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Motoboy negro é abordado com arma enquanto aguardava encomenda em shopping

O motoboy Orlando Júnior Barbosa, 24, do Rio de Janeiro - Arquivo pessoal
O motoboy Orlando Júnior Barbosa, 24, do Rio de Janeiro Imagem: Arquivo pessoal

Tatiana Campbell

Colaboração para o UOL, do Rio

25/06/2021 04h00

O motoboy Orlando Júnior Barbosa, 24, foi até a unidade das Lojas Americanas, no shopping Map Band, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, para retirar um produto que seria entregue a um cliente. Enquanto aguardava, um homem que se apresentou como policial o abordou, fez uma série de questionamentos e chegou a apontar uma arma em sua direção.

Jovem negro, Barbosa viu a situação, ocorrida na segunda-feira (21), ganhar repercussão após um vídeo, em que ele aparece chorando e inconformado, viralizar na internet. "Por que só eu? Só porque sou 'da cor'? Tava cheio de gente ali, porque só foi comigo?", questiona, em entrevista ao UOL.

Ele conta que, ao chegar na loja, foi informado que o sistema operacional havia saído do ar e que a solução era aguardar até que a situação se normalizasse. Foi até um banco do lado de fora da loja e se sentou. Em instantes, um homem o abordou, perguntou seu nome e se trabalhava no local.

Expliquei que só estava esperando para retirar um pedido e disse que não ia dar mais detalhes para ele porque não sabia quem ele era, que ele não estava nem se identificando. Nisso, ele sacou a arma."
Orlando Júnior Barbosa, 24, motoboy

A partir de então, o homem armado passou a se identificar como policial. O suposto agente só recolheu a arma após exigir que Barbosa levantasse e fornecesse documentos. Depois, terminou o interrogatório.

Fiquei muito nervoso, chorei, não o desacatei em momento nenhum. Meu sentimento foi de puro constrangimento. Nunca me enquadraram, nunca fui desrespeitado onde moro, nunca falaram de mim."
Orlando Júnior Barbosa, 24, motoboy

O UOL encontrou a cliente que fez as imagens de Barbosa. É a aposentada Sonya Silva, que mora na região e tinha ido fazer uma compra na loja para a casa.

Ele entrou chorando nas Americanas e procurei saber o que tinha acontecido. Naquele momento, ele precisava de carinho. Imagino que uma mãe toma conta da sua cria e da cria de outra mãe. Eu fiquei imaginando meu filho naquela situação. Ele, que também é negro, poderia estar na situação do Orlando."
Sonya Silva, autora do vídeo

Investigação

A Polícia Civil informou que o caso foi registrado na 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes) por meio da Delegacia Online e as investigações estão em andamento. "Os envolvidos serão intimados para prestar esclarecimentos", disse em nota.

"No momento, não vou entrar com nenhum processo, porque preciso saber primeiro quem ele é. Vou deixar a polícia investigar. O shopping precisa saber quem é aquele cara, precisa identificar ele logo", acrescentou Barbosa.

A reportagem também procurou o shopping Map Band. O estabelecimento disse que Orlando Barbosa está recebendo apoio da administração e que irá colaborar com as investigações.

"O Map Band e toda sua equipe repudiam toda e qualquer ação violenta ou discriminatória de qualquer tipo". O estabelecimento informou ainda que já separou as imagens das câmeras de segurança para serem entregues às autoridades.

A Lojas Americanas disse, em nota, que "lamenta o episódio de que foi vítima o motorista de aplicativo Orlando", que prestou toda assistência e solidariedade e que repudia toda e qualquer atitude discriminatória, seja de etnia, gênero, orientação sexual ou qualquer outra.

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