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Mãe achava que filha mantida 20 anos em cárcere privado estava morta

Thiago Varella

Colaboração para o UOL, em Campinas (SP)

25/06/2019 21h14

A família de dez irmãos plantava café em um sítio em Colorado (PR), quando, a convite de um tio, Iva da Silva Souza, então com 17 anos, foi se aventurar em São Paulo para trabalhar como empregada doméstica. A princípio, ela ainda se comunicava algumas vezes com a família, até que, há cerca de 20 anos, desapareceu de vez.

Todos, inclusive a mãe, já davam Iva como morta, quando, na madrugada de hoje, a polícia descobriu que a mulher, hoje com 63 anos, estaria sendo mantida em condições análogas à escravidão em uma casa em Vinhedo, no interior paulista.

"A gente nem acreditou quando soube. Estou indo agora para Vinhedo ver minha irmã", contou Odete da Silva Souza, 57, que há cerca de 47 anos não vê a irmã mais velha. Ela pretende levar Iva para morar com sua família em Araraquara (SP).

Segundo a polícia, Iva morava na casa do casal Ecio Pilli Junior, 47, e Marina Okido, 65. Ambos foram presos em flagrante por estelionato, tortura e cárcere privado. Aina segundo a polícia, eles obrigavam a vítima a cuidar da mãe de Marina, uma idosa de 88 anos que está acamada, sem pagar salários ou deixar que ela saísse da casa de dois cômodos. O casal também guardaria os documentos de Iva e a agrediria periodicamente, segundo apontam as investigações.

Marina Okido e Écio Pilli Júnior foram presos sob a suspeita de manter Iva em cativeiro durante ao menos 20 anos - Reprodução/Polícia Civil
Marina Okido e Écio Pilli Júnior foram presos sob a suspeita de manter Iva em cativeiro durante ao menos 20 anos
Imagem: Reprodução/Polícia Civil
A polícia descobriu o crime por acaso, após uma denúncia de estelionato. O casal estaria passando cheques sem fundo em nome de Iva. Após a denúncia, policiais militares foram até a casa do casal e lá encontraram a vítima, que, demonstrando descontrole emocional, teria implorado: "Vocês precisam realmente saber o que está acontecendo. Me ajudem".

A vítima trabalhava para a família há muitos anos, desde que saiu do Paraná. No início, recebia salário normalmente, segundo a polícia. No entanto, após a morte do pai de Marina, teria passado a ser proibida de deixar a casa. Chegou a receber a visita da mãe e de um irmão, mas os teria atendido na porta de maneira seca.

Aos poucos, o contato foi sendo perdido. A família de Iva chegou a registrar um boletim de ocorrência relatando o desaparecimento, mas nunca descobriu o que realmente havia ocorrido com ela.

Conheça a casa onde casal manteve idosa em cárcere privado

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João Roberto da Silva Souza, 48, era uma criança quando a irmã saiu de casa. Segundo ele, a mãe, Maria da Silva, 91, já tinha perdido as esperanças de encontrar a filha viva. A idosa mora em Jesuíta (PR) e não para de receber visita dos parentes atrás de mais notícias sobre Iva.

"O grande sonho da vida da minha mãe era rever essa filha, mas achava que ela tinha morrido. Todos nós, os dez irmãos, estamos vivos. Essa alegria ela vai voltar a ter", afirmou José.

Após ser encontrada, Iva foi levada para um abrigo municipal em Vinhedo. Segundo relatos, ela está bastante alterada e, constantemente, se coloca como culpada da situação. Já a mãe de Marina foi levada à Santa Casa de Vinhedo, onde está internada.

Cotidiano