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Conteúdo publicado há
5 meses

Como substância que a Backer diz não usar pode ter contaminado cerveja?

Cerveja Belorizontina, da cervejaria Backer - Divulgação
Cerveja Belorizontina, da cervejaria Backer Imagem: Divulgação

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

16/01/2020 18h19Atualizada em 17/01/2020 13h13

Resumo da notícia

  • Ao menos 3 mortes e mais de uma dezena de internações são atribuídas a cerveja contaminada em MG
  • Polícia Civil identificou dietilenoglicol em amostras da cerveja -- substância tóxica, que a fabricante diz não usar
  • Mas outra substância, monoetilenoglicol, é empregada na fábrica
  • Professores de química avaliam possibilidade de monoetilenoglicol se transformar em dietilenoglicol

O Ministério da Agricultura avalia as amostras da cerveja Belorizontina, suspeita de ter causado a morte de quatro pessoas no fim do ano passado. A contaminação se deu pelo dietilenoglicol, substância tóxica que a fabricante Backer afirma não empregar em sua linha de produção.

O caso impõe às autoridades que conduzem a investigação um impasse a ser resolvido: se a substância não é utilizada na fábrica, como foi parar na cerveja?

Uma das suspeitas é que tenha havido um vazamento de uma substância parecida, o monoetilenoglicol — essa sim utilizada nas instalações da Backer. Ao entrar em contato com o ambiente ácido da cerveja, a substância pode ter se transformado em dietilenoglicol. Entenda:

De monoetilenoglicol para dietilenoglicol

Os professores de química explicam que o monoetilenoglicol é um líquido viscoso que passa por uma serpentina por fora ou por dentro dos tonéis de cerveja a fim de resfriar a bebida.

"Se pegar na mão, o monoetilenoglicol não é tóxico, mas não pode beber. Ele tem uma textura de óleo para bebê, é transparente e sem cheiro. Quando passa pelo tubo, tudo o que estiver encostado ficará gelado, mas sem congelar", explica Erick Leite Bastos, do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo).

Os especialistas suspeitam que esse produto vazou, entrou em contato com a cerveja e se transformou em dietilenoglicol.

Reação química

Outro professor do Instituto de Química da USP, Luís Francisco Moreira Gonçalves explica que o monoetilenoglicol e o dietilenoglicol se diferenciam apenas por "um radical etil". "O Monoetilenoglicol tem um e o dietilenoglicol tem dois." Embora seja fácil transformar o segundo no primeiro por hidrólise (quebra de molécula pela ação da água), é muito mais simples o contrário: basta que o monoetilenoglicol entre em contato com um ambiente ácido, com baixo pH.

"Esse é o caso da cerveja", explica Gonçalves. Além disso, o etanol presente na bebida se liga muito facilmente ao monoetilenoglicol, gerando mais dietilenoglicol. "Em contato com a cerveja, o monoetilenoglicol vai buscar o etanol para se ligar quimicamente."

"Isso deve ter acontecido por alguma ruptura ou uma rosca mal apertada", diz ele, que ressalta que não conhece as instalações da cervejaria.

"Meu palpite é que tenha vazado cerca de 5 litros de monoetilenoglicol em 100 litros de todo o líquido anti-congelante para 40 mil litros de cerveja."

O professor Bastos concorda. "Se cai monoetilenoglicol em um local com muita água e etanol —e esse é o caso da cerveja—, e se o meio está levemente ácido, haverá formação de dietilenoglicol."

O monoetilenoglicol era puro?'

Os Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária ainda avaliam as amostras apreendidas, mas os químicos não descartam a possibilidade de que o monoetilenoglicol fornecido não fosse puro.

"Como o monoetilenoglicol não era utilizado para fabricar a cerveja, mas para esfriá-la por fora, é possível que o fornecedor venda o produto com outras substâncias, como o próprio dietilenoglicol, em uma concentração baixa, de 1% a 3%", diz o professor Gonçalves. "É vantajoso porque o produto puro é mais caro."

Ele diz que o vendedor "não está preocupado com a contaminação", a não ser que o comprador deixe claro que precisa de um produto com 100% de pureza. "É normal. É assim no etanol e em muitos produtos químicos", diz.

Bastos afirma que é impossível ter essa certeza sem acesso às amostras, mas que em muitos casos a pureza da substância "não é muito importante porque não vai entrar em contato com a bebida". "O fluido puro custa caro", diz.

As duas substâncias não têm regulamentação no Brasil e raramente são utilizadas pelas cervejarias brasileiras, segundo a Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal).

A reportagem questionou a Cervejaria Backer e o Ministério da Agricultura sobre a pureza do monoetilenoglicol fornecido à empresa e quais as concentrações nas amostras apreendidas da cerveja. O UOL incluirá a resposta assim que ela chegar.

Na quinta-feira (16), a Polícia Civil de Minas Gerais cumpriu mandado de busca e apreensão em uma empresa que seria a fornecedora do monoetilenoglicol para a Backer.

Houve sabotagem?

Em pedido feito à Justiça para retomar a produção, a Backer anexou um vídeo que mostraria uma possível sabotagem, nos tanques de monoetilenoglicol da empresa. A juíza, porém, afirmou que a análise desta questão não deveria ser feita agora.

Após as primeiras mortes, veio à tona a história de uma demissão conturbada na Backer no fim de dezembro. Sentindo-se injustiçado e perseguido, o funcionário dispensado teria feito ameaças a um colega de trabalho, e um boletim de ocorrência chegou a ser registrado. Por isso, aventou-se a possibilidade de uma sabotagem contra a empresa.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi escrito, não existe um "grupo etil". A informação já corrigida diz agora que as duas moléculas (monoetilenoglicol e dietilenoglicol) são parecidas, diferindo apenas por um radical etil.

Cotidiano