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Motoboy negro e morador branco são indiciados por lesão corporal no RS

O motoboy Everton Henrique Goandete da Silva, 40, e o morador Sérgio Kupstaitis, 71, foram indiciados por lesão corporal de natureza leve. Everton também foi indiciado por desobediência por resistir à prisão. O caso ocorreu em Porto Alegre (RS), no dia 17 de fevereiro.

O que aconteceu

A investigação da polícia apontou que os dois envolvidos na ocorrência se agrediram. Sérgio teria atacado Everton com uma faca, que por sua vez, jogou pedras no morador. O motoboy sofreu escoriações no pescoço, que teriam sido provocadas pelo canivete. Já o idoso sofreu escoriações na perna. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (23), em entrevista coletiva realizada pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul.

Polícia ouviu 27 testemunhas e analisou 12 filmagens de câmeras de segurança. "A polícia apurou que houve uma contenda entre as partes, uma briga. Houve um indiciamento de ambos por lesões corporais de natureza leve. Everton foi indiciado por desobediência, considerando a sua resistência no momento da abordagem", esclareceu Sandro Caron, o comandante-geral da Brigada Militar.

Desavença entre o morador e entregadores era antiga. A investigação confirmou que Sérgio já havia ligado para o 190 (Polícia Militar) três vezes reclamando dos motoboys que ficam parados em frente ao seu prédio. Ligações ocorreram em 8 de outubro do ano passado, 17 de novembro e 24 de janeiro deste ano.

Imagens foram exibidas na entrevista coletiva. Em um dos vídeos, é possível ver que o idoso aparece segurando uma faca. Em seguida, o motoboy joga três pedras na direção dele. A imagem não mostra o idoso tentando esfaquear o entregador. Em depoimento à polícia, ele alegou que jogou as pedras como uma reação a agressão sofrida.

O inquérito foi encaminhado ao Poder Judiciário. Se o Ministério Público do Rio Grande do Sul entender que houve um crime mais grave, o inquérito retorna para a delegacia e novas diligências serão feitas. Para a Polícia Civil do RS, o fato está elucidado.

Atuação da Brigada Militar foi alvo de sindicância

O homem negro ainda denunciou que houve racismo por parte da BM. Ele alegou que houve diferença no tratamento dos envolvidos.

Uma sindicância foi aberta para apurar a atuação dos policiais envolvidos na ocorrência. De acordo com o corregedor-geral da Brigada Militar, Vladimir Luís Silva da Rosa, a investigação foi concluída em seis dias. O procedimento interno aberto pela BM apurou a conduta dos quatro policiais envolvidos.

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Para a polícia, não houve crime de racismo durante a abordagem. "Não teve nenhuma conduta diversa da que tem que ser feita para todos. Ambos foram algemados e presos", disse Vladimir. A BM constatou também que não houve indícios de crime militar nem de crime comum por parte dos PMs.

A sindicância constatou que houve transgressão disciplinar. Isso porque os policiais permitiram que o idoso subisse sozinho ao apartamento para vestir uma blusa e buscar a documentação. Além disso, ele não foi levado para a delegacia no porta-malas da viatura policial. O morador foi conduzido a uma delegacia no banco traseiro de uma viatura, diferente de Everton, levado no porta-malas.

A Brigada Militar justificou que o porta-malas era único espaço que havia no veículo para o deslocamento do motoboy. O corregedor esclareceu que, naquele momento, os policiais não viram que uma segunda viatura teria chegado ao local.

Entenda o caso

Everton Goandete foi algemado à força por policiais militares após levar uma facada no bairro Rio Branco, em Porto Alegre (RS), no sábado (17). Ao UOL, ele disse que foi atingido por um homem branco. Os dois foram levados à delegacia.

Vídeos divulgados em redes sociais mostram o motoboy sendo prensado contra a parede por policiais até ser algemado e levado para a caçamba de uma viatura. Nas imagens, durante a abordagem truculenta, um idoso, suspeito de ter dado a facada, passa sozinho e diz que iria pegar os seus documentos.

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Pessoas que passavam pelo local protestaram contra a ação dos policiais dizendo que a atitude contra o motoboy foi racista. "Quem tomou a facada foi ele", disse um rapaz no vídeo.

O homem negro foi levado antes à viatura. Ao UOL, uma testemunha afirmou que o idoso foi no banco de trás do veículo, enquanto o motoboy foi na caçamba. No meio da tarde, ambos foram liberados.

Em uma rede social, o governador Eduardo Leite (PSDB) disse que o caso será apurado com "a mais absoluta celeridade".

Motoboy disse que se sentiu 'um saco de lixo'

Everton disse que a abordagem ao homem branco foi diferente. "Tinha que pegar o indivíduo e, como ele (o policial) me pegou, fazer igual. Só que eles não fizeram isso daí. Foram para cima de mim como se eu fosse um saco de lixo. E eu não sou um saco de lixo. Eu sou um trabalhador como todo mundo que tem nessa rua", afirmou Everton em entrevista à RBS TV, na manhã de segunda-feira (19).

O motoboy esclareceu que não discutiu com o agressor antes de ser esfaqueado. "Estão falando que eu discuti com ele. Ele apareceu do nada e me desferiu o golpe de faca. Então, não houve uma discussão. Eu estava sentado. Nós (os motoboys) temos um grupo de WhatsApp de delivery de comida. No caso, a maioria dos motoboys ficam por ali. Do nada, o senhor ali apareceu com um canivete. Foi de surpresa. Só falou uma coisa. Quando vê, ele já vem com o canivete me esfaqueando", relembrou.

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Ele pontuou ainda que foi jogado contra a parede pelos policiais, mesmo após ter sido esfaqueado. "O brigadiano vem querer me revistar. [Mas] não tem por que me revistar. [O policial] me jogou contra a parede. Começou a falar coisas no meu ouvido para me deixar mais irritado. E foi assim, como está em todos os vídeos. Tem pessoas que estão falando mal de mim, mas elas não estavam no exato momento, elas não passaram o que eu passei. É isso aí que eu tenho para falar", contou.

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