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Primavera Árabe se transformou em "inverno prolongado", diz especialista

Débora Melo

Do UOL, em São Paulo

24/12/2013 06h00

Três anos após a morte por autoimolação de um vendedor de verduras tunisiano que desencadeou a onda de revoltas que ficou conhecida como Primavera Árabe, as populações dos países que foram palco de levantes se veem hoje mergulhadas em caos.

O Egito, visto muitas vezes como o responsável por lançar tendências no mundo árabe, assiste à escalada da violência decorrente da polarização entre islamitas e militares após o golpe de julho, que depôs o membro da Irmandade Muçulmana Mohammed Mursi, o primeiro presidente eleito democraticamente no país.

Na Síria, a revolta popular que se transformou em guerra civil já deixou mais de 100 mil mortos desde março de 2011. A oposição, dividida em grupos rivais --inclusive pela chegada de extremistas islâmicos--, encontra cada vez mais dificuldades em atingir o objetivo de derrubar o governo de Bashar al-Assad. Com o país arrasado, o número de refugiados vivendo na miséria só cresce: hoje já são 2,4 milhões de sírios refugiados em vizinhos do Oriente Médio, além dos 4,5 milhões deslocados dentro do próprio país em guerra.

Para Mohamed Habib, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e conselheiro do Instituto de Cultura Árabe, a atual circunstância não permite mais que o movimento seja chamado de Primavera Árabe.

Em dezembro de 2010, o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, em um ato de protesto contra os abusos do governo e as condições de vida no país, o que foi o estopim dos levantes que se seguiram depois no Egito, na Líbia, na Síria e no Iêmen, e também em Bahrein, Marrocos, Argélia, Jordânia e Sudão.

"O termo Primavera Árabe representava um desejo de que todo o Oriente Médio saísse de uma fase escura de povos oprimidos e explorados. Melhorou? Não. É uma deterioração total. Não posso mais chamar de Primavera Árabe. É um 'inverno árabe' prolongado, cheio de tempestades e relâmpagos. Uma panela de pressão. É difícil imaginar uma solução positiva em curto prazo", disse Habib, que é egípcio naturalizado brasileiro e foi pró-reitor e coordenador de Relações Internacionais da Unicamp.

Os conflitos criaram um ambiente propício ao refúgio de extremistas, e a ação crescente de grupos jihadistas em praticamente todos esses países preocupa. No Iêmen, por exemplo, um dos países mais pobres da região, a rede Al Qaeda aproveitou o enfraquecimento do governo após a saída do ditador Ali Abdullah Saleh, em 2012, para fortalecer sua influência.

Na Líbia, a frustração popular cresce com a manutenção do poder das milícias armadas que ajudaram a derrubar o ditador Muammar Gaddafi em 2011. A tensão no país, com episódios em que protestos que pediam a saída das milícias foram reprimidos com violência e mortes, é potencializada por disputas tribais e étnicas.

"Na Líbia temos uma combinação explosiva: grupos radicais e milícias extremamente armadas. É muito difícil ver uma solução. Todos os elementos de caos estão lá", disse Salem Nasser, professor de direito internacional da FGV-SP.

Já o caso da Tunísia talvez seja o "menos traumático", na opinião do professor. "Há um braço de ferro permanente entre islâmicos e seculares, mas o processo ocorre de forma menos traumática. Isso não quer dizer que não seja problemático. Há algum potencial de violência, mas menos que em outros lugares", completou Nasser.

Na Tunísia, o governo religioso eleito enfrenta uma parte da população hostil às tentativas de "islamizar" a sociedade, e grupos radicais já mataram dois opositores. Disputas como as que ocorrem na Tunísia, assim como no Egito, levantam questões sobre a capacidade de islamismo e democracia andarem juntos --o que, para alguns especialistas, denota preconceito em relação ao islã. De acordo com o professor Habib, essa questão envolve a influência do Ocidente, que, assim como alguns governantes do Oriente, nunca aceitaram a chegada dos islâmicos ao poder.

“O Oriente Médio, pela abundância de recursos energéticos e pela posição geográfica privilegiada, sempre despertou interesses. A região não tem autonomia, nenhuma mudança ocorre sem o aval dos EUA”, afirmou Habib.

Já o professor Nasser diz acreditar que, no caso do Egito, os militares que tomaram o poder estão justamente sinalizando um distanciamento em relação ao Ocidente. “Os miliares parecem estar revendo alianças mundiais, estão dando sinais de que não querem ser dependentes dos Estados Unidos”, afirmou.

Algo que ninguém discute, contudo, é que, em todos os países atingidos pelas revoltas, a instabilidade acabou derrubando a economia, gerando desemprego e miséria.

"Com o Egito instável economicamente, a Irmandade Muçulmana toma campo através do assistencialismo aos mais pobres, o que gera uma movimentação política de forma mais contundente. Isso preocupa os militares", afirmou o professor Jorge Mortean, doutorando na USP (Universidade de São Paulo).

Com o 'inverno árabe' ainda longe do fim, a saída para que esses povos possam finalmente desfrutar de uma 'primavera' deverá começar apenas quando as circunstâncias permitirem que os árabes voltem a se organizar politicamente novamente, o que não é simples quando se trata de sociedades arrasadas por décadas de ditaduras e carência democrática.

"A população continua sofrendo da privação política que lhe foi imposta em muito tempo de ditaduras", disse o professor Mortean.

Para Habib, existe um obstáculo ainda maior a ser derrubado: o da possível escalada da opressão. "A tendência agora é o aumento da opressão através de leis, normas, regras. A sociedade está cansada, não tem energia para novos levantes. Não está havendo organização política o suficiente. É preciso retomar, primeiro, a liberdade de opinião", disse.

A crise na Síria em fotos
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Crise no Egito
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