'Brennand' EP 6: 'Xingou porque sangrei', diz vítima de estupro de Thiago

O sexto e último episódio de "Brennand", podcast do UOL Prime, mostra como a agressão de Thiago a uma mulher na academia Bodytech, em São Paulo, foi o estopim para uma série de denúncias e acusações envolvendo o empresário. Ouça no arquivo acima.

Além do caso K., produtora pernambucana que acusa Thiago de estupro, a estadunidense C. e a ex-miss P. disseram à Justiça que também foram estupradas pelo empresário.

"Eu falei: 'Eu não quero, por favor' — eu tava quase gritando, eu lembro disso [...] Então, eu tirei a minha mão, e aí ele forçou e continuou fazendo [...] E depois ele me xingou porque eu sangrei e estragou as roupas de cama dele", relatou C. em depoimento ao Ministério Público. "Depois ele me mandou para outro quarto e eu fiquei lá até o próximo dia, quando ele [me] mandou com motorista pra casa."

Um levantamento do UOL contabilizou 41 acusações contra Thiago Brennand desde 2001, entre os estados de São Paulo e Pernambuco, a partir de relatos, registros de queixa-crime, boletins de ocorrência e outros documentos inéditos. Nem todos os casos, no entanto, foram levados à Justiça.

Até agora, Thiago foi condenado, em primeira instância, a mais de 10 anos em regime fechado pelo estupro de C. e a mais de 1 ano em semiaberto pela agressão à modelo Alliny Helena Gomes na academia Bodytech. Cabe recurso nos dois casos.

A reportagem pediu entrevistas a Brennand via advogados. Também mandou uma carta ao CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, em São Paulo, onde ele está desde abril de 2023. A carta foi recusada sem nem sequer ter sido aberta.

A defesa de Brennand diz que está impedida de se manifestar. "Tudo que posso lhe dizer é que os casos estão em segredo de Justiça", explica o advogado Roberto Podval.

O podcast narrativo é apresentado pelo jornalista do UOL Mateus Araújo, que divide a reportagem com Juliana Sayuri.

"Brennand" está disponível no YouTube do UOL Prime, Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer e em todas as plataformas de podcast.

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'Brennand'

Episódio 6 — O castelo de cartas

Aviso: esse programa tem linguagem forte, relatos de abuso sexual e pode não ser adequado para todos os públicos.

MATEUS ARAÚJO: No fim da tarde de 30 de dezembro de 2016, cerca de 20 crianças brincavam no mar de Serrambi, em Ipojuca, litoral sul de Pernambuco. Da areia, os pais conseguiram ver surgindo pouco a pouco, um jet-ski ziguezagueando na água calma. Realizando manobras arriscadas, o veículo cruzou as ondas até se aproximar dos jovens banhistas. O piloto não parecia se importar com o perigo iminente. Ele continuou a avançar, respondeu com palavrões aos protestos dos pais e fez questão de se identificar, com certo deboche:

THIAGO BRENNAND EM VÍDEO NO YOUTUBE: Thiago Antônio Fernandes Vieira.

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MATEUS ARAÚJO: Uma garota de 10 anos com deficiência física não conseguiu sair da água tão rápido assim. Na agitação, ela perdeu os óculos de grau. Thiago ficou dando voltas violentas ao redor dela, em alta velocidade, relatou uma testemunha. Assustados, os pais chamaram a polícia.

PROMOTOR: Na época eu era promotor de Justiça criminal da cidade de Ipojuca aqui em Pernambuco

MATEUS ARAÚJO: Esse é Rinaldo Jorge, promotor do Ministério Público de Pernambuco.

PROMOTOR: [...] Thiago Brennand estava sendo acusado de na praia de Serrambi pilotando um jet-ski ter colocado a saúde e a vida de crianças e idosos em risco.

MATEUS ARAÚJO: O episódio foi registrado em um boletim de ocorrência, virou inquérito policial, e Thiago foi indiciado por expor a vida dos presentes a perigo "direto e iminente".

O crime consta no artigo 132 do Código Penal e prevê pena de 3 meses a 1 ano de prisão. A denúncia foi aceita em janeiro de 2018, mas Thiago não foi encontrado nos seus endereços no Estado para receber a intimação. Por isso, ele não chegou a responder judicialmente.

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PROMOTOR: Em 2019, eu saí de Ipojuca, da promotoria criminal. Então, infelizmente, eu não sei qual foi o desenrolar desse procedimento, que fim levou.

MATEUS ARAÚJO: Mas a gente sabe.

Em abril de 2022, o Ministério Público pediu a prescrição do processo. Ou seja, os pais perderam o direito de demandar judicialmente, porque chegou ao fim o prazo de cinco anos para julgar aquela demanda.

Nem por isso Thiago ficaria longe das polêmicas e da Justiça. Quatro meses depois da decisão do MP a respeito do caso do jet-ski, a agressão de Thiago Brennand a uma modelo na academia Bodytech, em São Paulo, virou notícia no Brasil. E, junto com ela, dezenas de outras acusações contra Brennand vieram à tona.

Ao todo, a gente contabilizou 41, entre boletins de ocorrência, relatos, registros de queixa-crime e processos judiciais.

Algumas se referem a crimes mais leves, entre aspas, como ameaça, intimidação e calote. Mas boa parte delas é de estupro. E o que chama a atenção é que todas as mulheres que alegam ter sido estupradas por Thiago descrevem um modus operandi muito parecido com aquele que foi narrado por K. ao longo dos últimos cinco episódios.

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VINHETA: Eu sou Mateus Araújo. E esse é Brennand. Um podcast do UOL Prime.

A agressão pública do empresário Thiago Brennand a uma mulher numa academia traz à tona uma cadeia de outros crimes e acusações dos quais ele sempre conseguiu sair ileso. Em 2023, no entanto, isso começou a mudar. Com a extradição dele para o Brasil, o surgimento de novas denúncias e duas condenações na Justiça, a biografia da qual Brennand tanto se orgulhava toma um novo rumo.

No último episódio dessa série, a história dele passa a ser contada também por muitas vítimas, que rompem o silêncio sobre os abusos do empresário.

C.: Ele me olhou de um jeito... Parecia um demônio.

P.: Ele já não era mais aquele personagem. Ele já era agressivo, ele já era outra pessoa.

K.: Eu achei que ele realmente fosse me deixar em paz. Mas não. Ele não parou.

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VINHETA: 6º e último episódio. O castelo de cartas

MATEUS ARAÚJO: Em setembro de 2021, K. desfez o B.O. que o irmão dela tinha aberto contra Thiago. Mas o clima entre os dois não era de paz: Brennand tinha acabado de descobrir que ela estava em contato com o policial Daniel Cossani, o empresário Edsá Sampaio e outros conhecidos dele.

O objetivo dela era descobrir outros supostos casos de violência em que Thiago estaria envolvido. Foi nessa época em que vídeos de uma relação sexual dos dois, gravada sem permissão, segundo ela, foram disparados pelo celular de L., o filho de Thiago, que ainda era menor de idade. E, apesar de as imagens terem sido compartilhadas pelo aparelho do menino, Thiago admitiu que foi ele mesmo quem mandou.

K.: Thiago, você faz o que você quiser. Você manda meu vídeo com você pra quem você quiser.
THIAGO BRENNAND: Já fiz.

MATEUS ARAÚJO: Nessa mesma época, Thiago também enviava mensagens com ameaças para o número de telefone da babá dos filhos dela, que morava em Miami.

K.: Ele falou pra ela: "Você está trabalhando pra uma bandida, então você é bandida igual ela. Eu conheço as suas filhas, sei onde suas filhas moram [...], eu sei da tua história de vida, você tome cuidado com a sua vida".

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MATEUS ARAÚJO: E, segundo K., as ameaças também eram direcionadas à família dela, que estava parte em Miami, parte no Recife.

K.: Falou que conhecia todo mundo em Miami, que meus filhos não estavam seguros em Miami. Ele falava: "Eu sei onde você mora em Miami, eu sei tudo da tua vida. Eu sei tudo da vida da tua babá". Ele falava que eu estava sendo vigiada, que meus pais estavam sendo vigiados, que meus irmãos estavam sendo vigiados. [...] Ele falava pra mim: "O seu irmão é um bosta. Pra seu irmão sumir do mapa, é um segundo".

MATEUS ARAÚJO: Ela diz ter começado a perceber que, mesmo tendo concordado em retirar o B.O., Thiago não ia parar com as ameaças nem com a perseguição.

K.: Eu achei que ele fosse acabar ali, que ele realmente fosse me deixar em paz, que o pesadelo tivesse acabado e eu ia seguir com a minha vida, ele ia seguir com a vida dele, mas não. Ele não parou. As ameaças continuavam e ele falava pra mim que tinha mais vídeo, que tinha mais coisa pra mostrar e que ele ia acabar com a minha vida de vez.

MATEUS ARAÚJO: Ele cumpriu com a promessa.

K.: Os vídeos voltaram a ser divulgados, dessa vez pra todo mundo, grupos de WhatsApp de academia, de escola, de amigo... Miami inteiro recebeu os meus vídeos, ele mandou pra milhões de pessoas, aí eu decidi, percebi que eu tinha que ter força, voltar à delegacia e falar tudo que aconteceu. Porque esse cara tinha que tomar um freio, ele tinha que parar de alguma forma.

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MATEUS ARAÚJO: E foi aí que, segundo K., ela decidiu voltar à delegacia no Recife e reabrir o B.O. contra Brennand.

K.: Então, eu criei coragem, voltei à delegacia, e falei tudo que aconteceu.

MATEUS ARAÚJO: Das diversas mulheres que hoje acusam Thiago Brennand de estupro, K. foi a única que fez a denúncia antes da divulgação do caso Bodytech. Quando a agressão à modelo Helena Gomes veio à tona, em agosto de 2022, outras mulheres tomaram coragem de contar à polícia suas histórias. Uma delas foi a estadunidense C. Você já ouviu ela aqui algumas vezes.

C.: Eu fiquei paranóica. Ele falou que ele vai sempre por alguém atrás de mim, tipo, ele vai pedir um segurança dele pra ir atrás de mim em todo lugar.

MATEUS ARAÚJO: C. e Thiago se conheceram em abril de 2021. Ela, assim como ele, é apaixonada por cavalos e todos os esportes que envolvem o animal. Foi por causa desse interesse em comum que eles começaram uma amizade lá no haras da Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz. Depois, engataram um relacionamento. Ela ressaltou em depoimento que eles nunca namoraram ou foram parceiros fixos um do outro, mas que mantinham relações periódicas.

C.: Não era uma coisa séria, não quis nada demais. Assim, era mais uma amizade. Mas ele era sempre muito carismático e muito simpático, muito simpático.

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MATEUS ARAÚJO: Ao longo do tempo que passaram juntos, C. diz ter visto algumas "red flags", os chamados "alertas", em relação ao comportamento de Thiago com as pessoas do seu entorno. Um desses primeiros alertas foi a forma como ele tratava a governanta, M., que é uma mulher negra.

C.: Ele chamava ela de "macaquinha", na cara dela. Uma coisa meio doente assim? "Não é um pouco racista?" Aí ele: "Mas ela parece uma macaquinha".

MATEUS ARAÚJO: O segundo foi o relacionamento simbiótico de Brennand com o filho L., que, para ela, parecia estar sendo criado para se tornar um "mini Thiago".

C.: Eu, como mãe, achei meio esquisito, meio doente. Ele quis o filho dele ser uma máquina de jiu-jítsu, e o menino não ia pra escola, era muito arrogante, falando de um jeito horrível pros funcionários. Ele dava remédio pro filho, na bunda, com seringa, algum remédio pra ele ficar mais forte.

MATEUS ARAÚJO: O terceiro alerta teria aparecido quando Thiago foi agressivo com o gato de estimação de C. Brennand fazia carinho no animal, quando levou uma mordida de leve, de brincadeira.

C.: E ele não gostou. "Puta, me mordeu". E bateu numa força que meu gato começou a tremer até... Uma coisa tão chocante. E o filho só rindo. Ele bateu no meu gato de um jeito que eu achei que meu gato ia morrer. Eu fiquei chocada, em choque.

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MATEUS ARAÚJO: E a quarta foi a obsessão de Thiago com as armas de fogo.

C.: Ele deixava a arma em cima do carro. "All the time, all the time" ["o tempo todo, o tempo todo"]. Como se fosse os óculos de sol dele. "All the time". Deixava na mesa, na cama, deixava onde ele "quiser".

MATEUS ARAÚJO: Certa vez, C. diz que foi ameaçada com uma arma durante uma discussão dentro do carro numa ida de Porto Feliz a São Paulo. Thiago acelerava o veículo a mais de 200 km/h, buzinando e colando nos outros carros da via.

C.: E eu quase vomitei com uma arma em cima [de mim] no carro. E daí ele virou para mim, durante esse episódio, e falou: "Eu mato você agora. Quem vai procurar você?"

MATEUS ARAÚJO: Em depoimento ao Ministério Público, C. afirma que foi estuprada por Thiago na mesma época em que ele e K. romperam relações.

C.: E acho que isso deixou ele mais chateado, bravo, ele começou a ficar mais "violenta".

MATEUS ARAÚJO: Como eu falei há pouco, C. é estadunidense, então o português dela pode não ser fácil de compreender algumas vezes. Mas o "não" é bem claro.

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C.: Falei: "Não quero isso, não quero". Ele falou: "Tira a sua mão agora, tira sua a mão agora, eu vou bastante te machucar se você não tirar agora". Eu falei: "Eu não quero, por favor, eu tava quase gritando", eu lembro disso. Então, eu tirei a minha mão, e aí ele forçou e continuou fazendo. [...] E depois ele me xingou porque eu sangrei e estragou as roupas de cama dele. Depois ele me mandou pra outro quarto e eu fiquei lá até o próximo dia, quando ele [me] mandou com motorista pra casa.

MATEUS ARAÚJO: Nesse mesmo dia, C. afirma que Thiago comentou o que tinha acontecido entre ele e K.

C.: Ele falou que ele mandou vídeos dela, deles transando pra família inteira. "Mas como pode isso? Ela deixou filmar?" E ele falou pra mim que filma "todo mundo que entra na minha cama". "Como assim?" "Eu filmo todo mundo". "Mas como? Sem consciência, sem autorização?" "Eu não preciso, é minha cama, é minha casa." Eu falei: "Eu não permiti isso". "Não precisa permitir, eu não tô divulgando, é pra meu uso."

MATEUS ARAÚJO: Thiago também teria falado a respeito das agressões, do estupro e da tatuagem que teria obrigado K. a fazer.

C.: Falou: "Eu não sou uma pessoa de bater numa mulher sem razão", mas ele [...] bateu nela pra valer, mandou ela gozar chorando. Ele falou que mandou ela se tatuar, que ela passou mal, começou a chorar — "puta escândalo que ela deu". Ele achou que ela só quis atenção.

MATEUS ARAÚJO: Depois desse dia, C. diz ter rompido qualquer tipo de relação que tinha com Thiago.

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C.: Ele virou de um jeito, parecia um demônio. Talvez eram as drogas que ele usava pra treinar que deixava ele com raiva, mas eu vi que ele era mesmo. Talvez eu pensei que ele nunca sentiu amor com alguém que gostava dele, talvez eu possa ajudar ele. Depois eu vi que era muito maior o problema do que eu posso fazer, ajudar, ser amigo. Eu não consegui nem ficar com ele perto, porque ele é bastante perigoso.

MATEUS ARAÚJO: C. procurou a Justiça, com advogado, depois da repercussão do caso na academia.

No dia 29 de setembro de 2022, ela deu depoimento formal ao Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência do Ministério Público de São Paulo. As acusações eram de estupro, perseguição e injúria. Foi sobre esse caso que Thiago estava se defendendo naquele vídeo do YouTube que você ouviu no episódio passado.

THIAGO BRENNAND EM VÍDEO NO YOUTUBE: Tudo é distorcido, você é o vilão, você é o sujeito pior do mundo. Eu acho que isso é ruim pro país, isso é ruim pra todo mundo. Fez um dano enorme em minha vida.

MATEUS ARAÚJO: O vídeo foi publicado em abril de 2023, mas excluído junto com todos os outros que estavam no canal de Brennand.

THIAGO BRENNAND EM VÍDEO NO YOUTUBE: Eu sei que nesse país muita gente tem sede de justiça. "Porque fulano é isso, é aquilo", "tem que ir pra cadeia porque é rico".

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MATEUS ARAÚJO: Thiago foi julgado e condenado no caso de C. em 11 de outubro de 2023, quando já cumpria prisão preventiva em São Paulo depois de ser extraditado de Dubai.

REPORTAGEM DE TV: O empresário Thiago Brennand foi condenado a 10 anos de prisão por estupro. Ele também vai ter que pagar R$ 50 mil para a vítima por danos morais. Essa é a primeira vez que Thiago é condenado, mas cabe recurso.

REPORTAGEM DE TV: A defesa de Thiago Brennand afirmou que a decisão judicial foi fundamentada apenas na palavra da vítima, completamente dissociada de todos os elementos de prova colhidos durante a instrução.

MATEUS ARAÚJO: Essa foi a primeira vez que Thiago foi condenado na Justiça por algum crime. Coincidentemente, eu tava no Fórum de Porto Feliz fazendo apurações para este podcast quando a decisão foi divulgada. Eu até arrisquei uma entrevista com o juiz Jorge Panserini. Mas, enquanto eu tava lá, ele mandou uma mensagem de WhatsApp pra secretária dizendo que não falaria comigo, uma vez que o processo corre em segredo de Justiça.

O veredicto, assinado pelo juiz Israel Salu, foi recebido com esperança por outras vítimas que ainda aguardam as suas respectivas decisões. Uma delas é uma estudante de medicina e ex-miss São Paulo que chegou a postar um vídeo comemorando a notícia em seu perfil no Instagram.

P. EM VÍDEO NO INSTAGRAM: Eu tenho horror de stories de gente chorando. Eu sei que tem um monte de jornalista aqui me monitorando, mas eu só quero dizer, porque eu sei que vão me perguntar, que essa foi a melhor notícia que eu poderia receber. Porque o que aconteceu comigo e com tantas outras mulheres, parecia que a marca seria pra sempre, que nada poderia apagar. E agora a gente tá vendo a Justiça sendo feita.

MATEUS ARAÚJO: Vamos chamar essa mulher de P.

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Talvez a essa altura, no último episódio da série, você já tenha se cansado ou até se confundido com tantas iniciais — mas eu vou seguir com elas porque a gente precisa preservar a identidade dessas pessoas.

Quando Thiago foi condenado, ela se manifestou publicamente, mas agora prefere manter o nome em sigilo.

Os dois se conheceram em um jantar, em outubro de 2021. Ela teria sido levada ao local, o restaurante Bagatelle, por H., nora de Thiago de quem ela era amiga.

A gente pediu entrevista, mas ela não quis, porque o caso corre em segredo de Justiça. Mas a gente teve acesso ao depoimento de P. ao Ministério Público.

P.: Não me pareceu assim algo que pudesse ser prejudicial. E eu olhei o Instagram dele e eu gostaria de deixar claro que o Instagram dele era ele andando a cavalo, muitas fotos com o filho, foto dele com parentes [...] Se eu tivesse qualquer impressão de que ele é uma pessoa perigosa ou qualquer coisa eu nem teria dado continuação a essa conversa.

MATEUS ARAÚJO: Os dois marcaram de se encontrar novamente, dessa vez sozinhos. O local escolhido foi o restaurante japonês Nakka, que fica nos Jardins, em São Paulo.

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P.: A gente chegou no restaurante, ele pedia todas as comidas. [...] Ele nem me perguntava muito. Na verdade, eu acho que ele nem me perguntou nada. [...] Falando muito, falando que foi educado na Inglaterra, que tinha valores muito diferentes dos valores dos brasileiros. Ele é uma pessoa muito que fala muito dele mesmo e as conquistas e aí porque ele é faixa preta [...] A educação dele, porque ele não queria voltar para o Brasil, mas ele voltou. Que o Brasil é um país muito atrasado. Então, ele falava muito dele mesmo, assim, só que ele parecia realmente educado e até então ele não estava agressivo comigo.

MATEUS ARAÚJO: Os dois jantaram e Thiago pediu duas caipirinhas de caju. Uma pra ele, outra pra P.

PROMOTORA: Você já tinha bebido alguma bebida alcoólica antes dessa caipirinha?

MATEUS ARAÚJO: Essa é a promotora Silvia Chakian, que conduziu o depoimento de P. e de outras mulheres que acusaram Thiago de estupro.

P.: Não, eu bebo sempre água com limão. Até porque, a primeira vez que eu ia conhecer uma pessoa, eu não ia querer ficar me alcoolizando. Essa com certeza não era a minha intenção. [...] Eu tava conhecendo uma pessoa que até então me parecia interessante, não queria beber. E aí chegou essa caipirinha na mesa.
PROMOTORA: Você lembra de ter se ausentado da mesa em algum momento?
P.: Dra. Silvia, eu revivi esse momento milhões e milhões de vezes. Isso foi algo que eu me cobrei durante um ano da minha vida, porque eu sou uma estudante de medicina, eu sempre fui muito observadora com tudo. Então, eu tentava o máximo possível me cobrar para que... Será que eu olhei para o lado... E eu não consigo chegar a conclusão nenhuma. Pra mim, a gente recebeu a caipirinha e bebeu.

MATEUS ARAÚJO: P. se cobra para reviver esse momento da chegada do drink à mesa porque, pouco depois de tomá-lo, ela diz ter começado a se sentir mal.

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P.: Eu comecei a sentir uma tontura, mal-estar.
PROMOTORA: Quanto tempo depois?
P.: Logo depois. Tomei e parece que desceu... E eu comecei a sentir o mal-estar, uma coisa muito estranha. E aí a minha reação foi pedir para ele pra ir ao banheiro, porque eu tava constrangida. Aí eu lembro que eu caminhei até o banheiro e eu tava assim, era como se a minha consciência tivesse alterada, eu não tava conseguindo, assim, a minha noção de espaço. Eu tava com ânsia de vômito, com uma dor, uma sensação assim de mal-estar.
PROMOTORA: Essa sensação que você teve [silenciado] foi diferente de uma sensação de ter tomado álcool? Foi algo que você já tinha experimentado antes ou foi algo diferente?
P.: Algo totalmente diferente. Primeiro porque começou muito rápido e foi uma série de sensações, essa sensação de consciência de não entender direito. No primeiro momento, eu pensei: "Nossa, tô passando mal da comida". Porque você não pensa que você vai passar mal tão rápido por causa de uma caipirinha.

MATEUS ARAÚJO: P. diz se lembrar de não ter conseguido sequer subir a escada que levava ao banheiro do restaurante.

P.: Eu me lembro de me escorar na parede e já tá muito alterada. E, nesse momento, o Thiago veio até mim. [...] Ele falou e me pegou pela cintura. Nesse momento, ele me pegou pela cintura e me ajudou a andar.

MATEUS ARAÚJO: Thiago levou a mulher até o carro e dirigiu para um hotel no Itaim Bibi, bairro nobre na zona sul de São Paulo, onde tinha uma suíte. Aliás, essa era a residência dele e do filho no Brasil antes de se mudarem definitivamente para o condomínio de Porto Feliz.

P.: Eu lembro que eu sentei e falei para ele: "Eu tô passando mal, tô passando mal". E ele sempre tentando apaziguar a situação: "Não, você vai ficar bem. Para, tá tudo bem". E eu sentada naquele banco, e era um enjoo, uma desorientação, era muito estranha a sensação.
PROMOTORA: Você nunca tinha sentido?
P.: Nunca. Porque até aí, eu, pelo menos, nunca tinha ficado bêbada com uma caipirinha, tendo comido por horas. Nós comemos por horas. E os sintomas foram muito rápidos.

MATEUS ARAÚJO: Segundo o depoimento de P., Thiago começou a forçar uma relação sexual entre os dois enquanto ela ainda estava passando mal, desorientada.

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P.: Ele foi abrindo janela, foi tirando sapato, foi no banheiro, voltou. Só que o problema, doutora, é que a cronologia agora ela se perde na minha cabeça. Eu já tentei várias vezes tentar fazer sentido de qualquer coisa de ordem, só que eu não consigo lembrar de tudo. Eu só lembro assim que eu perdi a força, que eu fiquei muito sonolenta, jogada mesmo, e que ele era muito violento, assim, que ele queria rasgar roupa. Tudo com o Thiago começou a virar violento.

MATEUS ARAÚJO: Com ela, Thiago também teria forçado a relação anal.

P.: Eu lembro dele ter forçado a relação desprotegida, violentamente, e eu tava na cama. [...] Eu acho que eu tava de sapato, eu nem consigo me lembrar de como foi, eu só lembro de violência. O momento que ficou mais marcado foi quando ele começou a forçar a relação anal. [...] Era algo que eu nunca tinha feito na minha vida e eu falei para ele: "Thiago, eu nunca fiz". Eu me lembro de falar para ele: "Thiago, por favor, não". Eu neguei muitas vezes, assim, com o resto de força que eu tinha eu só falava "não, não, não".

MATEUS ARAÚJO: P. diz que ficou machucada em toda a região íntima, com hematomas nos braços e marcas de mordida nos ombros e no queixo. Ela só conseguiu recobrar a consciência no dia seguinte, quando acordou sozinha no quarto.

PROMOTORA: Você lembra que horas eram?
P.: Não, eu ainda tava desorientada, perguntando onde eu tava. Porque eu acordo sozinha num quarto de hotel e aquilo parecia que tinha sido um sonho, não parecia real. E eu tava sem roupa e a primeira coisa que eu fiz foi levantar e abrir a porta.
PROMOTORA: E aí?
P.: Tinha um segurança, uma pessoa com uma arma na cintura à mostra.
PROMOTORA: E aí você abre a porta, dá de cara com o segurança e o que que acontece?
P.: Doutora Silvia, agora começam as horas mais malucas, porque eu entrei no modo sobrevivência. Eu pensei assim: "Tá, eu tô sozinha num quarto de hotel, tem um cara armado do lado de fora, eu tava com muita dor na região íntima". Então, assim, não é que eu não sabia o que tinha acontecido, eu sabia. E eu pensei: "Ele vai chegar aqui a qualquer momento, eu preciso sair dessa situação".

MATEUS ARAÚJO: A mulher mandou mensagem para Thiago perguntando onde ele estava.

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P.: E aí ele respondeu, meio-dia: "Vem aqui, estou pregado. Vem cá" Eu vou ter que ler isso? Tá, eu vou ler, eu vou ler, eu vou ler. "Vem cá, pra mim comer seu cuzinho e sua bocetinha de novo". Nisso, ele me ligou duas vezes, tem duas chamadas perdidas.
PROMOTORA: E você não atendeu?
P.: Não, vai estar no print que você vai receber. Porque na hora que ele escreveu isso, eu entrei em pânico, porque eu pensei: "Se ele vier aqui, ele vai fazer tudo de novo". E eu fiquei numa situação que eu não sabia o que fazer. Eu fiquei porque, com esse segurança armado na porta e com ele falando isso, eu me senti encurralada. [...] E aí ele apareceu. E quando ele apareceu, ele já não era mais aquele personagem, ele já era agressivo, ele já era outra pessoa.

MATEUS ARAÚJO: Thiago pediu comida por delivery e os dois almoçaram. Depois de comerem, avisou pra P. que eles iriam para o condomínio Boa Vista, em Porto Feliz, e que ela tinha de se arrumar.

P.: E quando eu falei que eu ia tomar banho, ele começou a falar muito, muito, muito mal do meu corpo. Falou que eu sou sedentária, falou que eu precisava de um cirurgião plástico. E, conforme ele foi falando, eu não aguentei e comecei a chorar, porque eu realmente já fui obesa, perdi peso. E aquele homem tava lá, o meu abusador, o cara que tinha tirado a minha dignidade, ele ainda resolveu piorar e falar mal do corpo que ele fez o que ele queria, sabe? E falando horrores, falando que tinha ia ver com o cirurgião plástico dele se eu tinha conserto. [...] E, assim, ele ria, ele ria, enquanto eu chorava.

MATEUS ARAÚJO: Durante essa conversa entre os dois, enquanto Thiago criticava o corpo de P., o filho dele entrou no quarto.

P.: Eu já tava me sentindo totalmente exposta, daí eu tô lá de roupão e o filho dele entra como se fosse uma situação super corriqueira. Assim, eu me senti pior ainda. E aí o filho dele fala com ele e ele falou: "Eu vou sair com o [silenciado], e o meu funcionário vai te levar até sua casa. Vai esperar você fazer as suas coisas, arrumar suas coisas, para a gente ir para Boa Vista à noite".

MATEUS ARAÚJO: Thiago saiu com o filho e P. ficou acompanhada do segurança armado.

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O funcionário de Thiago é Nahilson Antonio de Oliveira, ex-policial militar do estado de Pernambuco. Em uma gravação obtida pela reportagem do UOL, Thiago confessa que pediu a Nahilson pra ser "laranja" em um caso de agressão dele a um motoboy.

THIAGO BRENNAND: Eu dei uma tapa num motoqueiro, um dia, de mão aberta. Dei uma tapa nele aqui, o sangue desceu pelo nariz, estourou tímpano, aí ele botou lá no laudo do IML, quis me processar. Mas eu boto um menino meu para dizer que fui, não fui eu, ainda processo o cara por calúnia dizendo que é mentira, que ele quer me tomar dinheiro.

MATEUS ARAÚJO: Brennand teria agredido um garçom do hotel fazenda Boa Vista, por volta das 11h da noite de 11 de março de 2022. Quando saía do trabalho de moto, o rapaz teria visto Brennand saindo de sua garagem a bordo de um Land Rover.

Ele relatou à polícia que reduziu a velocidade para dar passagem, mas, como Brennand não saiu, o garçom decidiu seguir seu caminho. Na sequência, Brennand começou a perseguir o funcionário, buzinando e sinalizando os faróis, obrigando ele a parar.

Brennand então teria partido para cima do garçom, com tapas e socos, chamando o rapaz de "vagabundo" e dizendo que ele não entraria mais no condomínio.

O caso foi parar na Justiça, e a defesa de Brennand alegou que ele não estava no endereço e que foi o segurança Nahilson que discutiu com o rapaz naquela noite.

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Foi esse mesmo Nahilson quem levou P. do hotel até a casa dela, com a promessa de que, seguindo as ordens de Thiago, buscaria ela mais tarde para irem à Fazenda Boa Vista. Assim que chegou em casa, P. ligou para a portaria, informou a placa do veículo e proibiu a entrada dele.

PROMOTORA: E aí, e depois?
P.: Thiago me mandou um vídeo íntimo de nós dois.
PROMOTORA: Mas, antes de mandar o vídeo, ele mandou alguma outra coisa?
P.: Nada. [...] Doutora Silvia, ele não falou nada, e em uma das nossas conversas, eu me lembro que ele queria muito saber da questão do miss e eu falei para ele, né, que no meu contrato eu não posso aparecer em nudez, pornografia. E eu não falei só disso, né? Falei que eu não poderia aparecer bebendo, que eu não poderia... São as cláusulas contratuais... E ele me mandou o vídeo. Eu abri o vídeo, mas eu não conseguia assistir até o final, isso foi algo que também eu me cobrei muito porque depois eu não consegui mais acessar o vídeo. Eu apertava e a mídia parecia corrompida. Mas o que eu consegui ver do vídeo era: eu tava nua, ele passava a mão no meu corpo, primeiro na minha região íntima. Eu tava de frente para ele, e ele ficava passando a mão no meu corpo, assim, como se fosse um troféu. E aparecia o meu rosto.

MATEUS ARAÚJO: Foi por causa desse vídeo, segundo P., que ela não acusou Thiago imediatamente.

A denúncia dela só foi feita em 2022, após a divulgação do caso da academia Bodytech.

Histórias como as de K., de C. e de P. trazem à tona páginas da vida de Thiago Brennand que ele fez de tudo para esconder.

Minha colega Juliana Sayuri listou todos os novos capítulos da biografia de Brennand após a divulgação do caso da academia.

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JULIANA SAYURI: A partir de entrevistas e documentos a que a gente teve acesso, a gente conseguiu contar 41 acusações contra Brennand desde 2001.

São elas: porte de maconha num aeroporto quando ele era jovem; desacato a policiais, alienação parental (contra D., a mãe de L.), caso de perigo direto e iminente (a história do jet-ski que Mateus contou no início do episódio) e posse ilegal de arma.

Também constam na ficha corrida de Thiago 2 acusações de calúnia e difamação, 6 de calotes, 5 de ameaça e perseguição e 11 de lesão corporal.

São 12 acusações de estupro, e enquanto a gente finaliza este podcast, ele está sendo julgado em 5 desses casos. Por enquanto, Thiago só foi condenado pelo estupro de C. e ainda em primeira instância.

A gente fez um pedido de entrevista a Thiago pelo advogado dele e também enviamos uma carta pro próprio Thiago, pedindo que ele desse uma entrevista pra esse podcast.

MATEUS ARAÚJO: Só um adendo antes de Juliana ler a carta: Nela, escolhemos escrever "doutor" porque é assim que Thiago gosta de ser chamado, segundo a gente apurou — muito embora ele não tenha doutorado. Em e-mails ele diz que é PhD por Oxford, mas a universidade britânica diz que não tem nenhum registro dele, sob nenhum de seus sobrenomes famosos (nem Brennand, nem Fernandes Vieira).

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JULIANA SAYURI: Escrevemos:

Prezado Doutor Thiago Antonio Brennand Tavares da Silva Fernandes Vieira,

Somos jornalistas do UOL e estamos produzindo um podcast sobre a história do senhor.

Gostaríamos muito de ouvir a história do senhor, nas suas próprias palavras. O senhor também teria a oportunidade de falar, pelo tempo que julgar pertinente, sobre as acusações que o levaram a imbróglios judiciais.

Caso aceite nosso convite para gravar uma entrevista exclusiva, nós ficaremos inteiramente à disposição no melhor dia e no melhor horário para o senhor. Podemos levar o equipamento que for autorizado para gravação nas dependências do CDP de Pinheiros, em São Paulo.

Desde já agradecemos a atenção.

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Juliana Sayuri e Mateus Araújo.

MATEUS ARAÚJO: CDP de Pinheiros, o Centro de Detenção Provisória, é onde ele está preso em São Paulo desde abril de 2023. A carta foi recusada sem sequer ter sido aberta.

Além da condenação pelo caso da estadunidense C., em novembro de 2023, o caso da academia Bodytech também ganhou uma solução aos olhos da Justiça.

REPORTAGEM DE TV: A condenação de Thiago é por ter agredido uma jovem, uma modelo numa academia aqui na cidade de São Paulo. O juiz ainda determinou o pagamento de R$ 50 mil para a vítima. Foi depois desse caso que outras denúncias contra Thiago surgiram, com crimes como estupro e cárcere privado.

MATEUS ARAÚJO: Neste caso, Thiago foi condenado a 1 ano e 8 meses de prisão. Vale ressaltar que ainda cabe recurso às duas condenações pelas quais Thiago cumpre pena: tanto no caso C., quanto no caso da Bodytech.

Na prisão, ele aguarda os outros julgamentos — como o caso de K., um dos processos aos quais Thiago responde e que ainda não teve sentença. Juliana vai dar um panorama sobre como a Justiça vem tratando este caso.

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JULIANA SAYURI: Na primeira vez que K. acusou Brennand, em 2021, o processo acabou arquivado por falta de "justa causa", quer dizer, falta de provas.

Ela já tinha anexado as gravações telefônicas nos processos, mas os relatos de Edsá Sampaio, Daniel Cossani, a governanta M., que foram ouvidos pela polícia, na época, corroboraram a versão de Brennand.

Edsá chamou K. de "desequilibrada" e "mentirosa"; Cossani disse que ela nunca pediu ajuda. Depois do escândalo da Bodytech, em 2022, o processo foi reaberto. O Ministério Público considerou "novas provas".

Entre elas, o depoimento detalhado que K. deu ao Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (cujos trechos a gente está trazendo aqui no podcast); um novo depoimento de Cossani; e uma série de relatos de mulheres acusando Brennand de crimes sexuais. Nas palavras do MP, eles indicam "o mesmo modo de agir". Um modus operandi.

Desde que se tornou alvo de ações judiciais, Brennand contratou escritórios de advocacia famosos para sua defesa. Até agora, foram mais de 5.

Uma das linhas iniciais de defesa foi dizer que K. era uma mulher empoderada e portanto não seria vítima. Um dos documentos da defesa diz: "Excelência, a sedizente vítima é a personificação da mulher de sucesso empoderada, que nada tem de vulnerável; e, assim, deve assumir as consequências da sua conduta e declarações prestadas perante as autoridades e a comunidade. [...] Enfim, a sedizente vítima é uma mulher adulta, forte, independente e absoluta".

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Outra linha de defesa, mais recente, foi apontar inconsistências no relato de K. A primeira delas é a tatuagem TFV — como ela teria sido forçada se a tatuagem não ficou borrada? E, naquela conversa que a própria K. gravou, e que você ouviu no episódio 2, ela diz que queria fazer a tatuagem, só que não naquela noite.

Outra inconsistência é que, depois de tudo que teria acontecido em Porto Feliz, K. ainda encontrou Brennand outras vezes em Pernambuco, até junto com a família dele e a família dela, como se estivesse tudo bem.

Por enquanto, então, K. ainda está aguardando a conclusão do caso.

MATEUS ARAÚJO: Ainda restavam algumas dúvidas a respeito do caso K. Por isso, eu fui atrás de uma advogada com experiência em casos de violência contra mulher. Eu conversei com Amanda Scalisse, que me recebeu no escritório dela, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

MATEUS ARAÚJO: As vítimas citam comportamentos semelhantes de Thiago em vários casos de estupro. Isso pode influenciar nos julgamentos, uma decisão pode impactar uma outra decisão?
AMANDA SCALISSE: No julgamento do mérito do caso, não. Diferentes processos vão ter diferentes provas e decisões que vão considerar ali as circunstâncias de cada caso concreto. Então, de maneira alguma um juiz ou uma juíza pode utilizar algum aspecto fático de um caso pra decidir em outro caso. Mas condenações anteriores podem influenciar no cálculo da pena. Então, quando o magistrado ou uma magistrada, se for uma sentença condenatória, for calcular a pena, vai considerar que há condenações anteriores. Então, a reincidência é uma circunstância agravante de pena. Então, provavelmente a pena será maior.
MATEUS ARAÚJO: Thiago foi condenado até agora em dois casos. No primeiro, mais de 10 anos em regime fechado pelo crime de estupro e, num segundo caso, com um pouco mais de 1 ano, em regime semiaberto, pelo crime de agressão. Ele vai cumprir essa pena, tendo essa de semiaberto, ele vai cumprir em regime semiaberto ou fechado? Como vai ser o cumprimento dessa pena?
AMANDA SCALISSE: Quando uma pessoa é condenada em mais de um processo criminal, acontece o que a gente chama de unificação das penas, então o juiz ou juíza da execução penal vai receber essas condenações e aí vai somar essas duas penas. Então, considerando que ele já tem uma condenação em regime fechado, que uma das condenações é regime fechado, ele necessariamente vai iniciar o cumprimento em regime fechado. Mas ele vai ter direito, como qualquer preso, à progressão de regime. Então, também a depender dos crimes que ele for condenado, tem uma porcentagem de pena que ele vai ter que cumprir para progredir de regime para o semiaberto. Mas ele vai iniciar o cumprimento em regime fechado.
MATEUS ARAÚJO: Doutora, as gravações feitas como essas de K., nesse caso, elas podem ser consideradas provas do processo ou são ilegais?
AMANDA SCALISSE: No caso da K., a gente percebe que foi ela que gravou a conversa, uma conversa telefônica. Então, os tribunais brasileiros já decidem há algumas décadas que é possível, sim, a utilização dessa gravação por um dos interlocutores da conversa como prova. Então, sim, as provas apresentadas pela K. são legítimas.

MATEUS ARAÚJO: Seja qual for o resultado da Justiça, K. contou em depoimento, no dia 26 de setembro de 2022, que tudo que aconteceu deixou nela sequelas que insistem em não ir embora.

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K.: Eu fiquei à base de calmantes pesadíssimos, quando eu cheguei. Eu fiquei e estou sendo acompanhada com terapia até hoje. Não conseguia dormir, só dormia com muito remédio. Eu não queria fazer absolutamente nada, eu me sentia... Sabe quando você sente um nada de tanta vergonha? É uma vergonha moral que você sente por ser tratada daquela forma, que é inexplicável. Ele faz você se sentir um lixo, uma coisa assim... Ele te faz sentir tão inferior, tão ruim, tão mal. Eu tinha vergonha de olhar pros meus pais, eu tinha vergonha de falar o que tava acontecendo comigo. Foi a pior coisa da minha vida, eu dormia pensando nisso, acordava pensando...

MATEUS ARAÚJO: Ela também relata que toda a situação fez com que ela desenvolvesse uma espécie de trauma ao tentar se relacionar com homens outra vez — ainda que não romanticamente.

K.: No meu meio, a maioria dos produtores, diretores, a maioria são os homens. E, até hoje, eu tenho medo de chegar próximo, de me envolver com alguém, com medo de acontecer a mesma coisa que aconteceu.

MATEUS ARAÚJO: O envolvimento com Thiago e a divulgação dos vídeos íntimos entre os dois, por ele, interferiram também na carreira, reputação e amizades de K. em Miami.

K.: Eu fui excluída de vários grupos de mães, primeiro. Porque o preconceito foi absurdo. Depois de ver um vídeo meu girando, eu perdi várias amizades, porque muita gente não quis mais falar comigo. [...] Me olham diferente, me excluíram de grupos de amigos, grupos de escola, devido aos vídeos que ele enviou. Perdi trabalho por causa disso. A minha filha, na escola [...] comentaram que a mãe dela fez um filme pornô. Vídeos meus sendo enviados pra adolescentes, amigos da minha filha. Então, influenciou muito a minha vida isso.

MATEUS ARAÚJO: Como Thiago não respondeu à nossa tentativa de entrevista, a gente não tem o lado dele sobre as histórias que contamos por aqui. Mas, na oitiva à Justiça sobre o caso de C., que foi o registro mais recente que a gente conseguiu dele, Thiago negou todas as acusações pelas quais responde.

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Disse que nunca na vida sequer deu em cima de uma mulher:

THIAGO BRENNAND: Eu sou uma pessoa reconhecida como muito reclusa. Eu nunca xavequei uma mulher, em meus 43 anos, porque eu considero um ato cafona você dizer "ah, linda", ah, sei lá, mandar flores... Tudo surge de um diálogo.

MATEUS ARAÚJO: Que não é afeito a violência durante o sexo.

THIAGO BRENNAND: Eu costumo dizer que sexshop é a enfermaria sexual e "50 Tons de Cinza" é UTI. Pra mim, não sou afeito a nenhum tipo de coisa extra.

MATEUS ARAÚJO: E que jamais teve qualquer tipo de relação sem consentimento.

THIAGO BRENNAND: Jamais, jamais. Eu tenho verdadeiro ódio a estuprador e sempre fui pró-polícia a minha vida inteira e pró-ordem.
JUIZ: Então todas as relações foram consensuais?
THIAGO BRENNAND: Sem dúvida, com todas as mulheres que eu tive em toda minha vida.

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MATEUS ARAÚJO: Como eu já falei, Thiago não respondeu aos nossos pedidos de entrevista. Então, algumas das nossas perguntas ainda ficaram sem resposta. Como essa aqui:

THIAGO BRENNAND: Quem é Thiago Antônio Brennand Tavares da Silva Fernandes Vieira ou Thiago Antônio Fernandes Vieira, você sabe responder? [...] Acho que no momento é um inimigo público, talvez um sociopata, talvez um estuprador? Será mesmo?

MATEUS ARAÚJO: Eu sou Mateus Araújo e esse foi o último episódio de Brennand. Obrigado a você, que nos acompanhou nesses seis episódios.

A pesquisa e a reportagem do podcast foram feitas por mim e por Juliana Sayuri. O roteiro é de Clara Rellstab. Montagem é de Danilo Corrêa. Desenho de som de João Pedro Pinheiro. Trilha sonora de João Pedro Pinheiro com base na obra de Luiz Álvares Pinto. Trilhas adicionais do Epidemic Sound. O design é de Eric Fiori. Motion Design de Leonardo Henrique Rodrigues. Direção de arte de Gisele Pungan e René Cardillo. Coordenação de Juliana Carpanez, Ligia Carriel e Olivia Fraga.

O podcast é um produto do UOL Prime, que tem Diego Assis como gerente geral de reportagens especiais. O projeto também conta com Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL.

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