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Eleições 2020

Como funcionam as pesquisas eleitorais e por que são confiáveis

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

15/09/2020 04h00

Você já deve ter ouvido o comentário: "Não conheço ninguém entrevistado pelo Datafolha ou pelo Ibope". Isso é suficiente para deixar de acreditar nas pesquisas eleitorais?

Como não é possível entrevistar, periodicamente, os cerca de 148 milhões de eleitores, os institutos trabalham com uma amostra que, numericamente, consegue representar a totalidade.

"Um grupo de pessoas sempre indicará uma tendência, um comportamento. Ao pegar essa amostra e ter conhecimento básico de alguns programas, é possível colher [o posicionamento] de 2.000 pessoas e projetar essa tendência para 200 mil, 200 milhões ou até ao infinito", diz o estatístico André Calaça.

Como se escolhem os entrevistados?

Os institutos têm como metodologia um sistema de cotas proporcionais à população, com base nos últimos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O Datafolha usa como variáveis as proporções de sexo e faixa etária. Já o Ibope usa cotas proporcionais de sexo, idade, grau de instrução e setor de dependência econômica. O instituto MDA Pesquisa aborda gênero, idade e renda familiar.

A quantidade de entrevistados varia de acordo com o tamanho da população a ser pesquisada e não há um número mínimo. "As pessoas acham que tem de ser diretamente proporcional, mas não é bem assim. Se tem uma população muito pequena, a proporção aumenta. Mas, se é grande, teoricamente o N [número] converge em determinado local, e aí é possível criar [um padrão] até o infinito", explica Calaça.

Já as empresas afirmam que não é a quantidade que importa. "Não há tamanho mínimo para uma amostra eleitoral. O mais importante é a sua representatividade, ou seja, como são selecionados os entrevistados", afirma o Datafolha.

Por que existe uma margem de erro?

As pesquisas eleitorais trazem uma margem de erro que indica a possível oscilação do índice. É como se a porcentagem alcançada pelo candidato fosse somada a essa margem de erro, tanto para mais como para menos, demonstrando a faixa de votos.

Cada instituto adota uma margem de erro diferente, que varia geralmente entre 1 e 4 pontos percentuais. Para chegar a uma margem exata, teria que ser aplicado um tipo de pesquisa probabilístico puro, ou seja, com seleção totalmente aleatória dos participantes, algo inviável no Brasil pelo custo.

"Matematicamente, quando a amostra é completamente aleatória, você chega a uma margem de erro com mais precisão. Mas como faria aqui? Dentro das condições, eles [os institutos] adotam as cotas proporcionais, o que pode aumentar a margem de erro, mas segue um rigor metodológico que indica a tendência do eleitorado", afirma Calaça.

Para medir a intenção de voto, os institutos geralmente usam dois métodos, ambos aplicados às mesmas pessoas:

  • Espontâneo: o eleitor indica em quem pretende votar sem nomes mencionados por parte do pesquisador. Podem aparecer pessoas que nem pretendem se candidatar.
  • Estimulado: o agente apresenta o nome de todos os candidatos e pede para que o entrevistado escolha.

Pandemia estimula pesquisas pelo telefone

As empresas costumam utilizar o método da entrevista presencial, com sorteio das cidades ou bairros visitados. Por causa da pandemia, parte das instituições tem aderido a entrevistas pelo telefone.

O Ibope adotará o método face a face "onde for possível" e por telefone. "Os números de telefones são selecionados aleatoriamente. O cálculo para o tamanho da amostra é o mesmo, independentemente do método de coleta de dados", explica Márcia Cavallari, CEO do Ibope.

O MDA Pesquisa terá pesquisas presenciais em cidades com menos de 200 mil habitantes que apresentem redução na taxa de contágio do coronavírus nos cinco dias anteriores. Em municípios maiores ou com mais contaminação, será por telefone.

Já o Datafolha vai fazer presencialmente. "A pesquisa estimulada é a principal, que destacamos. Por telefone, tem a desvantagem de não conseguirmos mostrar o cartão circular com os nomes dos candidatos, e o pesquisador tem de ler os nomes. Quando há muitos candidatos, como em São Paulo, o entrevistado, ao final, não se lembra dos primeiros [nomes]", afirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha.

O Ibope também vê limitações no modelo por telefone. Afirma que "há uma certa dificuldade de acessar por telefone as pessoas de escolaridade e renda mais baixas". "Se a eleição tiver uma clivagem [separação] social forte, os resultados podem não representar o conjunto de eleitores", completa Cavallari.

Por que as pesquisas erram?

Além da margem de erro, pesquisas eleitorais são retratos de cada dia. Precisam ser analisadas em série para captar tendências.

"A pesquisa é uma fotografia do momento. Quando se tem uma série, aí se tem o filme. Ao trazer o entrevistado para a simulação 'caso a eleição fosse hoje', a gente aproxima mais do ato do voto. Mas os resultados não podem ser projetados para o futuro", explica Paulino.

"Muitas vezes ocorrem leves modificações dentro do cenário. Mas, feitas de forma idônea, são uma ferramenta superútil para entender tendências", diz Calaça.

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