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Agressores de médica se identificaram como polícia e testemunhas não agiram

30.mai.2020 - Seguranças do Hospital Italiano observam momento em que Ticyana desmaia após ser rendida por um mata-leão aplicado por Rafael Presta. No alto da imagem, é possível ver o PM de folga Luiz Eduardo Salgueiro, com blusa preta - Reprodução
30.mai.2020 - Seguranças do Hospital Italiano observam momento em que Ticyana desmaia após ser rendida por um mata-leão aplicado por Rafael Presta. No alto da imagem, é possível ver o PM de folga Luiz Eduardo Salgueiro, com blusa preta Imagem: Reprodução

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

18/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • "Tá tranquilo, a polícia está aqui", disse ter ouvido segurança de hospital
  • Outro policial e fiscal do Detro também estavam em 'festa do covid'
  • Polícia Civil do Rio já identificou 13 frequentadores de balada clandestina

Os agressores da médica Ticyana Azambuja, espancada por frequentadores de uma festa clandestina em meio à pandemia na tarde de 30 de maio no Grajaú, zona norte do Rio, se identificaram como policiais para as testemunhas, segundo relatou à polícia um segurança do Hospital Italiano, onde a vítima foi rendida.

Ela foi perseguida por dois homens após usar um martelo para quebrar o retrovisor e o espelho traseiro do carro do policial militar Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro, estacionado irregularmente em frente ao 'baile do covid'. O comerciante Rafael Martins Presta, o anfitrião da festa, foi flagrado em vídeo aplicando um mata-leão em Ticyana, que desmaiou.

Em depoimento registrado pela 20ª DP (Vila Isabel), que investiga o caso, o segurança identificou três pessoas na cena do crime. Presta e o empresário Rafael Henrique Del Ferreira, que renderam Ticyana enquanto ela pedia ajuda a um motoboy, foram os primeiros a aparecer. O segurança também informou ter visto um homem de blusa preta no local, que foi identificado pelas imagens como o PM de folga Luiz Eduardo.

Tá tranquilo! A polícia que está aqui

Disseram os agressores, segundo relatou o segurança na delegacia

A versão corresponde com os relatos de Ticyana e do defensor público Marco Antônio em entrevista ao UOL. "Todo mundo dizia: 'A polícia tá aqui, não tem que chamar a polícia'. Isso era repetido como um mantra", disse o defensor.

Imagens mostram momento em que Rafael Presta aplica mata-leão e rende médica

O segurança disse ter ido até o portão do Hospital Italiano após ouvir gritos na rua. Ao chegar lá, informou ter visto os dois agressores perto da médica, que estava no chão, sem se mexer.

Ele falou ainda que testemunhas tentavam se aproximar, para ver o que estava acontecendo e que os agressores aparentavam estar alterados.

Talvez, esse depoimento explique por que os seguranças, o motoboy e as outras pessoas ao redor não protegeram a Ticyana

Maíra Fernandes, advogada de Ticyana

Policial civil e fiscal do Detro estavam na festa

A Polícia Civil já identificou ao menos 13 pessoas que estavam na comemoração clandestina. Entre elas, um policial civil e um fiscal do Detro (Departamento de Transportes Rodoviários do Rio).

Todos os frequentadores da festa, que estavam sem máscara de proteção, irão responder pelo artigo 268 do Código Penal por infração de medida sanitária preventiva em meio à pandemia, com pena de até um ano de detenção.

Agressores identificados

Por determinação legal, a Polícia Civil não revela a identidade dos envolvidos no crime. Mas o UOL apurou que o comerciante Rafael Presta rendeu a vítima com o auxílio do empresário Rafael Henrique Del Ferreira, identificado em outro vídeo como o homem que a agrediu com o martelo.

Ele também aparece na sequência da cena dando um soco pelas costas no defensor público Marco Antônio Guimarães Cardoso, que estava acionando a polícia. Presta e Ferreira podem ser indiciados por lesão corporal grave ou gravíssima. Mas o inquérito só será concluído após o laudo pericial com as lesões causadas em Ticyana, que teve duas fraturas no joelho esquerdo e rompeu os ligamentos.

Ester Mendes de Araújo e o feirante Luiz Claudio Balbino dos Santos, que também aparecem agredindo a médica, deverão responder por lesão corporal. Luiz Eduardo, o PM de folga que arrastou a vítima pelo braço em novo vídeo, também pode ser indiciado pelo mesmo crime.

O que dizem os envolvidos

A defesa de Rafael Presta disse que Ticyana teria se machucado ao tentar fugir após depredar o carro. Imagens contrapõem essa versão.

O advogado Roger Doyle Couto Ferreira, que representa Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro, negou que o PM tenha presenciado as agressões ou se omitido de agir —o UOL teve acesso a fotos que mostram que o policial de folga presenciou, mas não impediu os ataques. Em vídeo publicado pelo UOL nesta semana, o policial aparece arrastando a médica pelo braço após ela desmaiar ao ser contida por um golpe mata-leão.

A defesa de Ester não quis se manifestar.

A reportagem não localizou os representantes de Rafael Ferreira e Luiz Cláudio Balbino dos Santos, dois dos agressores identificados nos vídeos.

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