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Interrupção de cessar-fogo deixa mais de 60 palestinos mortos em Gaza

Do UOL, em São Paulo

01/08/2014 08h41Atualizada em 01/08/2014 14h34

Apenas duas horas após o anúncio de um cessar-fogo humanitário na faixa de Gaza, onde o confronto entre o Exército de Israel e o Hamas já provocou mais de 1.500 mortes, novos ataques (e a quebra da trégua) deixaram ao menos 62 palestinos mortos e 350 feridos, segundo o Ministério da Saúde local.

Mapa mostra localização de Israel, Cisjordânia e Gaza - Arte/UOL
Mapa mostra localização de Israel, Cisjordânia e Gaza
Imagem: Arte/UOL

Israel confirmou o rompimento do cessar-fogo durante anúncio feito pelo tenente-coronel Peter Lerner em uma teleconferência com jornalistas. O militar falou sobre o possível sequestro de um soldado israelense durante operações para desativar um túnel do Hamas, quando as forças de Israel teriam sido atacadas inclusive por um homem-bomba, na região sul da faixa.

As operações para a identificação de túneis estariam autorizadas durante as 72 horas de trégua, mas os soldados teriam sido surpreendidos por militantes do Hamas. De acordo com o Exército, os homens do Hamas surgiram de um túnel escondido, e um deles detonou um cinto com explosivos, preso ao seu corpo.  

"Indicações iniciais sugerem que um soldado foi raptado por terroristas em um incidente em que terroristas violaram o cessar-fogo", disse o porta-voz do Exército israelense. Perguntado se isso representava o fim da trégua, ele respondeu: "Sim. Nós continuamos com nossas atividades em terra". As operações de Israel passam a incluir agora a busca pelo militar desaparecido.

De acordo com a Israel Radio, o segundo-tenente Hadar Goldin, 23, de Kfar Saba, é o soldado raptado, informação confirmada pelo Twitter do IDF (Forças de Defesa de Israel, em inglês). O rapaz teria sido capturado em Rafah, no sul da faixa de Gaza.

O Hamas ainda não confirma o rapto, afirma que o incidente ocorreu antes do cessar-fogo e devolve para Israel a acusação de violação da pausa humanitária. Segundo o movimento islâmico radical, Israel se aproveitou da situação para romper a trégua, com ataques de artilharia na região sul da faixa de Gaza.

"A ocupação [Israel] violou o cessar-fogo. A resistência palestina agiu em nome de seu direito a se defender [e] para colocar fim ao massacre de nosso povo", declarou em um comunicado o porta-voz do Hamas, Fawzi Barhum.

A ONU disse que dois soldados israelenses teriam sido mortos possivelmente durante o mesmo embate que resultou no sequestro. A organização afirmou que foi informada por Israel de "um sério incidente na manhã de hoje após o começo do cessar-fogo humanitário às 8h [2h em Brasília], envolvendo um túnel atrás das linhas do IDF na área de Rafah".

Robert Serry, enviado da ONU ao Oriente Médio, declarou que, "se os fatos forem confirmados, se trata de uma séria violação do cessar-fogo humanitário da parte de facções palestinas e será preciso uma condenação em termos fortes".  

Em 25 dias de ofensiva, o número de mortos ultrapassou 1.500, segundo o Ministério da Saúde em Gaza, entre eles pelo menos 251 crianças, e os feridos chegam a 8.000. Do lado israelense, são 63 soldados mortos e três civis.

 
O Egito, país mediador do conflito, informou hoje às autoridades palestinas que estava adiando as negociações previstas para ocorrer na cidade do Cairo, após Israel divulgar o possível sequestro, afirmou um integrante da Jihad Islâmica.
 
"Os egípcios contactaram a Jihad Islâmica e disseram que Israel lhes informou sobre a captura de um soldado", disse Ziad al-Najal à AFP. "As negociações foram adiadas", afirmou.
 

A trégua, que deveria durar 72 horas, havia sido anunciada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, e pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e foi avaliada como a tentativa mais ambiciosa até então de encerrar as mais de três semanas de combate.

 

Estavam previstas negociações entre representantes israelenses e palestinos no Cairo para uma solução de longo prazo, mas ainda não se sabe quando elas poderão ser realizadas, diante da interrupção do cessar-fogo.

 

Uma delegação palestina irá amanhã (2) ao Cairo para discutir com os mediadores egípcios, conforme comunicado de hoje do gabinete do presidente palestino, Mahmud Abbas.

 

Abbas "formou a delegação, que irá no sábado ao Cairo, independentemente das circunstâncias", diz a nota emitida em Ramallah (Cisjordânia), que indica os nomes dos 12 integrantes da comitiva palestina, entre os quais estão representantes do Fatah (o movimento de Abbas), do Hamas (que controla a faixa de Gaza e combate o Estado de Israel) e de seus aliados da Jihad Islâmica. (Com agências internacionais)

Conheça os pontos da negociação entre Israel e palestinos

  • Reprodução/BBC

    Estado palestino

    Os palestinos querem um Estado plenamente soberano e independente na Cisjordânia e na faixa de Gaza, com a capital em Jerusalém Oriental. Israel quer um Estado palestino desmilitarizado, presença militar no Vale da Cisjordânia da Jordânia e manutenção do controle de seu espaço aéreo e das fronteiras exteriores

  • Mohamad Torokman/Reuters

    Fronteiras e assentamentos judeus

    Os palestinos querem que Israel saia dos territórios que ocupou após a Guerra dos Seis Dias (1967) e desmantele por completo os assentamentos judeus que avançam a fronteira, considerados ilegais pela ONU. Qualquer área dada a Israel seria recompensada. Israel descarta voltar às fronteiras anteriores a 1967, mas aceita deixar partes da Cisjordânia se puder anexar os maiores assentamentos.

  • Cindy Wilk/UOL

    Jerusalém

    Israel anexou a área árabe da Jordânia após 1967 e não aceita a dividir Jerusalém por considerar o local o centro político e religioso da população judia. Já os palestinos querem o leste de Jerusalém como capital do futuro Estado da Palestina. O leste de Jerusalém é considerado um dos lugares sagrados do Islã. A comunidade não reconhece a anexação feita por Israel.

  • Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos

    Refugiados

    Há cerca de 5 milhões de refugiados palestinos, a maioria deles descendentes dos 760 mil palestinos que foram expulsos de suas terras na criação do Estado de Israel, em 1948. Os palestinos exigem que Israel reconheça seu "direito ao retorno", o que Israel rejeita por temer a destruição do Estado de Israel pela demografia. Já Israel quer que os palestinos reconheçam seu Estado.

  • Mahfouz Abu / EFE

    Segurança

    Israel teme que um Estado palestino caia nas mãos do grupo extremista Hamas e seja usado para atacar os judeus. Por isso, insiste em manter medidas de segurança no vale do rio Jordão e pedem que o Estado palestino seja amplamente desmilitarizado. Já os palestinos querem que seu Estado tenha o máximo de atributos de um Estado comum.

  • Abbas Momani/AFP

    Água

    Israel controla a maioria das fontes subterrâneas da Cisjordânia. Os palestinos querem uma distribuição mais igualitária do recurso.

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