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Vereador nega envolvimento em morte de Marielle e diz que relação com ela era boa

Marcello Siciliano convocou uma entrevista coletiva para negar as acusações - Fabiano Rocha/Agência O Globo
Marcello Siciliano convocou uma entrevista coletiva para negar as acusações Imagem: Fabiano Rocha/Agência O Globo

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

09/05/2018 10h22Atualizada em 09/05/2018 17h48

Após ter o nome ligado ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, o vereador Marcello Siciliano (PHS) negou ter relação com o crime e disse que tinha carinho pela colega de Câmara.

"Minha relação com Marielle era muito boa, tínhamos carinho um pelo outro", disse em entrevista à imprensa na manhã desta quarta-feira (9). "Nunca tivemos conflitos políticos em região alguma", afirmou.

Segundo reportagem do jornal “O Globo”, publicada na terça-feira (8), uma testemunha que não teve a identidade revelada e que disse ser ligada a uma milícia do Rio afirmou que Siciliano e um ex-PM queriam a morte de Marielle. O ex-policial Orlando Oliveira de Araújo está preso em Bangu sob acusação de chefiar uma milícia em Curicica, na zona oeste carioca.

Procurada, a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Rio de Janeiro reiterou que o caso continua em sigilo. A Polícia Civil não comentou se o vereador e o ex-PM são considerados oficialmente suspeitos do crime. A Secretaria de Segurança do Rio também não confirmou nem negou a denúncia.

A reportagem do UOL não localizou a defesa do ex-PM.

Em depoimento à polícia, a testemunha descreveu supostos encontros do vereador com o ex-policial militar, em que ambos teriam tramado o crime. Questionado, Siciliano disse que isso nunca aconteceu, mas não descartou a hipótese de conhecer Araújo devido à sua atuação política ativa nas ruas. "Esse encontro nunca existiu, é pura mentira", disse.

Em abril, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse que a principal linha de investigação da polícia diz respeito ao possível envolvimento de milicianos no caso.

Após a morte de Marielle, Marcello postou foto com ela e a definiu como: "amiga, guerreira, simpática, educada, inteligentíssima e, acima de tudo, da paz" - Reprodução/Facebook
Após a morte de Marielle, Marcello postou foto com ela e a definiu como: "amiga, guerreira, simpática, educada, inteligentíssima e, acima de tudo, da paz"
Imagem: Reprodução/Facebook

Ainda segundo a testemunha citada por "O Globo", a motivação do crime seria uma desavença entre Siciliano e Marielle em razão da expansão das ações comunitárias dela na zona oeste e sua crescente influência em áreas de interesse da milícia.

O vereador também disse que trabalhou em projetos em conjunto com Marielle. "Eu defendi o projeto [de políticas para] LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros] dela. Tenho um projeto em que ela é coautora. Ela sentava na minha frente, a gente conversava muito", afirmou.

Questionado sobre suspeita de envolvimento com milícias, o vereador também negou ter qualquer contato com grupos paramilitares. "Sou totalmente contra qualquer tipo de poder paralelo", afirmou. Disse ainda que o problema das milícias --grupos criminosos formados por ex-policiais que cobram taxas de "proteção" ao estilo mafioso-- é policial, e não político.

Siciliano já prestou depoimento à polícia no caso Marielle na condição de testemunha. Ele disse que, "com certeza, não deveria ser investigado".

Ele classificou a notícia publicada por "O Globo" como um “factoide” e uma “nota mentirosa no jornal”. Afirmou também que a testemunha seria uma “pessoa sem credibilidade que se associou a um grupo paramilitar”.

Procurado pela reportagem, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) informou que só irá comentar o caso após o fim das investigações. O vereador Tarcísio Motta (PSOL) também não comentou as suspeitas com relação ao colega e disse que a bancada do partido solicitou uma reunião com a chefia da Delegacia de Homicídio, responsável pelas investigações.

Colaborador assassinado

Em seu depoimento, a testemunha também teria afirmado que o assassinato no início de abril de Carlos Alexandre Pereira Maria, um colaborador do vereador Siciliano, teria sido queima de arquivo.

O vereador disse não acreditar que a morte de seu colaborador esteja ligada ao assassinato de Marielle. Segundo ele, a vítima trabalhou um ano e três meses para seu gabinete. Siciliano disse ainda que disponibilizou 80 ofícios ligados ao colaborador que provariam o teor do trabalho dele.

"Quando eu quis mostrar o trabalho que ele fez de levar as demandas das comunidades para o gabinete, ninguém se interessou. Só mostraram foto dele com um relógio de ouro", disse.

Siciliano disse esperar que o caso seja esclarecido o mais rápido possível e que está sendo massacrado injustamente nas redes sociais. Questionado, ele disse que no momento não adotará medidas judiciais contra os responsáveis pelas acusações.

Sessão na Câmara cancelada

Nesta quarta, a sessão ordinária da Câmara de Vereadores marcada para começar às 14h foi cancelada por falta de quórum. De acordo com a assessoria do vereador Tarcísio Motta (PSOL), cancelamentos por este motivo são recorrentes, mas a situação desta quarta chamou a atenção por ter sido definida antes mesmo do começo da sessão.

De acordo com o parlamentar, às 14h15, o vereador Rogério Rocal (PTB) anunciou no plenário, no lugar do presidente Jorge Felippe (PMDB), que a sessão não seria aberta por falta de quórum. “Cair a sessão é comum. Nesse caso, nem começou. Isso é incomum”, disse a assessoria de Motta.

Questionada sobre o cancelamento e se haveria alguma relação com as investigações do assassinato da vereadora, a Câmara de Vereadores não se pronunciou.

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