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Coronavírus

Filas de dobrar quarteirão 'quebram' bloqueio em São Gonçalo (RJ)

Herculano Barreto Filho e Caio Blois

Do UOL, em São Gonçalo

11/05/2020 19h14

O primeiro dia de bloqueio rígido em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, teve longas filas e falhas de fiscalização. Guardas municipais relataram ao UOL que o efetivo "não dá conta" para fiscalizar o município, que tem mais de 1 milhão de habitantes.

No mesmo quarteirão da sede da prefeitura, havia mais de 300 pessoas espalhadas por três agências bancárias, com esperas de até duas horas. A prefeitura diz não ter ingerência sobre o funcionamento de bancos e que pode apenas orientar os funcionários das agências sobre os procedimentos adequados de distanciamento social.

Uma equipe de guardas municipais, fiscais, vigilância sanitária e Defesa Civil bloqueou hoje de manhã o Calçadão de Alcântara, um dos maiores pontos de aglomeração em São Gonçalo, em uma área com 4.200 m². Cerca de 200 mil pessoas circulam diariamente em uma área onde atuam cerca de 800 camelôs. A fiscalização será mantida no local até sexta-feira (15).

A cidade, que é a segunda maior do estado, teve seu prefeito, José Luiz Nanci (Cidadania), contaminado pelo novo coronavírus. A vizinha Niterói também deu início hoje a um bloqueio total —no jargão técnico, lockdown— com guardas medindo a temperatura da população e encaminhando os que tinham febre a hospitais.

A administração municipal determinou que os estabelecimentos em funcionamento —como mercados, farmácias e padarias— disponibilizem álcool em gel e obriguem os clientes a entrarem com máscara de proteção. Segundo o decreto municipal, quem descumprir a determinação pode pagar multa de R$ 9.000.

No entanto, o UOL flagrou estabelecimentos comerciais funcionando irregularmente. A reportagem registrou a imagem de um restaurante aberto, oferecendo comida a quilo em uma rua nas imediações da prefeitura. A prefeitura informou que uma equipe de fiscalização irá amanhã ao local para verificar a denúncia.

O efetivo não dá conta, diz guarda municipal

"O efetivo não dá conta. A reunião [para determinar as ações do bloqueio rígido] foi sábado, às pressas, para imitar Niterói. Não houve preparo. Não temos condições de segurar a população que está nas ruas", afirma um guarda municipal, que preferiu não se identificar.

Para fiscalizar a cidade, há apenas 315 agentes da unidade. O problema crônico de efetivo dificultou a fiscalização, apontam os agentes.

"As pessoas não estão respeitando. Nós não conseguimos fazer muito mais do que pedir para as pessoas se afastarem em filas. Não podemos mandar ninguém para casa. O trabalho está sendo educativo agora que os casos estão se acumulando", lamenta outro guarda.

Com bebê no colo em fila de banco

Em uma das filas de banco, uma idosa aguardava para tirar um extrato, e uma jovem sem máscara afirmava que o coronavírus não era tudo isso.

O vigilante Leandro Alberto dos Santos, 42, segurava a neta de apenas cinco meses no colo, enquanto a filha pagava uma conta dentro do banco. Eles rodaram 20 minutos em um ônibus até chegar ao local.

"Sei que não deveria estar na rua com um bebê, mas não tinha com quem deixar a minha neta", justifica.

Leandro criticou a falta de fiscalização nas ruas. "Você vê alguma fiscalização por aqui? Tire as suas conclusões. São Gonçalo está abandonada", desabafa.

Em outra agência bancária, o estudante Pedro de Paula, 30, enfrentava uma longa fila, que seguia o contorno da esquina e invadia a rua ao lado. "Mas temos que respeitar o isolamento social", diz.

Rede pública tem 80% dos leitos ocupados

Fechamos o maior centro comercial em São Gonçalo para reduzirmos essa curva acentuada de casos de coronavírus e prestar assistência a todos. O maior problema é o desrespeito às determinações de isolamento

Jeferson Antunes, secretário municipal de Saúde

Segundo a pasta, 80% dos leitos estão ocupados. A prefeitura faz obras para abrir 30 novas vagas (12 delas na UTI) no Hospital Samaritano ainda nesta semana.

Por meio de uma nota oficial, a prefeitura de São Gonçalo afirmou ser "necessário que a população tenha consciência sobre o problema que estamos passando e faça sua parte. As medidas têm como objetivo resguardar a vida dos gonçalenses e conter a propagação do coronavírus (covid-19) na cidade".

O decreto de bloqueio rígido pode ser prorrogado, caso não ocorra a diminuição do número de casos confirmados até 14 de maio.

A Fiscalização de Posturas da prefeitura enviou um ofício à Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), pedindo autorização para notificar todas as agências bancárias do município a manterem funcionários em suas áreas externas orientando a população sobre a importância do distanciamento social.

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