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Ex-moradora de rua celebra aprovação em universidade no RJ: 'Caminho certo'

Danda viveu por 12 anos em situação de rua e agora conquistou uma vaga na UERJ - Arquivo pessoal
Danda viveu por 12 anos em situação de rua e agora conquistou uma vaga na UERJ Imagem: Arquivo pessoal

Do UOL, em São Paulo

11/01/2022 14h55Atualizada em 14/01/2022 06h48

A vendedora ambulante Dayana Bárbara dos Santos Coqueiro, 36, é a mais recente aluna do curso de letras da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Após 12 anos vivendo em situação de rua na cidade de Brasília, Danda, como é conhecida, enxergou nos estudos uma oportunidade de mudar o rumo da própria vida e hoje celebra o ingresso no ensino superior com muitos sonhos para concretizar.

Natural de Santo Antônio do Descoberto (GO), ela deixou a casa em que morava aos 8 anos. Ao UOL, Danda, que mora atualmente no Rio de Janeiro, contou que, na época, vivenciava uma série de violências e que permaneceu entre calçadas e abrigos até os 20 anos. "Eu não tinha espaço para tomar banho, não tinha nada, mas eu preferia ir conquistando as minhas coisas", relata ela.

Foi durante este tempo que ela retornou à escola e conheceu a EMMP (Escola Meninos e Meninas do Parque), onde ingressou, aos 14 anos. "Eu sempre gostei de estudar, sempre tive uma relação boa com a questão de educação porque eu sabia que era o único meio", diz ela.

Como era uma escola diferenciada, por atender pessoas em situação de rua, tinham dias que eu chegava mal e não conseguia estudar, mas eles faziam todo um trabalho de acolhida. Eu tinha como tomar banho, ter comida. Com o tempo, comecei a participar de olimpíadas de matemática, de circo, teatro... Eu sabia que era o caminho certo e que só sairia dali com as minhas próprias mãos.

Mais tarde, aos 17 anos, Danda começou a mergulhar na arte da escrita. "Escrevia ainda com o português errado, mas gostava de escrever. Eram relatos de coisas que aconteciam e outros vinham da imaginação, de como eu queria estar naquele momento e de coisas que gostaria que acontecessem ao longo da vida", relembra ela, que diz que gostava muito de ler os livros de Cecília Meireles e que nutre o sonho de conhecer a filósofa e escritora Djamila Ribeiro.

Ela conseguiu completar os estudos no Ensino Médio, mas, na época, não pensava em prestar vestibular e tentava criar raízes. "Foi quando eu tive o meu primeiro filho, Arthur, que hoje tem 14 anos", conta. Fã de Futebol, Danda chegou a sonhar em ingressar em um time e jogar de forma profissional, mas acabou seguindo outros rumos.

danda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Danda pensou em desistir do ingresso na universidade, mas persistiu anos depois
Imagem: Arquivo pessoal

A paixão pelo esporte passou para o filho e ela se dedicou durante anos para realizar o projeto. Atualmente, ele participa de um clube em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. "Eu corria muito atrás de coisas para o meu filho. Durante esse tempo, ele conseguiu diversas bolsas e viajou para muitos jogos", relata.

O desejo de estudar foi retomado em 2017, quando tentou ingressar na UnB (Universidade de Brasília), no curso de educação física. No entanto, Danda não conseguiu a tão sonhada vaga. "Foi frustrante e eu comecei a aceitar que a minha vida seria vender bala e pipoca na rodoviária".

A nova tentativa ocorreu no ano passado e, mesmo sem muitos recursos, Danda se preparou para uma nova prova. "O pouco tempo que eu tinha, ou quando eu tinha internet, eu estudava. A minha preparação nunca foi para vestibular, sempre foi para o ENEM. Eu estudava por meio de vídeos do YouTube, entrava em universidades para ver os temas das redações. Usava muito as ferramentas de pesquisa e fazia tudo por conta própria", relata.

Quando Danda descobriu que havia conquistado a vaga em letras, não escondeu o entusiasmo.

Eu comecei a gritar. Ficava atualizando a página para ver se o meu nome ainda estava lá.

Com a faculdade, ela espera poder escrever livros e publicar a própria história. "O governo trata a gente como se a gente precisasse só de dinheiro para comer. É lógico que a gente precisa comer, mas a fome maior é a educação. A gente multiplica a forma de adquirir comida com ela. É o prato principal", defende.

O sonho pelo curso de educação física, por sua vez, não acabou e Danda diz que pretende continuar tentando uma vaga e cogita estudar simultaneamente os dois cursos. "A única coisa que eu quero é que as aulas cheguem logo. Quando eu sentar na cadeira, eu vou acreditar que estou dentro. Eu não quero me sentir presa a nada. A única solução para mudar as coisas é por meio da educação".

Entre os próximos objetivos imediatos, a recém-universitária está fazendo campanha para receber doações e conseguir comprar um computador e garantir a permanência na universidade.

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