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Campanha de Rogéria Bolsonaro tem tesoureira investigada em rachadinha

Rogéria com o filho Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio - Reprodução/ Instagram
Rogéria com o filho Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio Imagem: Reprodução/ Instagram

Igor Mello

Do UOL, no Rio

17/10/2020 04h00

Tentando voltar à Câmara dos Vereadores do Rio após quase 20 anos afastada da política, Rogéria Bolsonaro (Republicanos), primeira ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), escolheu uma das investigadas no Caso Queiroz para atuar como coordenadora financeira —função similar à de tesoureira— e contadora de sua campanha.

Alessandra Cristina Ferreira de Oliveira trabalhou no gabinete da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) de Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Rogéria, e teve os sigilos fiscal e bancário quebrados pela Justiça. À frente de postos-chave da candidatura, Alessandra lidará com cifras expressivas: a candidata já arrecadou R$ 100 mil por meio de repasses do diretório nacional do Republicanos.

Mãe dos três filhos mais velhos de Bolsonaro —Flávio, senador pelo Rio; Carlos, que tenta o sexto mandato consecutivo como vereador no Rio; e Eduardo, deputado federal por SP, Rogéria se afastou da política após se separar do presidente. Como retaliação depois do fim do casamento, Jair lançou Carlos, então com 17 anos, para disputar votos com a mãe em 2000 —ele foi eleito, e ela não.

A candidata informou à Justiça Eleitoral que Alessandra exercerá ao mesmo tempo duas das três funções mais importantes de uma campanha —a de coordenadora financeira e a de contadora.

Será de Alessandra a função de entregar à Justiça Eleitoral as prestações de contas da campanha assim como ela será responsável pelos contratos firmados, como serviços gráficos, produção de conteúdo para redes sociais, rádio e TV ou o apoio de funcionários.

Ela figura na lista de 103 pessoas e empresas que tiveram os sigilos quebrados a pedido do MP-RJ (Ministério Público do Rio) para apurar esquema de rachadinha —devolução de parte dos salários por nomeados no gabinete— supostamente operado por Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz na Alerj.

Após Flávio conseguir deslocar o foro da investigação para o Órgão Especial do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, solicitou auxílio dos promotores do Gaecc (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção), que já cuidavam do caso na 1ª instância. O caso segue sob sigilo, mas há a expectativa de que uma denúncia seja apresentada ainda este ano.

Alessandra trabalhou no gabinete de Flávio entre junho de 2018 e fevereiro de 2019. Ela também foi escolhida pelo filho mais velho do presidente para atuar neste período como primeira-tesoureira do diretório do PSL no Rio.

Indícios de rachadinha durante campanha

Em setembro, quebras de sigilo obtidas com exclusividade pelo UOL indicam que Alessandra e Valdenice Meliga —outra assessora com grande trânsito junto a Flávio Bolsonaro— repassaram parte de seus salários na Alerj para o advogado Gustavo Botto, tido como um dos homens de confiança de Flávio no Rio.

Ao todo, contas bancárias de Alessandra repassaram R$ 20,8 mil para Botto entre junho e dezembro de 2018, período em que o trio também atuou nas campanhas de Flávio e de dezenas de outros candidatos do PSL no Rio.

As transferências eram feitas sempre poucos dias depois do recebimento de salários e do auxílio-alimentação —modus operandi similar ao encontrado pelo MP-RJ na devolução de salários feita por outros assessores a Queiroz.

Enquanto exercia o papel de dirigente partidária, Alessandra usou uma empresa de sua propriedade —a Ale Soluções e Eventos Ltda.— para prestar serviços de contabilidade para 41 candidaturas a deputado estadual e federal pelo PSL no Rio, 33 delas de mulheres, recebendo R$ 54 mil pelo trabalho.

A empresa está registrada na Receita Federal como prestadora de serviços de "organização de feiras, congressos, exposições e festas", e não com escritório de contabilidade.

Em parte desses casos, os candidatos só registraram gastos com os serviços de Alessandra e de Gustavo Botto, contratado como advogado responsável por 37 candidaturas.

Após denúncias envolvendo seu nome virem a público, Alessandra criou uma nova empresa, chamada Ale Contabilidade, apta a prestar serviços na área. Em suas redes sociais, o escritório ressalta sua expertise no registro de candidaturas, organização de convenções partidárias e na prestação de contas de partidos e candidatos.

Outro lado

Durante a sexta-feira (16), o UOL procurou Rogéria e Alessandra com perguntas sobre a nomeação.

No caso da candidata, a reportagem enviou uma mensagem para seu e-mail e tentou contato com dois números de telefone —todos foram registrados por ela na Justiça Eleitoral como meios de contato.

Contudo, em transmissão ao vivo pelas redes sociais ao lado do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), no começo deste mês, Rogéria desqualificou as investigações do MP-RJ e disse que seus filhos são alvo de perseguição —Carlos também é investigado por promotores do Rio por suspeita de ter mantido funcionários fantasmas em seu gabinete na Câmara dos Vereadores.

"Vou continuar defendendo meu país, os meus filhos, porque estão sendo injustos, estão tentando assassinar caráter", disse ela.

"Tenho certeza dos filhos que criei, dentro da palavra de Deus, na Igreja, não com tantas idas, mas eles têm a formação cristã, a base. Meus filhos jamais fariam alguma coisa que fosse errada, que não tivesse sido ensinada para eles. Sempre mostrei para eles o certo e o errado. O sargentão em casa era eu, não o Jair", completou.

Já no caso de Alessandra, o UOL enviou mensagem para dois endereços de e-mail utilizados por ela em seu escritório de contabilidade e também ligou para um telefone fixo e um celular divulgados nas redes sociais da empresa.