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AL: vice-governador desafia Renan com candidatura e rasga plano 2022 de clã

Renan Calheiros, Luciano Barbosa e Renan Filho fazem coração durante campanha de 2018 - Divulgação
Renan Calheiros, Luciano Barbosa e Renan Filho fazem coração durante campanha de 2018 Imagem: Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

01/11/2020 04h00

A candidatura do vice-governador de Alagoas, Luciano Barbosa (sem partido), à Prefeitura de Arapiraca deu início à campanha de 2022 no estado.

Em uma trama repleta de acusações entre ele e o senador Renan Calheiros (MDB-AL), o MDB alagoano enfrenta crise após anos de crescimento e domínio político na região.

Mesmo sendo Barbosa favorito e sem o partido ter nenhum outro nome na disputa, o diretório estadual, comandado por Renan, pediu à Justiça Eleitoral indeferimento da candidatura. A decisão, no dia 25, foi favorável ao pedido. Dois dias antes, ele havia sido expulso do partido por "desobediência".

Sem recursos do fundo eleitoral nem padrinhos, ele recorre da decisão e continua em campanha.

Por trás desse rompimento, está o plano de o MDB continuar governando Alagoas e eleger mais um senador, no caso, o atual governador, Renan Filho.

"Há vários cenários na mesa, mas todos nos levam a 2022", afirma a cientista política Luciana Santana, que é professora da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) e pesquisadora do Observatório das Eleições.

Barbosa sempre foi um aliado de primeira linha dos Calheiros, tanto que foi escolhido como vice de Renan Filho em 2014 e em 2018. Foi indicado, inclusive, como secretário de Educação em boa parte dos dois governos.

Nos bastidores, há outra ideia: Renan Filho deixaria o cargo no início de 2022 para concorrer à vaga no Senado —hoje ocupada por Fernando Collor (PROS) e que também deve se candidatar. Só há uma cadeira no Senado em disputa.

Renans - Divulgação - Divulgação
Racha em Alagoas entre os Calheiros e Luciano Barbosa
Imagem: Divulgação

A aposta dos Calheiros é que, bem avaliado em sua gestão, o governador seria favorito a derrotar Collor, considerado um dos principais opositores a Renan Filho no estado. Isso consolidaria a força da família e do partido em Alagoas.

Vice desafia acordo

O plano passava por entregar o governo a um aliado e garantir uma sucessão emedebista no poder. Esse nome seria Luciano Barbosa, que foi apontado, inclusive, como o sucessor natural de Renan no grupo.

A ideia do inicial era lançar o deputado Ricardo Nezinho como candidato e colocar o filho de Luciano Barbosa como vice. O vice-governador não aceitou. Não há uma explicação clara sobre o porquê de Barbosa desafiar os Calheiros.

Collor - Kleyton Amorim/UOL - Kleyton Amorim/UOL
O atual senador Fernando Collor é tido como uma das lideranças na oposição aos Calheiros
Imagem: Kleyton Amorim/UOL

Uma das explicações que correm os bastidores seria uma eventual mágoa pela falta de apoio público da família quando, em dezembro de 2019, a filha e o genro de Barbosa foram presos em operação da Polícia Federal. Outros afirmam que Barbosa sonhava em voltar à prefeitura e peitou o clã.

A crise, contudo, muda radicalmente o cenário.

"Havia uma confiança muito grande por parte do governador e do seu pai de que o Luciano não sairia para disputar a eleição. Entende-se que havia um acordo entre eles para eleição de 2022. Renan disputaria o Senado, sairia a seis meses da disputa e entregaria a Luciano o governo", explica Santana.

Mesmo que Luciano volte a ser vice, há uma cisão entre Renan e Luciano. Renan Filho tem duas duas alternativas: vai para um tudo ou nada para ser senador; ou não disputa o Senado, completa o mandato e fica pelo menos dois anos sem cargo eletivo.
Luciana Santana, cientista política

Uma preocupação dos Calheiros, diz Santana, é que a eventual renúncia de Renan Filho daria o governo ao presidente da Assembleia Legislativa. Ele será eleito no dia 3 e assumirá o cargo até janeiro de 2023.

Nessa disputa legislativa, há chance de o nome ser um desafeto dos Calheiros. Um grupo coeso de deputados estaduais é ligado ao deputado federal Arthur Lira (PP), um dos caciques do estado.

Cartas de desgosto

Procurados pelo UOL, Barbosa e os Calheiros não quiseram responder. Mas expressaram suas mágoas em notas públicas.

Em 5 de outubro, Barbosa publicou em carta sua renúncia ao cargo de vice-presidente do diretório estadual do MDB, legenda da qual seria em seguida expulso.

Disse não entender "tamanha agressão, justamente contra quem sempre esteve junto". "Soa desonesto não admitir que a minha pré-candidatura era pública, amplamente conhecida do nosso grupo político."

Não vi um rigor ético em relação aos filiados que foram envolvidos em escândalos e até mesmo condenados por corrupção.
Luciano Barbosa

Renan contra-atacou em uma nota assinada pelo diretório estadual do MDB no dia 26. "É lamentável que alguém, por personalidade ou birra, submeta a legenda e seus militantes em Arapiraca à situação que foi criada", afirma.

É difícil compreender tal comportamento, que revela uma inexplicável obsessão em deixar vago o cargo de vice-governador de Alagoas, movido sabe-se lá por quais impulsos, desejos ou interesses
Renan Calheiros

Diante do cenário, Luciana Santana afirma que o cenário é um desafio político. "Criou-se uma situação bastante traumática. Precisa ver se vai haver tempo e tentativas de reversão. Mas o mundo da política é dinâmico. Hoje o contexto é de crise."