PUBLICIDADE
Topo

Aliança entre governador e prefeito dá cargo e reduz candidatos em Curitiba

Prefeito Rafael Greca (à dir.) cumprimenta o atual governador do Paraná, Ratinho Jr. - Divulgação
Prefeito Rafael Greca (à dir.) cumprimenta o atual governador do Paraná, Ratinho Jr. Imagem: Divulgação

Vinicius Boreki

Colaboração para o UOL, em Curitiba

12/09/2020 04h00

A eleição à Prefeitura de Curitiba parecia que ia dar diversas opções para o eleitor. Até dois candidatos notórios em Curitiba —Ney Leprevost (PSD) e Luciano Ducci (PSB)— anunciarem a desistência do pleito por alianças com o DEM, do prefeito Rafael Greca, que concorre à reeleição.

A chapa de Greca, cuja convenção ocorreu em 31 de agosto, deve ter como vice Eduardo Pimentel, que trocou o PSDB pelo PSD em abril. O acordo, que tirou Ney Leprevost da disputa, contou com a colaboração do governador Ratinho Jr. Do mesmo partido, ele "convocou" Leprevost a assumir a Secretaria de Justiça e Trabalho para "comandar a retomada dos empregos no estado" no pós-pandemia. Em 2016, Leprevost disputou o segundo turno da prefeitura, quando recebeu 46,75% dos votos.

"Ney é homem da minha confiança, gestor sério e competente. Preciso que ele retorne rápido ao governo. Tenho certeza de que não se negará a ajudar o Paraná", afirmou o governador por meio de nota.

Ratinho Jr., 39, disse que Ney "tem só 46 anos" e ainda "vai ser um grande prefeito de Curitiba", com capacidade para ser "senador ou governador". "Mas, no momento, precisamos do Ney comandando a retomada dos empregos e o socorro às famílias em vulnerabilidade."

Leprevost se pronunciou por meio de nota. "Todos sabem que tenho um sonho de servir Curitiba como seu prefeito, mas, às vezes, é necessário ir um passo atrás para dar um salto à frente", declarou. Ele disse que a campanha majoritária "curta, restritiva e focada só em redes sociais" favorece aqueles com grande poder econômico ou "que têm a seu serviço verdadeiras quadrilhas digitais". "Por isso, aceito o desafio a mim dirigido pelo governador do estado.

Na avaliação do professor de ciência política Luiz Domingos Costa, da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), Ratinho Jr. compôs a chapa de modo a diminuir o número de candidaturas. "O governador quer evitar desgastes e o surgimento de novas lideranças. É importante para ele não ter o Leprevost em ascensão, mas apoiar o Greca, um político em final de carreira", explica.

Luciano Ducci, por outro lado, já foi vice-prefeito entre 2005 a 2010, durante a gestão de Beto Richa, e comandou a cidade entre 2010 e 2012, quando Richa se tornou governador. "É hora de apostarmos na união. Mantendo a coerência do PSB, resolvemos apoiar a coligação encabeçada pelo prefeito Rafael Greca e pelo vice, Eduardo Pimentel, que conta também com o apoio do governador Ratinho Jr.", afirmou.

Até o fim das convenções partidárias, outro partido que pode embarcar neste bloco de DEM, PSD e PSB é o PP, comandado no estado pelo deputado federal Ricardo Barros, líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara. O PP pleiteava a vaga de vice na chapa de Greca. Há a possibilidade de lançar na função Maria Victoria (filha de Barros), que disputou a prefeitura em 2016, obtendo 5,66% dos votos no primeiro turno.

Oficialmente, o PP vai confirmar a sua posição apenas na convenção, agendada para a próxima quarta-feira (16), último dia para os partidos anunciarem seus candidatos. Mas já há discussões para que o PP —com tempo de TV disponível— também ingresse no bloco.

Modus operandi conhecido

Ratinho Jr. parece seguir o modus operandi tradicional dos governadores e ex-governadores do Paraná: evitar disputas duras e com opções diversas, assim como reduzir a ascensão de eventuais adversários do mesmo espectro político.

Em 2018, Ratinho Jr. conseguiu asfixiar a candidatura de Osmar Dias (PDT), que seria um de seus principais adversários. Após uma coligação do PSC com o Podemos, o candidato à Presidência Álvaro Dias ficou no palanque de Ratinho Jr. e deixou Dias isolado.

Naquela época, a eleição ao governo do Paraná teve Ratinho Jr e Cida Borghetti (PP) como protagonistas, mas foi decidida ainda no primeiro turno.

Para Luiz Domingos Costa, o grande número de partidos no Brasil cria a falsa expectativa de pluralidade. "As pré-candidaturas funcionam como instrumentos de barganha. O problema é não existir uma candidatura forte de outros espectros ideológicos, o que deixa de criar um contraponto programático para o eleitor", diz.

Na avaliação de Costa, muitos partidos lançam pré-candidatos para obter espaço em coligações, o que não é errado ou imoral. Em um país diversificado como o Brasil, o ideal seria haver quatro ou cinco bons candidatos. "De março para setembro, tem uma lógica, uma cultura local, e o efeito nem sempre é o mais benéfico para o eleitor, que fica com mais do mesmo, sem disputa e debate programático intenso e variado", diz.

A disputa local remonta aos anos 1980 e 1990. Hegemonias de Jaime Lerner, Roberto Requião e Beto Richa criam uma espécie de inércia ao governismo. "Há uma nova liderança de centro-direita do Paraná a partir da eleição do Richa e que se segue com o Ratinho Jr. Ela tem demonstrado hegemonia tanto do ponto de vista de controle do estado quanto da coordenação de candidaturas."