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Opinião: Bento 16 mais polarizou do que uniu os católicos de seu país

Peter Wensierski

Da Der Spiegel

12/02/2013 06h00

A Alemanha celebrou quando Joseph Ratzinger foi escolhido como papa em 2005. Oito anos depois, entretanto, muitos estão felizes com sua partida. Ele foi uma figura profundamente polarizadora em seu país natal e impediu a Igreja Católica de promover uma renovação altamente necessária.

Desde sua nomeação, em abril de 2005, Bento 16 tem sido uma figura divisora. A euforia em torno da eleição de um papa bávaro, que inicialmente varreu a Alemanha, há muito passou. Com todo o devido respeito ao primeiro papa a renunciar voluntariamente em centenas de anos: nos oito anos em que exerceu o papado, o papa mais polarizou do que uniu os católicos de seu país natal.

Bento 16 nunca conseguiu ir além de sua imagem anterior, a do professor conservador de teologia Joseph Ratzinger. O papa não construiu pontes como um Sumo Pontífice deveria.

Aqui na Alemanha, sua eleição levou a uma crescente divisão dentro da Igreja. De um lado estão os defensores decepcionados da reforma que já deveria ter ocorrido há muito tempo. Do outro estão os fundamentalistas, os defensores da tradição e autonomeados guardiões da fé, que gostariam de voltar o relógio para antes do Concílio Vaticano Segundo e buscam salvação na Igreja autoritária e hierárquica do passado.

Confiança perdida

Alguns na Alemanha já falam em cisma dentro da Conferência dos Bispos. Durante seus anos no cargo, o papa Bento 16 fortaleceu a ala reacionária da comunidade católica, com seus subgrupos frequentemente obscuros, ainda mais do que seu antecessor --seja por meio de sua aproximação dos ultraconservadores Irmãos Pios, por sua repreensão aos teólogos renegados ou por seu apreço pela missa tradicional.

Seus esforços para tratar dos escândalos de abuso que abalaram a Igreja Católica por todo o mundo foram muito pequenos, tarde demais. Nem nos Estados Unidos, Irlanda e nem na Alemanha ele e seus bispos conseguiram recuperar a confiança perdida.

Sob um papa alemão, a reputação da igreja na Alemanha atingiu seu ponto mais baixo no início de 2013. Segundo um estudo conduzido pelo Instituto Sinus, até mesmo os católicos mais leais não confiam em seus próprios bispos. Antes saudado como sofisticado, o chefe da igreja se transformou em um líder que se arrastou no palco internacional de um acidente infeliz a outro. Até mesmo amigos próximos e ex-colegas disseram que um homem como Joseph Ratzinger não é talhado para chefiar uma comunidade de um bilhão de pessoas.

Para os católicos na Alemanha que não toleram as críticas ao curso traçado por Bento 16, o papa foi um aliado poderoso. Aqueles que testaram secretamente o cumprimento da liturgia oficial pelos hospitais católicos, aqueles que gravaram clandestinamente os sermões de padres na Alemanha para denunciá-los, aqueles que buscavam caluniar um professor de teologia em Roma --esses autoproclamados guardiões da fé sempre enviaram suas denúncias diretamente a Bento 16 e seu secretário, Georg Gänswein. Eles sabiam que as consequências para os acusados de atos impróprios seriam imediatas.

Reembaralhando as cartas

A renúncia de Bento 16, entretanto, agora reembaralha as cartas.

As estruturas de poder podem mudar como resultado, mesmo que ligeiramente, quando um novo papa, possivelmente um de outro continente, abençoe o mundo da Basílica de São Pedro nesta Páscoa. É uma perspectiva que enche muitos católicos na Alemanha de esperança, outros de medo.

Mas o papa deu passos para assegurar que seu legado político permanecerá em Roma --particularmente por meio da nomeação do ex-arcebispo de Regensburg, Gerhard Ludwig Müller. Como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, Müller é garantia rude de ortodoxia rígida nas posições centrais do Vaticano. E há pouco tempo, Bento 16 elevou seu secretário particular, Georg Gänswein, ao status de bispo. O elegante Gänswein, que já foi capa da edição italiana da “Vanity Fair”, é considerado como candidato a liderar um bispado na Alemanha --possivelmente como sucessor do cardeal Joachim Meisner, o poderoso líder conservador da diocese de Colônia.

Com todo respeito à decisão surpreendente tomada por um senhor enfermo e fraco de 85 anos, muitos na Alemanha há muito ansiavam pelo fim da era Ratzinger, independentemente de quem venha a sucedê-lo. Ainda não se sabe se os bispos alemães terão mais confiança do que antes para seguir uma trilha mais independente. Mas certamente haverá mais espaço para tomada de risco.

De fato, a renúncia de Bento 16 oferece à Igreja Católica na Alemanha uma nova chance de se libertar do torpor criado por este papa paternalista e, talvez, finalmente encontrar uma forma de começar a resolver a crise profunda enfrentada pelos católicos alemães.

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