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Ataques à intervenção marcam novo ato por Marielle no Rio; chuva prejudica manifestação em SP

20.mar.2018 - Manifestantes se concentram em frente ao MASP (Museu de Arte de São Paulo), na avenida Paulista, centro da capital, para mais um ato em memória da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista Anderson Gomes, que foram assassinados na última quarta-feira (14) - Marcos Bizzotto/AGIF/Estadão Conteúdo - Marcos Bizzotto/AGIF/Estadão Conteúdo
Ato por Marielle e Anderson em São Paulo foi realizado no vão livre do Masp
Imagem: Marcos Bizzotto/AGIF/Estadão Conteúdo

Carolina Farias, Paula Bianchi e Mirthyani Bezerra

Do UOL, no Rio e em São Paulo

20/03/2018 19h11Atualizada em 20/03/2018 22h29

Seis dias após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, manifestantes se reuniram novamente nesta terça-feira (20), em diversas cidades do Brasil, em homenagem à psolista e contra a violência no país.

O PSOL convocou movimentos em 16 estados brasileiros. O maior ato se concentrou na Cinelândia, zona central do Rio de Janeiro, tal como na semana passada, e teve maciça participação feminina. Por volta das 18h40, a manifestação tomava conta de toda a avenida Rio Branco. O ato só dispersou depois das 22h. Os organizadores não divulgaram estimativa de público. A PM acompanhou o ato à distância, com poucos homens, e também não fez estimativa de número de participantes.

A concentração teve início às 17h, quando começaram a ser feitos discursos em um palco montado em frente à Câmara dos Vereadores. Um ato ecumênico também foi realizado no local.

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Tanto os discursos quanto as palavras de ordem dos manifestantes atacaram, principalmente, a intervenção de caráter militar na segurança pública do estado do Rio e a violência no estado. Ágatha Arnaus Reis, mulher de Anderson, e Anielle, irmã de Marielle, subiram ao palco para falar.

"Nós também moramos na favela, no Complexo do Alemão, e meu marido também representava os trabalhadores vítimas do estado incompetente como muitos aqui, que nem sabem se vão chegar em casa hoje quando saírem daqui", discursou Ágatha.

As palavras de Anielle também foram de indignação. "Estou aqui em nome da minha família. Não esperávamos por isso, estou muito indignada, com sangue nos olhos. Vou lutar por justiça, não vou descansar enquanto não for resolvido. Não sou política, sou professora de inglês, mas também luto pelos direitos humanos”, disse. "A Marielle não era bandida, não recebia do tráfico nem foi casada com traficante. Não vão destruir o que minha irmã construiu e se precisar sairei de casa todos os dias para falar isso".

Mais tarde, familiares de Marielle e Anderson foram novamente chamados ao palco e foram fortemente aplaudidos por todo o público. Eles acompanham a série de falas e apresentações em homenagem aos dois.

A frente do ato foi puxada por um grupo de percussão formado exclusivamente por mulheres. Tanto no carro de som quanto na rua, houve uma predominância de mulheres na caminhada. "Por Marielle eu digo não, eu digo não a intervenção" é uma das frases entoadas pelos manifestantes, que também gritam pelo fim da Polícia Militar e contra o governo do presidente Michel Temer (MDB).

Como ocorreu no movimento da semana passada, a manifestação de hoje também teve poucas bandeiras de partidos políticos, a maioria de PSOL e PSTU. Diversos manifestantes carregaram cartazes escritos a mão com frases como: "Seu sangue não ficará impune", "Marielle vive e diz não à intervenção", "Marielle, lutaremos juntas para sempre” e "Marielle presente".

Ao longo da Rio Branco, placas de nomes da avenida e de ruas concorrentes foram trocadas pelos manifestantes por cartazes com o nome de Marielle.

Dona Maria Eduarda, 92 anos, é uma das participantes do ato. Ela segura um cartaz com a foto da vereadora e foi levada ao caminhão para discursar. "Quiseram me dar um cartaz de 'quem matou Marielle'. Eu não aceitei porque eu sei quem matou Marielle. Quem a matou matou Chico Mendes, matou a irmã Dorothy [Stang], mata os indígenas que lutam pelas suas terras todos os dias, mata quem luta pela reforma agrária, quem mata o povo negro nas ruas todos os dias", declarou, em fala que emocionou grande parte das pessoas próximas ao caminhão de som.

Quem também participou do ato foi Alfredo Jacinto, 74 anos, o Alfredinho, dono do bar Bip Bip, que foi conduzido na madrugada de segunda (19) para uma delegacia após fazer uma homenagem a Marielle durante um samba em seu bar. Na ocasião, um policial rodoviário federal se incomodou com a menção à vereadora. "Fiquei triste pelos meus amigos que passaram a madrugada comigo. Me senti maltratado na delegacia. Mas depois fiquei feliz. Recebi mais de cem ligações. O Chico Buarque esteve no bar para falar comigo, mas eu não estava. Um vizinho me deu o recado. Hoje estou fortalecido", disse ele.

A arquiteta Paula Pimenta foi ao ato com a irmã e a mãe, de 74 anos, presa política durante a ditadura. As três levavam uma faixa de pano bordada a mão durante o Fórum Social Mundial, que ocorreu na Bahia, na semana passada. "Minha mãe foi presa, torturada. Ver o assassinato da Marielle me faz pensar que voltando à época da ditadura", afirmou.

Diversos artistas acompanharam o ato na Cinelândia. A atriz Monica Martelli se disse emocionada por participar do movimento. "Eu estou muito emocionada por estar aqui. Exercendo meu papel de mulher, de mãe, de cidadã. Esse momento que a gente está passando, de rede social, isso que está acontecendo aqui agora vai para o mundo inteiro. Então, eu só acredito na transformação com o povo na rua".

A cantora Gaby Amarantos disse que sua participação é uma maneira de sair do "ativismo de rede social". "Estou aqui hoje porque é uma luta muito importante para o nosso Brasil. A gente precisa falar do genocídio da população negra, a gente precisa falar da invisibilidade desse problema social e a gente precisa fazer com que as pessoas entendam que o Brasil não é um país para todos, não é um país onde existe igualdade", declarou.

O ato durou quase cinco horas, sem relatos de conflitos.

São Paulo

Em São Paulo, o ato previsto em memória da vereadora Marielle Franco sofreu com o forte temporal que caiu na cidade nesta terça-feira. O movimento teve início por volta das 18h no vão livre do Masp, na avenida Paulista, região central da cidade, uma hora depois do horário marcado, por causa das chuvas. Pouco depois das 20h, o protesto já havia dispersado. Segundo a Polícia Militar, 2 mil pessoas participaram. Nenhuma faixa da Paulista chegou a ser fechada.

Esse foi o terceiro protesto realizado em São Paulo em memória da vereadora e o que reuniu menos pessoas. O presidente do PSOL-SP, Juninho Palmarino, afirmou que avaliou a possibilidade de cancelar o evento por causa da chuva. "Íamos sair em passeata pela avenida Paulista. Mas não será possível. A cidade está cheia de pontos de alagamentos", disse.

Segundo ele, esse foi o segundo ato capitaneado pelo PSOL. "No ato da última quinta, o chamado foi do PSOL, mas vários movimentos sociais se somaram. O de domingo foi de maneira espontânea. E hoje estamos aqui com a Frente Povo Sem Medo", explicou.

Algumas bandeiras de ocupações do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) foram erguidas e, diferentemente do primeiro ato, não há bandeiras de partidos.

Um pequeno palco foi montado do lado esquerdo do vão livre para que líderes de várias religiões deixassem suas mensagens alusivas ao sétimo dia da morte de Marielle. Passaram por ele representantes do candomblé, umbanda, das igrejas católica e evangélica, budistas, judeus e muçulmanos. Velas foram distribuídas para o pequeno público que se concentrava no Masp no início do ato.

Além de religiosos, representantes de movimentos sociais e artistas também falaram durante a manifestação. A cartunista Laerte chegou de metrô por causa da chuva. "A chuva atrapalhou o ato. São Paulo entala quando chove", lamentou. Ela disse ainda que não conhecia Marielle, mas que se reconhece nela. "Não conhecia Marielle, não sei se ela me representava, mas eu me reconheço nela. Quando a gente se reconhece, a gente traz a força dela, a dignidade dela".

Uma missa de sétimo dia já havia sido realizada por volta do meio dia no Largo do São Francisco, na região central.

Cotidiano