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Petistas chegam às eleições em São Paulo divididos entre Tatto e Boulos

Guilherme Boulos (PSOL), à esq., e Jilmar Tatto (PT) travam batalha por votos petistas - Reprodução
Guilherme Boulos (PSOL), à esq., e Jilmar Tatto (PT) travam batalha por votos petistas Imagem: Reprodução

Amanda Rossi

Do UOL, em São Paulo

14/11/2020 21h31

Resumo da notícia

  • Ex-presidente do PT Tarso Genro diz que Boulos é o candidato que pode levar esquerda ao segundo turno em São Paulo
  • Candidatos a vereadores do PT seguem com Tatto e mencionam disciplina partidária
  • Na véspera da eleição, Boulos tem 17% dos votos válidos e Tatto alcança 6%, segundo o Datafolha
  • Construção de uma futura frente de esquerda ganha adeptos entre filiados e apoiadores do PT

"Boulos é a candidatura que pode nos levar ao segundo turno". A frase, dita às vésperas da eleição 2020 para o UOL, é de um ex-presidente do PT, ex-ministro do governo Lula, ex-governador pelo partido: Tarso Genro. O partido tem candidato próprio a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto, mas seus filiados e apoiadores estão divididos entre o nome petista e Guilherme Boulos, do PSOL, melhor posicionado nas pesquisas de intenção de voto.

Genro presidiu o PT em 2005 e foi ministro da Educação, das Relações Institucionais e da Justiça nos governos Lula. Sua filha, Luciana, é fundadora do PSOL e deputada estadual pelo Rio Grande do Sul. A relação familiar, no entanto, nunca interferiu na questão partidária.

"Não tenho nada contra o Tatto, mas acho melhor o Boulos. [Depois da escolha do Tatto pelo PT] continuei achando e recomendando aos companheiros de São Paulo que prosseguissem na defesa do nome do Boulos"

"Eu nem presto atenção nisso. Porque eu tenho o PT unido na cidade de São Paulo. A militância está na rua, todos os dias, e isso vem crescendo", disse Tatto para o UOL, em agenda na periferia da zona sul, na última quarta-feira (11).

O dissenso petista começou antes da escolha de Tatto, em maio, e perdura até a reta final. Um dos primeiros a sugerirem uma frente de esquerda em São Paulo foi o vereador Eduardo Suplicy, ex-senador pelo PT que tentou emplacar a ideia ainda em 2019.

"Temos visto no Uruguai, na Espanha, em Portugal, uma união dos partidos progressistas que leva a vencer as eleições. Por essa razão, eu acho esse processo bastante interessante. Só que, agora, estou tendo disciplina partidária", continua Suplicy, que tenta se eleger para um novo mandato de vereador e, seguindo a orientação do partido, fez campanha para Tatto.

Já o ex-chanceler do governo Lula, Celso Amorim, declarou apoio ao nome de Boulos mesmo depois da escolha de Tatto. Em seguida, vieram apoiadores históricos do PT, como Leonardo Boff, Frei Betto, Marilena Chauí, Fernando Morais e Mino Carta. Alguns deles, inclusive, defenderam o nome de Boulos diretamente para o ex-presidente Lula.

Lula, em live com a candidata a prefeita do Rio pelo PT, Benedita Silva, voltou a falar que o PT tem que ter candidato próprio — desta vez, se referindo às eleições 2022. "Eu vou te garantir que se depender do PT e de mim, vamos ter uma aliança de toda a esquerda. Agora, o que as pessoas não podem achar é que o PT não pode ter candidato. Por que como é que pode o maior partido não ter candidato?".

'Voto útil'

Sem frente de esquerda em São Paulo, a saída encontrada pelos filiados e apoiadores do PT insatisfeitos é o "voto útil" em Boulos. Um petista filiado desde o início do partido e ouvido pela reportagem diz que, pela primeira vez, não irá digitar 13 na urna eletrônica em uma eleição majoritária.

A migração da esquerda para Boulos, especialmente nas camadas de renda e escolaridade mais altas, aparece nas pesquisas. Segundo o Datafolha de 11 de novembro, Boulos liderava a disputa entre quem tem ensino superior, com 29%. Já na cidade como um todo, Boulos tinha 16% — oscilou para 15% dos votos totais no Datafolha divulgado neste sábado, sendo 17% de votos válidos (excluídos os brancos e nulos).

São dez pontos percentuais a mais que a intenção de voto de Tatto (5% dos votos totais) na véspera da eleição. Nenhum candidato petista em São Paulo teve uma intenção de voto tão baixa a essa altura da disputa. "O eleitor, provavelmente, está fazendo o que os partidos de esquerda não conseguiram fazer", diz Nabil Bonduki, que concorre a vereador como parte de uma chapa coletiva no PT.

Os candidatos a vereador pelo PT em São Paulo são considerados o bastião de Tatto. "Os vereadores com base na periferia estamos puxando essa campanha. Somos disciplinados e não abandonamos nosso candidato no meio do caminho. Vamos até o fim! Não dá pra pregar voto útil antes da hora", diz o vereador Alfredinho, que concorre a um novo mandato na Câmara de Vereadores.

Entre a população de renda mais baixa, o desempenho de Tatto melhora um pouco — 7%, no Datafolha de 11 de novembro. Esse desempenho fez Tatto ser pressionado para desistir da candidatura e apoiar Boulos, já que o candidato do PSOL tem dificuldade de crescimento na periferia.

"No fundão do Grajaú, no Cocaia, M'Boi Mirim você não escuta nada disso [de voto útil]. Não vê nem o nome do Boulos ser citado. Quando vê alguma coisa, é um professor", diz Alfredinho. Por outro lado, as carreatas do PT na periferia também não entusiasmaram.

"Se eu começasse a pedir voto para o Boulos na periferia, é lógico que daria resultado. Mas, na minha visão, é muito errado. O candidato do PT não pode pregar isso"

Tarso Genro em 1988 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tarso Genro e Olívio Dutra em campanha na eleição para prefeito de Porto Alegre em 1988, uma das primeira vitórias do PT em nível nacional
Imagem: Arquivo pessoal

Frente de esquerda

Em uma reunião de diretores regionais do PT em 2019, Eduardo Suplicy propôs que o nome do candidato a prefeito em São Paulo fosse escolhido em conjunto com outros partidos de esquerda. "Mas o Jilmar Tatto insistiu que o PT precisaria ter candidatura própria e teve mais mãos levantadas para a proposta dele do que para a minha", lembra Suplicy.

Outro membro do PT paulista que não quis se identificar atribui a culpa pela não adesão a essa frente às duas partes, petistas e psolistas —graças, segundo ele, a uma posição sectária da esquerda.

Se por um lado o nome de Boulos enfrentou resistência do PT paulista, por outro, contou com a ajuda de uma articulação petista de peso nacional. "Houve um esforço muito grande de setores do partido para apoiar o Boulos. Eu já vinha conversando com Boulos há mais ou menos dois anos sobre essa situação", diz Tarso Genro, hoje engajado na candidatura de Manuela D'Ávila, do PCdoB, que lidera a disputa para a Prefeitura de Porto Alegre. O vice de Manuela, o ex-ministro Miguel Rossetto, é do PT.

"Vejo no Boulos uma figura extraordinária, que tem capacidade de dialogar com movimentos sociais, com a intelectualidade, com o centro progressista"

Para Genro, São Paulo não conseguiu construir uma candidatura única da esquerda, como em Porto Alegre, porque "o partido em São Paulo é mais fechado em si mesmo nessa questão da frente [de esquerda]". "Tanto é verdade que os dramas políticos do partido são fortes. Perdemos um dos melhores quadros da política brasileira, a Luiza Erundina. Como o partido pode perder Luiza Erundina?", questiona o ex-presidente do PT. Luiza Erundina foi prefeita de São Paulo pelo PT, saiu do partido, se elegeu deputada federal pelo PSOL e é candidata a vice-prefeita na chapa de Guilherme Boulos.

Uma pessoa que fez parte do alto escalão do governo Lula e que também defende o nome de Boulos diz que o processo decisório atual não deveria ser pautado por questões locais. Para ele, a situação atual do país é "anormal" e exigiria uma maior união das frentes progressistas contra as ações do governo Jair Bolsonaro. O ônus de uma não passagem de Boulos para o segundo turno, por exemplo, seria grande e atribuído ao PT, avalia.

Jilmar Tatto em 2020 - ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO - ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
05 nov. 2020 - Jilmar Tatto (PT) em campanha na Praça Ramos de Azevedo
Imagem: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Renovação

"Faz dez anos que nós discutimos no partido a necessidade do PT, em algum momento, construir alternativas no campo da esquerda fora do PT. Porque os ciclos se encerram. O partido que fica muito cristalizado em torno dos seus nomes passa uma impressão de que quer desenvolver uma política hegemônica", diz Tarso Genro.

A postura de Tarso Genro é vista por setores do PT como indisciplina. O ex-presidente da sigla se defende: "Se fôssemos contabilizar questões como essa como indisciplina punível no partido, o PT ia terminar. O partido não é de direção centralizada, de natureza leninista, que aplica norma e quem não segue é punido".

O núcleo paulista do PT não vê da mesma forma. Um dos membros da campanha de Jilmar Tatto, além de tratar com desdém a postura de Tarso Genro e Celso Amorim, chamou de "picaretas" os candidatos a vereador do PT em São Paulo que, antes da escolha de Tatto, apoiaram o nome de Boulos. Sugeriu ainda que eles podem ser multados pela Justiça Eleitoral se um "espírito de porco" resolver denunciar.