Legislativa de Goiás.

"A lei, cuja sanção do governador deve ser publicada nesta quinta-feira, cria uma diretoria de administração penitenciária, órgão do Poder Executivo, que decidirá sobre transferências de presos, por exemplo", diz Balestreri, que passará a responder apenas pela Segurança Pública do Estado.

Outra ação que, segundo ele estava prevista antes da rebelião do dia 1º, é a criação de cinco novos presídios. "Nestas novas prisões, os presos serão separados pelo grau de periculosidade. Não podemos mais colocar na mesma unidade prisional pessoas que cometeram crimes menos graves para conviver com líderes de facções criminosas".

Outra medida prevista é a redução pela metade das atuais 142 unidades prisionais de Goiás e a contratação temporária 1,6 mil agentes penitenciários.

Dois agentes penitenciários são mortos a tiros em Anápolis (GO)

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