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Homem e mulher que acusaram jovem negro de roubo no Leblon são demitidos

Mariana Spinelli e Tomás Oliveira, casal que acusou no Leblon, bairro nobre do Rio, o instrutor de surfe Matheus Ribeiro de roubar uma bicicleta elétrica que pertence a ele - Divulgação
Mariana Spinelli e Tomás Oliveira, casal que acusou no Leblon, bairro nobre do Rio, o instrutor de surfe Matheus Ribeiro de roubar uma bicicleta elétrica que pertence a ele Imagem: Divulgação

Daniele Dutra e Carolina Farias

Colaboração para o UOL no Rio

15/06/2021 18h43

Os dois jovens brancos que aparecem em um vídeo feito pelo instrutor de surfe Matheus Ribeiro, 22, perderam seus empregos. Ribeiro, que é negro, foi abordado pelo casal no sábado (12), na zona sul do Rio, e acusado de ter roubado a bicicleta elétrica da mulher, identificada pela Polícia Civil como Mariana Ribeiro Spinelli, de 26 anos.

Além disso, a Polícia Civil deve intimar o casal a prestar esclarecimentos. O UOL não conseguiu estabelecer contato com os dois.

Ela, que é professora de dança, foi dispensada de dois empregos. Tanto a escola Espaço Vibre quanto o Espaço 2L repudiaram sua conduta. Já o rapaz que aparece nas imagens foi identificado como o designer Tomás Oliveira. Ele trabalhava na unidade do Shopping da Gávea da rede de papelaria, roupas e decoração Papel Craft.

Clientes foram até as redes sociais da empresa para apontar Oliveira como o jovem do vídeo filmado por Ribeiro e exigiram sua demissão. Nos comentários, a marca respondeu que Oliveira foi desligado da empresa. A informação foi confirmada pela empresa ao UOL.

A reportagem do UOL telefonou e enviou e-mails solicitando um posicionamento da Papel Craft sobre a demissão de Oliveira, apontado como o homem que aparece no vídeo. Até a conclusão da reportagem, a marca não respondeu. Ao procurar a loja do Shopping da Gávea, a reportagem questionou se encontraria o rapaz na unidade. "Tomás Oliveira não faz mais parte do quadro de funcionários", informou a gerência da loja.

A escola Espaço Vibre, um dos lugares onde Spinelli dava aulas de dança, postou um comunicado em seu perfil no Instagram informando sobre a demissão.

Estamos consternados com o que tomamos conhecimento e tratando o assunto com toda gravidade que ele merece. Racismo é crime e não vamos compactuar com isso. A professora envolvida no ato foi demitida e já não faz mais parte do nosso quadro de funcionários
Espaço Vibre, em nota

O Espaço 2L, outra escola de dança onde Mariana trabalha se manifestou nas redes sociais e comunicou que a colaboradora está afastada.

O Espaço 2L reafirma o compromisso com o enfrentamento e o combate ao racismo e a todo tipo de preconceito e discriminação (?) A colaboradora está afastada e medidas disciplinares serão aplicadas quando necessárias, sem contudo, ceder a um "punitivismo"
Espaço 2L, em comunicado

Entenda o caso

Ribeiro foi abordado pelo casal quando estava parado ao lado de sua bicicleta, perto de um shopping no Leblon. Ele aguardava a namorada quando sofreu a acusação e começou a gravar um vídeo instantes depois. Nas imagens é possível ver que o rapaz que o acusa chega a tentar abrir o cadeado da bicicleta do instrutor de surfe. Como não consegue, ele pede desculpa, diz que não acusou Ribeiro de roubo e vai embora. Até esta terça-feira (15) o vídeo teve mais de 1,5 milhão de visualizações, somando as redes de Ribeiro e outros perfis no Twitter.

A delegada Natacha Alves, da 14ª DP (Leblon), será a responsável pela investigação e contou ao UOL que vai intimar o casal e o instrutor de surfe para esclarecer o caso. Spinelli foi identificada pela polícia porque ela mesma foi à delegacia para prestar ocorrência sobre o furto de sua bicicleta elétrica. A polícia ainda não identificou o rapaz oficialmente.

Nascido e criado no Complexo da Maré, comunidade da zona norte do Rio, Ribeiro trabalha desde 2018 como instrutor de surfe, e se tornou uma referência por incentivar o esporte na periferia. Há quatro meses comprou a bicicleta elétrica usada por R$ 4.500.

Ao UOL, ele contou que foi até o shopping Leblon com a namorada, que trabalha como vendedora em uma loja de roupas em Copacabana. Ela precisava pegar uma peça de roupa na filial do shopping para então retornar ao seu local de trabalho.

"Fiquei parado em torno de 15 minutos e eles chegaram falando: 'Essa bicicleta é minha'", conta. Em uma publicação em suas redes sociais, Ribeiro contou que os dois também falaram: "Você pegou essa bicicleta ali agora, não foi?", disse o rapaz. "É sim, essa bicicleta é minha", replicou a moça.

"Eu só consegui provar que a bicicleta é minha, quando, sem minha autorização, o lindo rapaz pega o cadeado da minha bicicleta e tenta abrir. Frustrado com sua tentativa, ele diz que não me acusou, afinal, o rapaz só estava perguntando", contou Ribeiro.

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