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Renúncia de Bento 16 pode levar Igreja Católica a repensar seu papel na sociedade, dizem especialistas

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília*

12/02/2013 07h30

Especialistas consultados pelo UOL avaliaram que a renúncia do papa Bento 16, comunicada nesta segunda-feira (11), pode ser um momento importante para a Igreja Católica rever o modelo atual de como lidar com as questões de interesse da sociedade e até o próprio papel dela como instituição.

O professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rafael Rodrigues da Silva afirmou que os últimos dois papas, João Paulo 2º e Bento 16, se afastaram da postura do pontífice que se posiciona em relação aos temas sociais, políticos e econômicos mundiais. Para ele, a alteração no comando do Vaticano poderia, justamente, representar uma mudança de postura.

"Seria o momento de a igreja repensar e colocar na linha de frente um colégio de cardeais que possa pensar em levar adiante o processo de diálogo, que caminha mais para o pluralismo religioso do que para o conservadorismo", avaliou Silva, que é especialista em ciências da religião.

Silva destaca que "nunca será possível" saber as reais motivações da renúncia de Joseph Ratzinger ao cargo, mas, seja por pressões internas ou por problemas de saúde, a decisão não foi tomada do "dia para noite".

"Você tem um grande conjunto de grupos, movimentos e disputas internas de poder. E, além da força dos grupos conservadores e moderados, há os casos de pedofilia. E a grande dificuldade de responder, como grande líder, a isso tudo pode estar na raiz do próprio exercício de poder de Bento 16", completou o professor.

Na avaliação de Silva, a exemplo de como eram os documentos papais das décadas de 1960 e 1970, o próximo pontífice pode ser mais ativo nas manifestações cotidianas.  "No seu pontificado, ele [Bento 16] trouxe a discussão os elementos mais teológicos. Agora, o novo papa vai ficar marcado pelas correlações de forças e poderá dar um grande passo: voltar a abrir o Vaticano para a sociedade, dar voz ao que não têm, interferir, lutar contra a tortura, contra as ações militares", completou o professor.

Para o frade dominicano e escritor Frei Betto, a eleição do novo papa fará os cardeais refletirem sobre o futuro da igreja. "Os cardeais que vão eleger o novo papa devem pesar bastante o que significou Bento 16 em termos de impacto na igreja e que indiquem alguém que venha implementar as questões do Concílio Vaticano 2º, que tomou uma série de decisões de renovações da igreja, que não foram implementadas por João Paulo 2º nem por Bento 16. Espero que o próximo papa consiga fazer isso", afirmou.

O Concílio Vaticano 2º foi uma série de conferências realizadas na década de 1960 que resultaram em documentos que tratavam da abertura da igreja sobre vários aspectos como: doutrina social, a interpretação da Bíblia, a mudança na liturgia --as missas passaram a ser celebradas na língua dos locais onde estavam as igrejas (antes eram em latim), a relação com as outras religiões, entre outros assuntos.

"Neste momento, seria o ideal que o novo pontificado busque retomar aquilo que foi o princípio do Concílio Vaticano 2º, uma nova discussão sobre a colegialidade (...). No Concílio, o ponto de partida da igreja era o povo para chegar aos próprios representantes, você tem um novo jeito de ver a igreja”, completou o professor Rafael Rodrigues da Silva.

Marcas do papado de Bento 16 

O especialista em ciências das religiões Mario Sérgio Cortella, professor do doutorado em educação da PUC-SP, destacou que, pela primeira vez, um papa irá participar do seu processo sucessório e que fez um anúncio oficial com antecedência.

“Provavelmente, ele entrará para a história com esta condição: em vez de entrar para a história como o papado que falou tanto de crises internas em relação ao clero, ele vai sair como o homem que foi generoso em relação ao uso do poder. Mesmo que ele não tenha sido isso como intenção, ele assim será lembrado", disse o professor.

Cortella se refere à série de casos de pedofilia que vieram à tona entre os anos de 2009 e 2010, envolvendo padres, cujos casos foram abafados, até então, pela Igreja Católica.

“O que Bento 16 quer é consolidar as estruturas. Renunciar significa preparar a transição sem traumas (...). Ele passou por um momento inédito que deu um nível de transparência maior em relação às ações de dentro do clero. Isso, sem dúvida, balançou parte das estruturas porque, com o aumento da democracia e a velocidade do repasse das informações, o grau de transparência aumentou e trouxe à tona uma série de denúncias que o levaram também a ser atingido como chefe da Igreja [Católica]", continuou Cortella. 

Questionados sobre os possíveis nomes para ocupar o cargo, os especialistas consultados pelo UOL preferiram não opinar e frisaram que os desafios enfrentados por Bento 16 à frente da Igreja Católica passarão para o seu sucessor.

“O diálogo com a cultura pós-moderna e com as demais religiões da Ásia e da África, uma igreja mais missionária e o avanço das igrejas evangélicas são alguns dos grandes temas que serão debatidos pelo próximo papa”, enumerou o arcebispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes.

* Colaborou Fernanda Calgaro

Pontificado de Bento 16
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