Brasileiros ilegais desafiam Trump e ignoram ameaça de deportação dos EUA

Talita Marchao e Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Jeff Roberson/AP

Apesar das promessas de campanha do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, de deportar milhões de imigrantes ilegais em seu governo, muitos brasileiros que vivem no país de forma irregular não pensam em desistir do "sonho americano". Tanto os que vivem há muitos anos quando os que chegaram há poucos meses planejam manter suas rotinas e aguardar pelos próximos passos de Trump.

Entre os brasileiros indocumentados ouvidos pelo UOL -- a maioria dos nomes foi trocado para preservar as identidades dos entrevistados-- o presidente republicano não deve cumprir o prometido, e muitos lembram que o próprio Trump já começou a amenizar o seu discurso dias após a vitória sobre Hillary Clinton.

Entre as apostas de quem decidiu arriscar a permanência nos EUA, muitos avaliam que o eleito pode até legalizar os que não são "maus imigrantes", como Trump se refere aos ilegais envolvidos com o crime.

"Quando os indocumentados me perguntam o que penso que pode acontecer, digo que está muito cedo para fazer qualquer julgamento", diz Solange Paizante, coordenadora da ONU Mantena Global Care, que atende imigrantes legais e ilegais latinos.

"Toda mudança causa insegurança, é natural temer o desconhecido. E é necessário ter fé e esperança, acreditar que somos mais do que corajosos, deixamos nossa pátria, família e amigos", afirma. "Podemos ter surpresas agradáveis. Lembre-se de que a grande anistia em 1986 foi feita por um republicano."

Veja alguns depoimentos de brasileiros vivendo de forma ilegal nos EUA:

Não penso em tentar a legalização. Hoje é dinheiro jogado fora"

Joana, 45 anos, vive em Nova York

Cheguei aos EUA há nove anos e entrei pela porta da frente, com visto de turista. Vim em busca de uma vida melhor e não me arrependo de estar aqui ilegalmente. Meu marido veio primeiro, está aqui há 11 anos. Trabalhou muitos anos na construção, e o patrão dele era um policial. Hoje ele é pintor. Quando cheguei, não tinha trabalho. Fiquei muito tempo como ajudante de empregada doméstica. Hoje tenho tudo o que queria: minha casa e meu próprio trabalho. Sou eu quem leva a ajudante quando é preciso.

Não precisaria pagar os meus impostos aqui. Mas faço questão. A minha família toda paga porque acha que o país é mais do que merecedor de receber a nossa contribuição. É uma gratificação que faço por estar aqui, ter sido acolhida e recebida.

Tivemos uma surpresa muito grande com a vitória de Donald Trump, ninguém esperava. Daqui para frente, a gente deve ficar preparado para novas surpresas. E penso que ele não vai ficar no meio termo, em cima do muro. Ele pode mandar todo mundo embora logo de uma vez ou legalizar os imigrantes que trabalham aqui. Pode ser também que ele faça uma reciclagem, escolhendo quem fica e quem vai embora.

Nós vamos levando até onde der para levar. E na hora em que não der mais, é só agradecer a Deus pelo tempo que ficamos aqui, arrumar a nossa mala e ir embora para Minas Gerais, onde nossa família vive.

Sabe como me sinto? Como um passarinho preso na gaiola, e tenho pavor de ter passarinho preso na gaiola. Posso andar somente neste território, aqui tenho tudo de que preciso. Mas é dentro de uma gaiola.

Se o Trump é tão bom administrador, o óbvio seria legalizar imigrantes que vivem como eu, de forma lucrativa para o país"
Jackie, 32 anos, vive em Boston

Vivo nos EUA há 1 ano e meio. É a segunda vez que moro nos EUA, mas da primeira vez estive aqui legalmente, como au pair, por dois anos. Voltei para o Brasil quando o meu namorado na época, um brasileiro, foi deportado. Voltei como turista e, como já tinha vivido aqui antes de forma legal, tinha documentos como a carteira de motorista, isso facilitou a minha vida aqui hoje. Trabalho como auxiliar de escritório durante o dia e como garçonete de um restaurante à noite.

Como falo inglês fluente, digo que sou americana quando me perguntam algo e dificilmente sou questionada. Entre os americanos que conheço, somente duas pessoas sabem que estou aqui ilegalmente. Pago impostos, tento levar a minha vida da forma mais correta possível.

Quando comecei a ver o crescimento do Trump nas pesquisas, me assustei. Mas não pelo fato de estar aqui ilegalmente, mas por ver que ele é uma pessoa que não tem respeito nenhum pelo ser humano, por mulheres, pela causa LGBT, por deficientes, E não é bom nem como administrador, porque já abriu falência várias vezes para não pagar fornecedores. Não se sabe o que esperar, e o discurso dele mudou bastante desde que foi eleito. Aquilo era um personagem ou uma jogada de marketing usada para ser eleito?

Trump diz que vai deportar 3 milhões de imigrantes sem documentos

Se o Trump é realmente tão bom administrador quanto diz, o mais óbvio seria legalizar os imigrantes que estão aqui como eu, de forma lucrativa para o país. É possível que ele endureça as leis imigratórias, mas tire os que vivem aqui e não pagam impostos e sugam o governo, porque viver assim realmente quebra a economia do país. Eles não ajudam e consomem o que o país tem de bom a oferecer. Isso não está certo.

A única forma que teria para legalizar o meu status nos EUA seria o casamento, e eu não pagaria a um americano para me casar. Quero fazer as coisas certas. Meu plano é continuar juntando dinheiro aqui e observar o que o Trump vai fazer, se ele vai começar a levar o país para uma economia mais fechada, apertar o cerco aos ilegais. Neste caso, mandaria meu dinheiro para o Brasil e esperaria para ver o que acontece.

Mas não consigo ter medo agora. Não sei o que vai acontecer e não tenho medo do desconhecido.

Se for deportado, o que é um risco, em duas semanas estarei em outro avião para qualquer lugar do mundo"
Gustavo, 24 anos, vive em Worcester (Massachusetts)

Moro nos EUA há dois anos, e estou há seis meses de forma ilegal. Consegui renovar o meu visto de turista duas vezes, o que é incomum. No Brasil, era dono de duas lojas em Belo Horizonte. Mas fui assaltado tantas vezes --uma delas na frente de um batalhão policial-- que decidi vir para os EUA por segurança. Se não me sinto seguro no meu país, o que estou fazendo nele?

Aqui trabalho durante a noite como entregador de pizza de noite e na construção de telhados durante o dia. De microempresário passei para o famoso subemprego. Financeiramente pode não valer tanto a pena, mas vale em questão de segurança.

O americano é muito acolhedor. Mas já vivenciei agressões duas vezes. Em uma delas, ao entregar uma pizza a uma família negra, eles não aceitaram recebê-la das minhas mãos pelo fato de eu ser branco. Fiquei muito assustado na hora.

Na outra vez, também entregando uma pizza, o homem que fez o pedido perguntou de onde eu era, por causa do meu sotaque. Disse que era do Brasil e ele respondeu: "É por isso que quero que o Trump ganhe. Assim você volta para o seu país. Aqui eu quero uma nação que só fala inglês."

brasileiros ilegais temem deportação

Os EUA são um país que acaba de sair de uma grande crise econômica. Mas se o Trump fizer o que ele prometeu, este país entra de novo em uma grande recessão econômica. A vitória dele não me assusta, porque o próprio Trump já está desconversando boa parte das coisas que falou que iria fazer. Muita gente fala de uma possível anistia, de legalizar o imigrante não-criminoso para depois começar uma deportação em massa. Mas isso é surreal. Acho que a vida aqui vai continuar a mesma coisa.

Aqui pago imposto, tenho conta bancária, financiamento. Tenho carteira de motorista emitida na Califórnia e meu carro, ano 2016, tem a placa do mesmo Estado. Se a polícia me parar em Massachusetts, onde vivo, dou aquele jeitinho brasileiro e digo que estou só passeando.

Se você não tem crime nos EUA, não tem motivo para ter medo de ser deportado. As pessoas pensam que ele vai mandar todo mundo embora, que tudo está perdido. E não é bem assim. Apesar de você estar indocumentado, um processo de deportação é muito complexo e demorado.

Se puder, fico nos EUA até eles me tirarem. Só volto para visitar o Brasil quando o próprio Donald legalizar a gente"
Filipe, 23 anos, vive em Washington D.C.

Minha mulher e eu viemos para os EUA com visto de turista há um ano. Trabalho como carpinteiro, e ela, como empregada doméstica. Durante a noite, ainda sou motorista em um serviço que funciona como o Uber no Brasil. Sempre tive o sonho de morar nos EUA. Decidimos tentar a vida nos EUA e, sinceramente, não penso mais em voltar para o Brasil. A Rafaela tem 25 anos e estamos esperando o nosso primeiro filho. Só saio daqui se me mandarem embora.

Acompanhamos a eleição durante a madrugada. Não fiquei preocupado, mas fiquei surpreendido. Creio que quem me botou aqui nos EUA foi Deus. A gente trabalha, estuda inglês, paga nossos impostos corretamente, mesmo perdendo muito do que a gente ganha. Mas é o certo.

O que começamos a ouvir por aqui depois da eleição é que já estão de olho nas pessoas que entraram pelo México e em quem já tem o pedido de deportação. Na entrevista que o Trump deu recentemente, ele disse quer deportar entre 2 e 3 milhões de imigrantes ilegais, que seriam "mau caráter". Mas se a gente colocar na ponta do lápis, o presidente Obama foi um dos que mais deportou.

Mandel Ngan/AFP

Trump é um cara muito esperto, um homem de negócios. Se ele quer mandar o "mau imigrante" embora, ele vai ter de fazer alguma coisa com o restante dos imigrantes que estão aqui ilegalmente. Seja dar uma permissão de trabalho ou realmente legalizar todo mundo, obrigar todo mundo a pagar imposto. Se são 11 milhões de ilegais e ele planeja expulsar 2 ou 3 milhões, sobram pelo menos 7 milhões de pessoas.

A gente não tem motivo para ficar com medo. Estou aqui para trabalhar e, se um dia eu tiver que ir embora, não voltaria para o Brasil. Iria para algum outro país. Não temos nenhum plano. Nosso plano é confiar em Deus. O que a gente pode fazer, estamos fazendo, que é trabalhar, pagar as contas, não tenho nem multa de trânsito. Se um dia abrir alguma lei para legalização dos imigrantes, que Deus nos ajude a conseguir.

Sempre tem trabalho para imigrantes com visto vencido e para os ilegais que entraram pela fronteira

Celso, 36 anos, vive em Orlando

No Brasil, eu era gerente de uma multinacional de telecomunicações no RJ, e minha mulher era comissária de bordo. Decidimos viver nos EUA com a nossa filha de quatro anos por causa da crise financeira e da violência --nossa casa foi assaltada duas vezes, e nossa filha tinha medo de brincar na rua, só falava do bandido.

Embarcamos há seis meses com o visto de turista e conseguimos estendê-lo, então não estamos dentro do território americano de forma ilegal. O problema é que o visto não me permite trabalhar, mas é o jeito que a gente dá. E com o visto de turismo e negócios é possível abrir uma empresa --como eu abri. Eu só não poderia trabalhar nesta empresa.

Aqui trabalho com delivery de serviços de mecânica, já que mexer em carros era um hobby. Até consegui um emprego na área de telecomunicações, mas financeiramente não valeu a pena. Nos EUA, essa área de mecânica é muito rentável, e trabalhar por conta própria também me dá uma disponibilidade de horário.

Sou totalmente a favor de expulsar quem entra pela fronteira sem identificação nenhuma, que é o que o Trump quer combater. Esse ilegal vive como um fantasma, você não sabe quem ele é realmente, não existe nenhuma comprovação de nada. Mas não de quem entra nos EUA com algum tipo de visto, passa pela imigração, e depois fica fora de status, como acontece com turistas, estudantes.

Obama e Trump dão início à transição nos EUA

A maioria dos brasileiros que estão aqui há muito tempo, há dez ou quinze anos, apoia o governo do Trump. Na visão deles, um governo democrata, como foi com Bill Clinton ou Barack Obama, não adota tantas medidas para beneficiar os imigrantes. As melhores ações foram feitas em governos republicanos. E a maioria aqui sabe que tudo o que o Trump disse sobre deportar milhões de imigrantes e construir o muro na fronteira com o México foi uma jogada de marketing para arrebatar os votos do americano fiel, nacionalista e que já estava cansado dos democratas.

O que ele quer fazer e é muito apoiado pela comunidade brasileira é botar para fora o imigrante marginal.

Não penso em voltar a viver no Brasil. Sofri demais na minha infância

Andreia, 25 anos, vive em Danbury (Connecticut)

Moro nos EUA há mais de dez anos. Vim para cá ainda adolescente com a ajuda do namorado que tinha na época, que era mais velho. Fui com documentos falsos conseguidos em uma agência do centro de São Paulo. Era um visto falso de estudante, e eu era mais velha nestes documentos. 

Trabalho desde que cheguei na limpeza de casas. Hoje tenho meu próprio trabalho, e contrato uma hispânica para me ajudar. Gosto muito do meu trabalho. No começo, era muito pesado. Eu nunca tinha trabalhado no Brasil, não estava acostumada com o ritmo.

Vivo aqui com o meu marido, mas ainda não somos casados legalmente. Ele também é brasileiro, trabalha como pedreiro, e entrou nos EUA há 17 anos pela fronteira do México. Nos conhecemos em uma festa. Temos dois filhos. O mais velho, do meu primeiro casamento, tem nove anos. O caçula, desta relação com ele, tem dois anos e meio. 

Obama espera que Trump respeite tratados internacionais

Não penso em viver no Brasil. Não quero ser mandada embora dos EUA principalmente por causa da vida que eu tinha em São Paulo. Na infância, fui vítima de abuso sexual. 

Estou tentando legalizar os meus documentos aqui com o apoio de um centro de apoio à mulher, que procurei quando fui vítima de maus tratos ainda no meu primeiro casamento. Lá, elas me ajudaram a conseguir o divórcio, a guarda do menino e estão me orientando a dar entrada no pedido de legalização. Se o Trump fizer tudo o que ele promete, isso certamente atrapalhará o meu plano de conseguir a documentação.

O problema é que, mesmo que eu consiga a legalização, o meu marido nunca poderá dar entrada nos papéis por ter entrado pelo México. Na minha opinião, uma pessoa que entrou pelo México não fez a coisa tão errada como eu fiz quando entrei nos EUA como documentos falsos. Foi um jeito muito errado. Para os EUA, cometi um crime, foi totalmente mentiroso. Naqueles anos, muita gente entrava nos EUA dessa forma. E eu não tinha muita noção do que estava fazendo.

Minha família não tem mais planos aqui. Decidimos esperar ele assumir o cargo antes de fazer qualquer coisa. Meu marido queria comprar uma casa, já que moramos de aluguel, mas preferimos não investir aqui por enquanto.

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