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Por que navios nazistas cruzavam o Atlântico Sul com fardos de borracha

Fardo achado em Alagoas com inscrição em ideograma japonês chamou a atenção de pesquisadores - Cláudio Sampaio/Ufal
Fardo achado em Alagoas com inscrição em ideograma japonês chamou a atenção de pesquisadores Imagem: Cláudio Sampaio/Ufal

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

16/10/2021 04h00

A Segunda Guerra Mundial foi o período de maior número de afundamentos já ocorrido na história do Atlântico Sul —onde cerca de 500 embarcações estão submersas. Dois desses navios nazistas afundados em 1944 ficaram conhecidos recentemente por terem fardos que transportavam encontrados em praias do Nordeste. O material tem emergido desde 2018.

Na quinta-feira (14), foi anunciado por pesquisadores que um segundo navio nazista, o Weserland, é o responsável pelo novo aparecimento de fardos entre Alagoas e Bahia desde agosto. Já as caixas do SS Rio Grande apareceram no litoral do Nordeste entre 2018 e 2019.

Os fardos reaparecem, dizem os pesquisadores, porque esses navios estão sendo visitados por piratas em busca de cargas valiosas afundadas com as embarcações.

Fardo achado em Coruripe (AL) - Prefeitura de Coruripe - Prefeitura de Coruripe
Fardo achado em Coruripe (AL)
Imagem: Prefeitura de Coruripe

As tais "caixas", porém, não têm valor comercial hoje e acabam sendo descartadas em alto-mar, de onde são levados pela correnteza marítima até as praias.

Mas por que os nazistas levavam esses fardos em seus navios? É que, na época das guerras, a borracha era uma matéria-prima valiosa.

"Ela era usada para muitas coisas, já que a borracha era fundamental para a fabricação de pneus de carros, aviões, uniformes etc.", explica o pesquisador Ernesto Arruda Bezerra, do Instituto de Ciências do Mar, da UFC (Universidade Federal do Ceará).

Uma publicação feita por pesquisadores da Universidade Harvard (EUA) em 1946 já apontava que à época os pescadores recolhiam esses fardos do mar, após eles boiarem com o afundamento, e os vendiam, lucrando mais até do que com venda da pesca. "Esses fardos, na verdade, são blocos maciços de borracha. Esse formato de bloco era a forma utilizada para transportá-los", afirma.

Contorno pelo sul da África

Esse material não era buscado no Brasil, mas sim no Sudeste Asiático. Os alemães iam a países sob influência ou controle japonês —como Malásia, Singapura, Indochina (onde hoje estão os países Vietnã, Laos e Camboja)— para buscá-lo.

A logística da guerra, porém, impôs dificuldades aos alemães, que precisavam contornar a África para chegarem à Europa. "Os alemães até tentaram conquistar o canal de Suez [no Egito, que liga mar Vermelho ao Mediterrâneo], mas foram derrotados pelos britânicos", explica.

Sem controle dos mares e com o bloqueio imposto pelos países aliados aos navios do Eixo (formado por Itália, Alemanha e Japão) a rotas próximas ao Oriente Médio, o Atlântico Sul era a única rota possível para transporte. Mesmo nessa área, havia navios e aviões aliados fazendo patrulhamento, que sempre capturavam ou afundavam embarcações na região.

Segundo o site Sixtant, especialista em afundamentos ocorridos na Segunda Guerra Mundial, foram ao menos 21 navios nazistas submersos no Atlântico Sul, além de outros três capturados. Há ainda 25 Uboats (submarinos alemães).

Mapa de navios e submarinos alemães e do eixo afundados e capturados no Atlântico Sul - Reproduçaõ/Sixtant - Reproduçaõ/Sixtant
Mapa de navios e submarinos alemães e do Eixo afundados e capturados no Atlântico Sul
Imagem: Reproduçaõ/Sixtant

Entre as embarcações afundadas, estão os dois afundados em 1944 e que levavam os fardos que apareceram agora no Nordeste: o SS Rio Grande e o Weserland.

Pelo menos outros quatro navios afundados teriam carga de borracha (para cerca de metade deles, não se sabe até hoje o que era carregado).

Também em 1944, um terceiro navio alemão foi afundado pelos americanos: o Burgenland, que oficialmente carregava 2.000 fardos de borracha de 245 kg cada um (similares ao que chegaram ao litoral). Ele foi atingido pela Marinha norte-americana a 640 milhas (1.185 km) do Recife.

Segundo simulação feita pelos pesquisadores da UFC, se os fardos desse navio forem largados no mar, como ocorreu com o SS Rio Grande e o Weserland, deveriam ser levados pelas correntes marítimas para o litoral do Amapá.

Ainda segundo o Sixtant, 150 militares nazistas foram resgatados e detidos. Durante interrogatórios no Recife, "informaram que o tempo dos corredores de bloqueio havia chegado ao fim".

Navio Burgeland, afundado em 1944 pela Marinha americana - HIstorical Photographs of China/Sixtant - HIstorical Photographs of China/Sixtant
Navio Burgenland, afundado em 1944 pela Marinha americana
Imagem: HIstorical Photographs of China/Sixtant

Carga valiosa e perigosa

O Weserland era um navio que transportava borracha, estanho e volfrâmio (ou tungstênio). Era chamado de quebrador de bloqueio, ou seja, usado para romper um bloqueio inimigo no mar.

Muitos outros navios estão afundados. Artigo publicado em julho por pesquisadores brasileiros mostra que eles são verdadeiras bombas-relógio no fundo do mar e ameaçam a costa brasileira.

Navio SS Weserland, afundado em 1944 - Sixtant - Sixtant
Navio SS Weserland, afundado em 1944
Imagem: Sixtant

"A maioria dessas embarcações antigas têm material perigoso —por exemplo, óleo combustível, petróleo bruto, munições e materiais sintéticos—, o que representa um risco ambiental e à saúde humana para os ecossistemas do Atlântico Sul, comunidades humanas e seus países vizinhos de baixa renda. Esses naufrágios também representam o patrimônio cultural subaquático e a história humana e não podem mais ser deixados sem vigilância", diz o artigo, assinado por cinco cientistas de duas universidades brasileiras.

Ernesto Arruda Bezerra explica que esses navios são hoje alvo de uma pirataria milionária, que visita esses naufrágios na tentativa de recuperar a carga afundada.

"Isso ocorre principalmente quando se tem demanda para o tipo de carga que levavam: o cobalto, no caso do SS Rio Grande; e agora o estanho, no caso do Weserland", afirma.

O cobalto, por exemplo, teve uma grande alta de preço no mercado mundial em 2021.

Isso mostra que, de fato, ainda há muita coisa que precisa ser feita com relação a esses naufrágios, principalmente um mapeamento adequado dos navios que existem, das cargas que carregavam e dos riscos que representam. Mas há uma dificuldade em fiscalizar e controlar isso, já que esses náufragos estão em águas internacionais."
Ernesto Arruda Bezerra, pesquisador

Fardos são "risco menor"

Os fardos em si não são a maior preocupação. "Como a borracha é natural, há um menor risco. Mas sua degradação pode gerar fragmentos menores e podem ser ingeridos acidentalmente por organismos marinhos, gerando sufocamento e até mortes", diz o biólogo e pesquisador Cláudio Sampaio, da Ufal (Universidade Federal de Alagoas).

Segundo ele, o aparecimento de fardos deve ser comunicado às universidades, centros de pesquisa ou ONGs (organizações não governamentais) para que possam ser estudados.

"A ciência cidadã ajudou muito. Recebi muitas imagens desses fardos de borracha em praias alagoanas, sergipanas e baianas. Então fui percebendo que eram distintas dos outros fardos que chegaram em 2019", aponta.

O navio nazista SS Rio Grande, afundado em 4 de janeiro de 1944 pela Marinha dos EUA - Reprodução do site Sixtant - Reprodução do site Sixtant
O navio nazista SS Rio Grande, afundado em 4 de janeiro de 1944 pela Marinha dos EUA
Imagem: Reprodução do site Sixtant

O pesquisador Carlos Teixeira, da UFC, alerta ainda que o tempo leva a problemas naturais de corrosão nesses navios afundados, o que também pode levar a soltura de materiais. "Hoje sabemos que existem microrganismos que aceleram muito a corrosão em profundidades. É o que está acontecendo com o Titanic, por exemplo", afirma.

Ele sugere que deve haver uma cooperação para que se faça um levantamento sobre esses navios. "Existem tecnologias de remoção, mas a primeira coisa que precisamos é saber onde estão os naufrágios, suas cargas e qual seu estado de conservação. Os EUA têm isso feito", completa.

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