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Com testemunha-chave, tiros e isolamento, polícia reconstitui morte de Marielle no Rio

Paula Bianchi e Marina Lang

Do UOL e colaboração para o UOL, no Rio

10/05/2018 23h00Atualizada em 11/05/2018 04h30

Com a presença de testemunhas-chave e isolamento total da área, a Polícia Civil do Rio de Janeiro começou pouco antes das 23h desta quinta-feira (10) a reconstituição dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes.

Houve cinco episódios de tiros entre 2h50 e 3h56 A polícia alternou tiros sequenciais e rajadas de disparos de uma arma automática. O trabalho pretende observar questões relativas à arma usada no crime e à perícia do atirador durante a emboscada, segundo informou ao UOL fonte ligada à investigação.

A fim de preservar as testemunhas do assassinato da vereadora e do motorista, a polícia “envelopou” com lonas negras todo o perímetro do crime, ocorrido no centro da capital fluminense, a cerca de 700 metros da prefeitura.

Preparação

Por volta das 19h, agentes passaram cordas de um lado a outro da rua João Paulo I. O carro em que Marielle e Anderson estavam chegou ao local pouco tempo depois, cercado por policiais e militares. O isolamento das áreas no entorno do local do assassinato começou às 20h. Os trechos interditados foram a rua Joaquim Palhares, entre as ruas Haddock Lobo e Ulysses Guimarães; a rua João Paulo I, entre a avenida Paulo de Frontin e a rua Joaquim Palhares; e a rua Estácio de Sá, entre as ruas Hélio Beltrão e Joaquim Palhares.

Segundo o delegado Giniton Lages, titular da delegacia de Homicídios e principal responsável pela operação desta noite e madrugada, a reconstituição tem como objetivo reproduzir as condições exatas do assassinato. “Não contamos com imagens do momento em que o crime ocorreu. Em investigações com esse problema, a reprodução simulada é imprescindível”, afirmou.

Segundo ele, participam da ação as pessoas que presenciaram o crime, como é o caso da assessora da parlamentar que estava no carro com ela e sobreviveu ao ataque. “As testemunhas estão aqui, irão tentar reproduzir suas impressões do momento. É importante reconstruir toda a dinâmica. A percepção exata da movimentação dos carros, dos sons ouvidos, a perícia do atirador”, afirmou.

Lages evitou comentar as suspeitas sobre o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Curicica, apontados por uma testemunha como mandantes do crime, segundo o jornal “O Globo”. “Independentemente de qualquer reportagem da imprensa, a delegacia continuará cumprindo o protocolo de não divulgar nenhuma informação. O sigilo é fundamental para esta investigação.”

Paula Bianchi/UOL
10.mai.2018 - Lonas foram colocadas na rua do crime para garantir o sigilo dos trabalhos Imagem: Paula Bianchi/UOL
Os testes com munição e armamento --há indícios de que tenha sido um modelo HKMP5, arma desenvolvida na Alemanha na década de 1960-- podem embasar provas a partir da possível apreensão da arma empregada no crime e da identificação dos suspeitos.

Sacos de areia foram colocados no local do crime, no bairro do Estácio --o intuito é criar barreiras de proteção, já que a reconstituição terá tiros reais para simular os assassinatos.

As hipóteses analisadas pela equipe de peritos criminais e de delegados da Divisão de Homicídios serão cruzadas com depoimentos de testemunhas do crime.

Polícia do Rio isola local de reconstituição de assassinato

UOL Notícias

Para que serve a reconstituição?

Fontes ligadas à Polícia Civil afirmaram que o intuito é observar a perícia do atirador e questões relativas à arma, uma vez que serão dados tiros reais.

Trata-se de uma forma de obter provas técnicas para se chegar à autoria dos assassinatos, segundo o delegado Orlando Zaccone, que atualmente está licenciado. “Talvez a linha de investigação esteja voltada para a apreensão da arma, ou seja, a investigação chegaria no autor por meio da arma”, opina.

Testemunhas que prestaram depoimento à Divisão de Homicídios participam --caso da assessora, além de pessoas que se encontravam na rua no momento do crime.

“Tem que ser feito com a presença dela [assessora de Marielle] para averiguar a posição do carro, o momento dos disparos, o quanto o carro andou depois dos disparos. Ela vai dar informações que podem esclarecer dúvidas”, analisa Zaccone.

De acordo com o delegado, hipóteses são aferidas a partir do conjunto de evidências do inquérito e dos relatos das testemunhas. Daí o uso de munição e armamento real para efetuar esses testes.

Luis Kawaguti/UOL
Sacos com areia serão usados para tiros no local da reconstituição Imagem: Luis Kawaguti/UOL

O direcionamento, no entanto, vai ser dado pelos delegados que presidem o inquérito. “Há uma série de perguntas que podem ser feitas: foram as cápsulas achadas no chão que atingiram Marielle? Esse tipo de armamento poderia ter feito os disparos da forma que foi feito? E assim por diante”, explica.

Além da apuração sobre a arma usada no crime, a versão de testemunhas também será averiguada. 

“Muito provavelmente a polícia teve acesso a testemunhos que parecem plausíveis ao longo do período que decorreu do crime e quer testar uma ou mais versões”, analisa Hélio Buchmüller, presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses (ABCF).

Segundo ele, a perícia vai verificar se tudo o que foi coletado até então é possível. “Uma testemunha diz que viu e ouviu aquilo; a perícia vai verificar se é possível de acordo com as condições: horário, iluminação, distância. É um processo complexo que requer experiência”, relata.

Na avaliação dele, o fato de a reconstituição ocorrer quase dois meses após os assassinatos não deve prejudicar as investigações. “Ainda que seja quase dois meses depois, é melhor fazer do que não fazer. É um processo muito interessante para verificação de versões”, finaliza.

Carro de Marielle foi perseguido; 13 tiros foram disparados

O carro de Marielle foi perseguido por um Cobalt prata após deixar um evento no centro da cidade. Na rua Joaquim Palhares, o veículo onde estava a parlamentar foi fechado, e um homem que estava no banco de trás do automóvel perseguidor fez os disparos, de acordo com relatos colhidos pelo jornal “O Globo”. Uma testemunha disse que viu o braço do atirador para fora do carro e declarou que ele era negro.

Ainda de acordo com as testemunhas, a rajada foi abafada --o que indica o possível uso de um silenciador. Foram 13 tiros disparados, quatro dos quais atingiram a cabeça de Marielle e dois, as costas de Anderson.

Cápsulas de projéteis de calibre 9 mm foram deixadas para trás pelos assassinos, algumas delas do lote UZZ 18, extraviado da Polícia Federal e relacionado a outros crimes, como a maior chacina de São Paulo, onde 23 pessoas foram mortas por policiais militares e um guarda civil.

Reprodução/Globo News
Imagem obtida pela polícia mostra carro perseguindo veículo da vereadora Imagem: Reprodução/Globo News

Segundo a polícia, a arma que matou Marielle e Anderson foi uma submetralhadora --usada em dezenas de países, ela tem diversas variações de modelos e é considerada muito comum. No Brasil, o modelo HKMP5 é usado por forças de segurança (polícias militares e federal), colecionadores e pode ser adquirida ilegalmente no mercado paralelo. É uma arma usada geralmente em combates a curta distância.

Tanto as placas quanto o próprio carro foram clonados pelos executores do crime.

Nesta semana, novas informações vieram a público. Uma testemunha procurou a polícia envolvendo o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Oliveira de Araujo, também conhecido como Orlando da Curicica, nos assassinatos, segundo reportagem do jornal "O Globo".

Ambos negam qualquer relação com o crime: Siciliano disse ter boa relação com Marielle, e o ex-PM afirmou que o delator é um policial militar da ativa que age por vingança.

O delator também revelou, segundo o jornal carioca, que um policial lotado no 16º BPM (Olaria) e um ex-policial do 22º BPM (Maré) estariam no carro usado na morte de Marielle. Procurada, a PM informou não ter sido "comunicada sobre o envolvimento de policiais militares no caso em questão".