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Caso Henry Borel: O que se sabe até agora sobre a morte do garoto

Polícia Civil investiga a morte do enteado do vereador Jairinho (Solidariedade) que morreu aos 4 anos - Reprodução/Instagram
Polícia Civil investiga a morte do enteado do vereador Jairinho (Solidariedade) que morreu aos 4 anos Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo*

27/03/2021 04h00Atualizada em 08/04/2021 16h38

O caso do menino Henry Borel, de 4 anos, que morreu no dia 8 de março, no Rio de Janeiro, continua sendo investigado pela Polícia, que busca saber as circunstâncias da morte da criança.

Depois de o menino chegar ao hospital já morto, como testemunhou a equipe médica nesta semana, a mãe e o padrasto de Henry afirmaram que ele foi encontrado caído em seu quarto. No entanto, a perícia apontou que a morte foi por hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente, portanto, com sinais de violência.

Diante de tantas dúvidas, o caso ganhou repercussão e uma longa investigação, que colheu depoimentos durante toda esta semana, culminando com o cumprimento de mandados de busca e apreensão. Veja o que se sabe até agora:

Dia da morte

Henry havia passado o final de semana com o pai, o engenheiro Leniel Borel, que deixou a criança no condomínio onde reside a mãe às 19h do dia 7 (domingo). Câmeras de segurança flagraram a chegada do menino.

De acordo com as investigações, na madrugada do dia 8, o médico e vereador Dr. Jairinho (Solidariedade), padrasto de Henry, e a namorada dele e mãe da criança, Monique Medeiros, levaram o menino ao Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca, onde relataram que a criança apresentava dificuldade respiratória. O casal então ligou para o pai do garoto para relatar o ocorrido.

Leniel foi, então, até a unidade de saúde e encontrou os médicos tentando reanimar a criança. Orientado pelos profissionais do hospital, o pai do menino abriu uma ocorrência na 16ª DP para entender o que aconteceu com o filho. A morte do menino ocorreu ainda no dia 8.

Perícia e investigações

O laudo da necropsia de Henry indicou sinais de violência e a causa da morte foi hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente.

No documento, a perícia constatou múltiplos hematomas no abdômen e nos membros superiores; infiltração hemorrágica na parte da frente, lateral e posterior da cabeça; edemas no encéfalo; grande quantidade de sangue no abdômen; contusão no rim à direita; trauma com contusão pulmonar; laceração hepática (no fígado); e hemorragia retroperitoneal.

A Polícia Civil abriu uma investigação para apurar a morte do menino e, no dia 17, Jairinho e Monique Medeiros prestaram o primeiro depoimento na 16ª DP (Barra da Tijuca). Na ocasião, a mulher disse acreditar que o filho pode ter acordado, ficado em pé em cima da cama e se desequilibrado ou tropeçado no encosto da poltrona, fazendo com que ele caísse no chão.

O casal relatou que estava na sala assistindo televisão e a criança ficou deitada na cama da mãe, onde costumava dormir. Segundo a mulher, em um determinado momento, ela e o namorado foram para o quarto de hóspedes para o barulho não incomodar Henry.

Ainda em depoimento, Monique relatou que Jairinho dormiu e que, por volta de 3h30, ela levantou e acordou o parlamentar. Nesse momento, o vereador foi ao banheiro e, ao voltar para o quarto, a mãe encontrou o filho no chão já desacordado.

Monique gritou pelo namorado. No trajeto para o hospital, a mãe realizou procedimento boca a boca, recomendado pelo médico, mas o menino não respondeu. Questionado do motivo pelo qual o vereador, como médico, não ajudou a reanimar a criança, ele alegou que a última vez que tinha feito massagem cardíaca tinha sido em um boneco durante a faculdade.

Entrevista do casal

Em entrevista concedida no último domingo ao "Domingo Espetacular", da TV Record, Jairinho disse que fez o que podia para salvar o menino que, segundo ele, foi encontrado caído em um dos quartos da residência do casal. "Eu tenho certeza absoluta, diante de Deus, que assassinato não foi", disse ele. Monique reforçou o depoimento, afirmando que encontrou o filho caído desacordado no chão.

Mensagens obtidas pelo "Fantástico", da TV Globo, mostraram a conversa entre os pais de Henry no domingo (7), dia em que a criança seria devolvida à mãe. Nelas, ambos dão a entender que Henry não gostaria de retornar ao apartamento do padrasto - e a mãe mostrou preocupação.

Caso Henry: Jairinho e mãe de Henry concedem entrevista ao "Domingo Espetacular" - Reprodução/TV Record - Reprodução/TV Record
Caso Henry: Jairinho e mãe de Henry durante entrevista ao 'Domingo Espetacular'
Imagem: Reprodução/TV Record

Novos depoimentos

Na segunda-feira (22), a polícia decidiu que ouviria a equipe médica que fez o atendimento de Henry, a empregada de Monique e Jairinho e o perito responsável pelo laudo de necropsia da criança. Os depoimentos podem ajudar a esclarecer algumas divergências encontradas entre o que foi dito aos médicos da unidade e o depoimento prestado pelo casal, além de tentar entender as possíveis causas das lesões encontradas no corpo do menino.

Uma ex-namorada de Jairinho afirmou em depoimento na terça-feira (23) que ela e a filha foram agredidas pelo político há cerca de oito anos, quando os dois mantinham um relacionamento. A testemunha - que não teve o nome divulgado - detalhou, por cerca de seis horas, as violências sofridas pelas duas. Segundo ela, as agressões não foram denunciadas por medo de retaliações.

No mesmo dia que a ex-namorada depôs, as três pediatras da equipe que atendeu o menino afirmaram que a criança chegou sem vida na unidade de saúde. A equipe médica ainda afirmou que, no atendimento, Henry apresentava lesões no corpo — o que também foi citado nos laudos da necropsia.

Na quarta-feira (24), Rosângela Medeiros, mãe de Monique, relatou aos policiais que era muito próxima do neto e que a criança costumava dormir em sua casa, em Bangu, de três a quatro vezes por semana. Além disso, era comum que os avós passassem algumas noites na residência do casal, na Barra da Tijuca.

Henry Borel, de 4 anos, morreu no dia 8 de março, no Rio de Janeiro - Reprodução/Redes Sociais - Reprodução/Redes Sociais
Henry Borel, de 4 anos, morreu no dia 8 de março, no Rio de Janeiro
Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Empregada contradiz Monique

Rosângela, empregada doméstica de Jairinho e Monique, também foi ouvida e contradisse a versão dada pela mãe do garoto. A trabalhadora falou que foi avisada a respeito da morte de Henry no dia que foi trabalhar. Quando foi ouvida pela polícia, na semana passada, Monique relatou que a limpeza do apartamento foi feita pela funcionária — prejudicando a perícia — já que ela não tinha conhecimento do ocorrido e que chegou a dar folga para ela na hora do almoço.

À polícia, Dr. Jairinho contou que ao voltar para casa, por volta das 10h do dia 8, viu a empregada doméstica conversando sobre a morte do menino com a namorada e uma assessora.

Mais mensagens reveladas

A Rede Globo teve acesso a mensagem de texto que o pai de Henry recebeu da ex-namorada de Jairinho, que denunciou as agressões do parlamentar à filha dela. Na conversa, a testemunha diz que sente muito pela morte da criança e diz que foi negligente à época que as agressões aconteceram com ela e a filha.

"Eu passei os piores dias da minha vida com ele [Jairinho]. Hoje não consigo olhar no olho da minha filha por tudo que ele fez e eu não vi. Eu me culpo todos os dias da minha vida", finalizou.

Henry Borel ao lado do pai, Leniel Borel - Reprodução/Redes Sociais - Reprodução/Redes Sociais
Henry Borel ao lado do pai, Leniel Borel
Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Vereador tentou liberação rápida do corpo

De acordo com Juliana Dal Piva, colunista do UOL, após a morte de Henry, Jairinho ainda tentou fazer a uma liberação rápida do corpo da criança, sem que o menino fosse levado ao IML (Instituto Médico Legal) para a produção dos laudos da necropsia.

Devido às lesões de Henry e os protocolos médicos, o corpo do menino deveria ser levado ao IML para a análise da perícia, mas o vereador tentou "junto à equipe médica e depois com outros funcionários do hospital fazer uma liberação rápida, sem que o corpo fosse para o Instituto".

Além de mensagens, o parlamentar fez ligações para fazer o pedido da liberação, mas, apesar das tentativas, os pedidos foram negados em razão das lesões na vítima.

Mandados de busca

Ontem, a Polícia Civil realizou uma operação para cumprir quatro mandados de busca e apreensão sobre a morte de Henry. Agentes foram a quatro endereços ligados ao pai, à mãe e ao padrasto da vítima.

O apartamento do padrasto de Henry, na Barra da Tijuca, foi interditado até que novas perícias sejam realizadas no local onde o menino passou sua última noite. Uma viatura da PM vai ficar baseada no local por 30 dias.

Os quatro mandados foram cumpridos nas seguintes residências:

  • Casa da família da mãe de Henry, em Bangu;
  • Casa do padrasto de Henry, na Barra da Tijuca;
  • Residência do ex-deputado estadual Coronel Jairo, pai de Jairinho, em Bangu; local onde o casal estava;
  • Imóvel do pai de Henry, no Recreio

Os agentes ainda apreenderam celulares e computadores dos alvos para tentar ajudar no desfecho do caso. O 2º Tribunal do Júri da Capital também decretou a quebra dos sigilos de todos os alvos.

A residência do pai de Jairinho, em Bangu, também foi alvo dos mandados de busca e apreensão - Divulgação/Polícia Civil do Rio de Janeiro - Divulgação/Polícia Civil do Rio de Janeiro
A residência do pai de Jairinho, em Bangu, também foi alvo dos mandados de busca e apreensão
Imagem: Divulgação/Polícia Civil do Rio de Janeiro

Polícia faz mais investigações e Cremerj entra no caso

A Polícia abriu ontem uma investigação paralela ao caso de Henry. Aos agentes da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima, uma adolescente de 13 anos relatou ter sido agredida quando tinha 4 anos por Jairinho, que à época namorava a mãe da menor de idade.

No depoimento, que durou cerca de 5 horas, a menina, que não teve o nome divulgado, na presença de um psicólogo, contou que era agredida frequentemente por Jairinho há 8 anos. Mesmo que o caso tenha sido registrado na DCAV, a delegacia da Barra da Tijuca, que investiga a morte de Henry, também está analisando o conteúdo da oitiva.

De acordo com o jornal O Globo, a menina relatou aos agentes ter contado para a avó materna que teve a cabeça afundada por ele embaixo da água de uma piscina. A mãe da agora adolescente disse que em determinado momento a filha não queria mais ficar com ela quando estivesse com Jairinho e pedia para dormir na casa da avó.

Além disso, o Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio) também está investigando o fato de Jairinho não ter prestado os primeiros socorros no garoto e ter pedido para que Monique fizesse respiração boca a boca na criança. O Cremerj informou que "está acompanhando os fatos e tomará todas as medidas cabíveis."

Polícia descobre conversa de Jairinho com ex

Em reportagem transmitida no dia 28 pelo Fantástico, da TV Globo, mostrou que, na tarde de domingo (7) e na madrugada da morte de Henry, Jairinho, conversou com uma ex-namorada que ele ainda ajudava financeiramente.

Em depoimento, a mulher disse que no dia 7 (domingo), às 15h47, mandou uma mensagem de texto ao vereador: "Estou cansada de você!". Em resposta, às 01h47, do dia 8 (segunda), o parlamentar respondeu: "Pelo amor de Deus".

A mulher que enviou a mensagem para Jairinho no dia 7 também afirmou que o seu relacionamento com ele terminou em outubro do ano passado. Apesar disso, ela declarou que ambos se encontraram presencialmente por três vezes em janeiro deste ano e conversavam frequentemente por mensagem ou telefone — até mesmo durante a madrugada.

As imagens das câmeras de segurança do shopping que Henry esteve com o pai e do edifício da mãe e de Jairinho, transmitidas pela emissora, registraram os últimos momentos de vida do menino.

Perícia em apartamento e celulares

A Polícia Civil do Rio de Janeiro realizou, na terça-feira (30), uma perícia complementar no apartamento onde Henry Borel passou os seus últimos momentos de vida. A investigação ainda tenta recuperar as mensagens apagadas dos celulares de Jairinho e Monique Medeiros. Os 11 aparelhos foram apreendidos durante a operação que cumpria quatro mandados de busca e apreensão, ocorrida no dia 26 de março.

Os celulares confiscados na operação foram de Monique Medeiros, Dr. Jairinho e Leniel Borel e passarão por perícia. A polícia irá utilizar um programa que consegue recuperar informações apagadas dos aparelhos a fim de obter mensagens que foram deletadas dos celulares de Monique e Jairinho.

No dia 29 de março, a polícia também ouviu a professora do Colégio Marista São José, onde Henry estudava, e também a psicóloga Érica Mamede, que acompanhava a criança. Em depoimento as profissionais disseram não ter visto anormalidade no comportamento do garoto nos dias que antecederam a morte.

Reconstituição e Jairinho liga para o governador

No dia 1º de abril, às 14h, está prevista para acontecer a reprodução simulada da morte de Henry Borel no apartamento em que Jairinho e Monique moravam com o menino no condomínio Majestic, na Barra da Tijuca.

A defesa do parlamentar e de Monique chegou a pedir o adiamento da reconstituição, porém ela foi indeferida pela Polícia Civil. Para o delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra), é de suma importância que seja feita a reprodução para dar continuidade às investigações do caso.

O UOL ainda apurou que governador em exercício no Rio, Cláudio Castro (PSC), recebeu um telefonema do vereador Dr. Jairinho horas após a morte de Henry, enteado do parlamentar.

A assessoria do Governo do Rio de Janeiro confirmou que Cláudio Castro "recebeu uma ligação do vereador Doutor Jairinho horas antes de o caso envolvendo o menino Henry ganhar repercussão na mídia". A nota diz ainda que "no telefonema, ao saber do fato, Castro limitou-se a explicar ao vereador que o assunto seria tratado pela delegacia responsável pelo inquérito e encerrou a ligação".

*Com informações de Marcela Lemos e Tatiana Campbell, em Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

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