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Grupo que quer "exterminar a esquerda" continua acampado em Brasília

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/05/2020 18h37

Quando Jair Bolsonaro começou a aparecer na campanha presidencial de 2018, o seu nome, então quase desconhecido, registrava apenas um dígito nas pesquisas.

Ninguém, a não ser os filhos, levou a sua candidatura a sério.

Mas ele já estava em campanha fazia quatro anos, montando suas redes sociais no submundo da internet, sob o comando do filho Carlos o 02, com ramificações em todos os estados brasileiros.

Se não estava alimentando as redes ou participando de reuniões do baixo clero em Brasília, o ex-capitão viajava anonimamente pelo país para participar de solenidades de formatura em tudo o que era quartel do Exército, dos bombeiros e das polícias militares estaduais.

Esses fiéis seguidores fardados, que ele defendia na Câmara havia vários mandatos, como um líder sindical das tropas, mobilizavam pessoas a paisana para recepcionar o candidato em suas aparições, quando ele chegava nos aeroportos, subia num caminhão para um rápido discurso, em que fazia arminha com os dedos, erguia crianças no colo, e seguia para as solenidades.

Quem não conhecesse sua atribulada passagem pelo Exército, de onde foi saído aos 33 anos, após planejar atos terroristas, e seus incendiários discursos em favor da ditadura militar na Câmara, poderia pensar que se tratava apenas de mais uma dessas candidaturas folclóricas que sempre aparecem nas eleições.

Por isso, ele era convidado para participar de programas de baixo nível na televisão, com apresentadores que o levavam meio na brincadeira, achando que era apenas um tipo engraçado.

Mas ele não estava de brincadeira. Aí apareceu o Posto Ipiranga do Paulo Guedes, para lhe abrir as portas dos empresários e da grana gorda, veio a facada de Juiz de Fora, o candidato que liderava as pesquisas foi retirado da disputa pela Lava Jato de Sergio Moro, e o resto é história conhecida.

Lembro-me de tudo isso porque, quando comecei a escrever sobre o ex-capitão no meu blog, ainda no começo da campanha, para mostrar o perigo que representava para a democracia, alguns amigos me criticaram por dar muito cartaz a um candidato que não iria nem para o segundo turno. E, se fosse, seria derrotado por qualquer outro.

Eleito e empossado, muitos apostavam que não tinha condições de completar seis meses no governo, como aconteceu com outro presidente exótico, o Jânio Quadros da renúncia.

E Bolsonaro está lá até hoje, barbarizando. Como explicar o fenômeno? De onde vêm esses "bolsonaristas de raiz", o núcleo duro de apoio do presidente improvável?

Para conhecer melhor o bolsonarismo autêntico, é preciso fazer como os repórteres Bernardo Mello e Guilherme Caetano, do Globo, que neste final de semana mostraram quem são os grupos acampados no gramado da Esplanada do Ministérios e em chácaras de Brasília para dar apoio ao presidente e combater seus inimigos, reais ou imaginários.

Foram esses grupos que promoveram as manifestações antidemocráticas e anticonstitucionais contra o Congresso e o STF, em defesa de uma intervenção militar, que agitaram Brasília nas últimas semanas _ duas delas, com a participação do presidente Bolsonaro.

Um desses grupos é a Organização Nacional dos Movimentos (ONM), criada em meados do ano passado. Outro é o chamado "Acampamento Patriota", liderado por Renan da Silva Sena, que até outro dia era funcionário do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos.

Renan e a empresária Marluce Carvalho, de Tocantins, foram citados como agressores do grupo de enfermeiros que protestava diante do Palácio do Planalto, no Dia do Trabalho.

Outra ex-funcionária do ministério de Damares Alves, é a ativista Sara Winter, comandante do grupo "300 pelo Brasil", criado no mês passado, que tem divulgado manifestos sugerindo o uso de táticas de guerrilha para "exterminar a esquerda" e "tomar o poder para o povo".

Sara Winter é o nome de fantasia adotado pela militante, homônimo ao de uma socialite nazista, como Ancelmo Goís informou hoje em sua coluna no Globo.

No pequeno ajuntamento de bolsominions que continua acampado em Brasília, destaca-se também a figura de um certo "Comandante Paulo", segundo ele mesmo, militar da reserva, integrante do grupo "Soldados do Brasil", que em vídeo nas redes sociais anunciou a chegada de um comboio com 300 caminhões no último sábado.

"Vamos dar cabo dessa patifaria que está estabelecida em nosso país há 35 anos por aquela casa maldita ali, o Supremo Tribunal Federal", prometeu o guerrilheiro urbano.

Mas o comboio, até agora, não apareceu em Brasília. Segundo os acampados, houve um imprevisto: "Comandante Paulo" pegou a Covid-19 e está internado na UTI. Mais uma baixa na tropa.

A mil quilômetros dali, na avenida Paulista, em São Paulo, apareceu um outro comboio de caminhões para protestar contra o novo rodízio radical implantado na cidade para aumentar o isolamento social.

Sem pedir licença, tocando buzinas que parecem apitos de navio, carretas e vans foram chegando em carreata, vindos de vários pontos da cidade, na hora do almoço, e fecharam três quarteirões da avenida Paulista, na região próxima aos hospitais, como já haviam feito as carreatas da morte com carros blindados em três fins de semana seguidos.

Um dos caminhões carregava o caixão com as imagens do prefeito Covas e do governador Doria, o principal alvo da manifestação, em defesa de Bolsonaro e pelo fim da quarentena.

Em Brasília, as manifestações, cada vez mais agressivas, que carregam bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, contam com a participação de parlamentares e membros do governo para dar apoio aos grupos do acampamento, que já faz parte da paisagem.

Assim como no início ninguém levava a campanha presidencial de Bolsonaro a sério, também agora se dá pouca importância a esses movimentos espalhados pelo país, com donos de carrões ao lado de ex-PMs fechando o transito, caminhoneiros, agro-boys, militares reformados, aprendizes de guerrilheiros, milicianos em geral, espancadores de jornalistas, marombados de academias, madames enfurecidas _ uma fauna fornida que começou a se juntar em 2013 pelos míseros 20 centavos das tarifas, naquelas jornadas de junho, saiu dos armários e chegou ao poder no ano passado.

Melhor prestar mais atenção no que está acontecendo, antes que seja tarde.

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