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Candidaturas de mulheres e negros rebatem candidaturas laranjas em eleições

Beatriz Montesanti

Colaboração para o UOL, de São Paulo

17/10/2020 04h00

Há mais de 20 anos, a professora Jacielma se considera uma pessoa política. Desde a época em que servia como liderança comunitária na igreja local. Mas apenas em 2016 se lançou candidata. Não foi eleita e, neste ano, tenta pela segunda vez ser a primeira representante quilombola da Câmara Municipal de Orocó, interior de Pernambuco. Com um diferencial: agora ela é acompanhada pela Tenda, um grupo de mulheres que lhe fornece formação para fortalecer sua candidatura.

Nos últimos meses, movimentos dedicados a impulsionar a participação de mulheres e negros nas eleições proliferaram pelo país. Levantamento feito pelo Instituto Update constatou ao menos 76 organizações em 39 cidades pelo país dedicadas a tornar candidaturas mais competitivas.

O fenômeno surge não apenas da demanda por aumentar a representatividade na política brasileira, como para combater as chamadas laranjas — candidaturas registradas para cumprir cota, mas que não recebem recursos, nem fazem campanha. Nas eleições de 2016, ao menos 16 mil delas não receberam nem sequer um voto.

"O assassinato de Marielle Franco em 2018 deixou bem explícito que a política não é lugar de mulher negra e de sua agenda", explica Gabi Juns, coordenadora do Update. "As eleições também deixaram o estigma de que candidata mulher é igual a candidata laranja. Então esses movimentos surgem para recrutar mulheres que são candidatas reais."

Este ano, cerca de 185 mil mulheres concorrem para vereadora, 33% do total — a lei exige reserva de gênero para 30% das candidaturas. Em outubro, o STF (Supremo Tribunal Federal) também definiu a distribuição proporcional de recursos e tempo de TV para candidaturas negras. Negros representam metade das candidaturas, mas não têm a mesma expressão nas casas legislativas.

A Tenda, da qual a professora Jacielma faz parte, funciona em duas frentes: a primeira realiza capacitação de mulheres. A segunda consiste em um acompanhamento personalizado das campanhas. A equipe é formada por voluntárias e inclui de designer gráfica a advogadas eleitorais. O treinamento conta com workshops sobre como tirar fotografias com celular, marketing digital e como fazer uma campanha antirracista.

"Sou mãe solteira, tenho um filho de dez anos. Faço de um tudo: vou pra roça, lavo, passo, curo, coloco ração. Não tenho vergonha", diz Jacielma. "Ser mulher e negra não é questão de ser capaz. O que falta pra gente é oportunidade. E vamos mostrar que podemos fazer sim a diferença."

Anielle Franco - Divulgação - Divulgação
Anielle Franco criou iniciativa similar no Instituto Marielle Franco
Imagem: Divulgação

Outro desses movimentos surgiu justamente no Instituto Marielle Franco. A PANE antirracista é encabeçada pela irmã da vereadora carioca. "É duro dizer isso, mas o gesto covarde de tentar interromper a minha irmã saiu pela culatra. A urgência de ocuparmos todos os espaços ficou ainda mais escancarada", diz Anielle Franco.

No geral, os movimentos são criados por pessoas que já tiveram experiência prévia com eleição. O #ElasNoPoder, por exemplo, foi pensado por duas consultoras políticas de Brasília. O Vamos Juntas, pelo gabinete da deputada Tabata Amaral (PDT-SP).

Em parceria com o Instituto Update, o #ElasNoPoder lançou na semana passada o Im.pulsa, plataforma de conteúdo aberto e gratuito — uma espécie de Netflix da formação política.

"Percebemos que os únicos candidatos que tinham recursos e acesso a serviço de inteligência e planejamento eram homens brancos com conexão forte nos partidos. Nos demos conta de que trabalhávamos para manter o status quo e, por isso, criamos a ONG", conta a coordenadora de articulação política Mari Abreu.

Os movimentos que falaram ao UOL se dizem suprapartidários e nenhuma das organizações teve como crivo em sua seleção a filiação, mas os criadores reconhecem que a defesa de determinadas pautas, entre elas a própria representatividade, acaba por ser um critério.

Obstáculos

Uma experiência difícil como coordenadora de campanha para a prefeitura de Goiânia em 2016 levou Emília Marinho a criar o Goianas na Urna. O objetivo inicial era impulsionar dez campanhas femininas para a vereância no estado.

"Os bastidores naquela época foram muito provocativos para as mulheres. Elas eram silenciadas em reuniões, questionadas em relação a vínculos afetivos com representantes partidários. Isso me provocou uma angústia em relação ao que poderia ser feito", explica.

Especialistas e candidatas listaram três obstáculos básicos para quem se propõe a furar a bolha: tempo, dinheiro e rede de contatos. Historicamente, mulheres e negros não têm acúmulo de renda para investir nas próprias campanhas. Mulheres, quando são casadas ou têm filhos, precisam lidar com a dupla ou tripla jornada. As que ganham espaço tendem a ser filhas ou esposas de políticos consagrados e se beneficiam de alianças familiares.

"Há muito tempo eu trabalho para mulheres negras estarem na política, mas eu mesma nunca tentei", conta a professora de economia Julimária Sousa. "É um medo que eu demorei muito a entender o que era. De ser julgada pela sociedade, de não ser boa suficiente para fazer aquilo que eu estava fazendo, de como as pessoas avaliam as mulheres nos espaços de poder."

No interior dos partidos, candidaturas femininas e negras recebem recursos insuficientes ou não têm autonomia sobre o dinheiro. Uma prática comum, por exemplo, é que o orçamento seja diretamente destinado pela cúpula para a fabricação de santinhos que, na prática, dão destaque ao candidato da eleição majoritária.

A burocracia tem atrasado, por exemplo, a campanha de Luana Rayalla, mulher negra, trans e deficiente física candidata para a Câmara Municipal de São Gonçalo (RJ) pelo PDT.

"Esta é a segunda semana e eu não consegui ir para a rua. Hoje passei o dia no banco e o material do partido ainda não chegou", diz ela. "Nas últimas eleições, a quantidade de material que me passaram não deu para o final da campanha."

Outro exemplo de mobilização é o Vote Perifa, dedicada a divulgar candidaturas dos extremos da cidade. A ideia surgiu durante a pandemia, quando o produtor audiovisual Willian Dantas voltou a morar na casa de sua mãe, na Vila Inglesa, zona sul de São Paulo e se reencontrou com a urgência de pensar políticas públicas para a periferia.

"A periferia só vai ser foco de políticas públicas quando ela que estiver fazendo a política. Só quem sentiu na pele vai entender os problemas", diz Dantas.