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Nazismo e xenofobia "surfam" na pandemia e denúncias triplicam na internet

Imagem divugada em redes sociais associa pandemia de coronavírus à China - Reprodução
Imagem divugada em redes sociais associa pandemia de coronavírus à China Imagem: Reprodução

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

25/05/2020 04h03

Grupos de extrema-direita, incluindo neonazistas, têm aproveitado a pandemia do coronavírus para intensificar sua atuação no Brasil. Pesquisadores que monitoram fóruns extremistas na internet já identificaram postagens de conteúdo preconceituoso e xenófobo relacionado à covid-19. Denúncias sobre esse tipo de atividade mais do que triplicaram, apurou a reportagem do UOL.

É o que aponta a Safernet Brasil, associação sem fins lucrativos que monitora crimes e violações de direitos humanos na web. A quantidade de alertas feitos à entidade sobre atividade neonazista na internet aumentou 253% na comparação entre abril deste ano, já durante a pandemia, ante o mesmo mês do ano passado.

Em abril de 2020, a Safernet recebeu 307 denúncias, contra 109 páginas na internet voltadas ao público brasileiro, a respeito de atividade neonazista. No mesmo mês do ano passado, quando o coronavírus ainda não era um problema de saúde mundial, a entidade recebeu 87 denúncias, relacionadas a postagens em 46 páginas.

O número de denúncias relacionadas à xenofobia (preconceito contra estrangeiros) cresceu ainda mais, 271%. De 67 alertas feitos em abril de 2019, o número passou para 249 neste ano.

"Houve um aumento da xenofobia principalmente contra asiáticos, contra chineses", afirmou ao UOL o presidente da Safernet, Thiago Tavares. "Houve também um aumento da atividade neonazista."

Segundo Tavares, essa atividade está relacionada a postagens em defesa da eugenia (busca por uma raça "pura"), por exemplo, mas também a discussões para atos que são praticados no mundo real.

"A atividade não se encerra numa postagem", explicou Tavares. "Parte disso já está sob investigação."

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Extremistas buscam culpar outras nações pela covid-19

Xenofobia e alusão ao nazismo são crimes no Brasil, puníveis com prisão e multa. Apesar disso, pesquisa realizada pela antropóloga Adriana Dias, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), já apontou a existência de 334 células neonazistas em atividades no país.

O professor Odilon Caldeira Neto, da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), também estuda a atividade de neonazistas e de outros movimentos de extrema-direita no Brasil. Ele já identificou a mobilização deles por conta da pandemia. Por isso, criou junto com colegas um projeto para acompanhar essa atividade, o "monitor: covid-19 e a extrema-direita".

Caldeira Neto disse que, de forma geral, os extremistas apontam determinados grupos ou populações como os culpados pela pandemia.

"Neonazistas vão dizer que há uma conspiração de judeus por trás do vírus", explicou. "Outros grupos de extrema-direita vão dizer que isso é uma tentativa da China de desestabilizar o mundo."

Segundo ele, muitas postagens baseiam-se em "teorias da conspiração". Mesmo assim, acabam servindo como justificativas para ataques reais.

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Pichações em representações chinesas no Brasil

O professor lembrou que, no final de abril, o muro do consulado da China em Botafogo, no Rio, amanheceu pichado com as frases "Virus Comunista" e "Fauzi herói". Fauzi remete a Eduardo Fauzi, membro de um grupo integralista e suspeito do ataque à sede do Porta dos Fundos. Ele está foragido.

Já em março, faixas com ofensas ao presidente chinês foram colocadas em frente à embaixada da China em Brasília.

Para Caldeira Neto, a crise econômica brasileira, aliada à pandemia, são uma "janela de oportunidade" para o crescimento de movimentos extremistas. "É fácil querer culpar um inimigo, um bode expiatório, pela nossa situação"

Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto, em Curitiba, lembrou que uma crise econômica e política combinada com reflexos da epidemia de gripe espanhola contribuíram para a ascensão do nazismo na Alemanha durante década de 1930.

Alemanha pré-nazismo passou por crise econômica e política

Para o pesquisador, levando em conta o histórico alemão, é preciso estar alerta ao contexto atual do Brasil. Segundo ele, o país também está em crise política e econômica, tem movimentos que defendem saídas autoritárias e antidemocráticas, e isso torna-se mais preocupante na pandemia.

No mês passado, o Museu do Holocausto divulgou uma nota de repúdio a declarações que continham referências nazistas emitidas no contexto da pandemia. A nota criticou, inclusive, um vídeo divulgado pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) da Presidência da República, que usou uma frase presente em campos de concentração ao divulgar ações do governo federal para combate ao coronavírus.

Martel Alexandre del Colle, é policial militar aposentado e membro do grupo Policiais Antifacismo. Para ele, o discurso do governo federal incentiva a atividade de grupos de extrema-direita. Ele também reclama da falta de ação de autoridades para coibir os atos que ferem a lei.

"Há um acampamento armado em Brasília falando em eliminar comunistas, fechar o Congresso e o STF [Supremo Tribunal Federal]", reclamou, referindo-se ao grupo 300 de Brasília. "O Ministério Público disse que são uma 'milícia armada', mas a Justiça se negou a agir sobre eles."

Del Colle disse que o crescimento de movimentos extremistas no Brasil é anterior à pandemia, mas se aproveita dela. Para ele, a agressividade contra "o diferente" está sendo estimulada durante o período de isolamento social. Ele teme os efeitos disso quando o contato for retomado.

"Essa agressividade vai ser refletir na nossa sociedade", prevê Del Colle.

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