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Congolês e iraquiana ganham o Nobel da Paz pela luta contra a violência sexual como arma de guerra

Frederick Florin/AFP
Denis Mukwege e Nadia Murad dividem o prêmio Nobel da Paz deste ano Imagem: Frederick Florin/AFP

Do UOL, em São Paulo

05/10/2018 06h05

O médico congolês Denis Mukwege, 63, e a iraquiana Nadia Murad, 25, levaram o Nobel da Paz deste ano por seus esforços para acabar com o "uso da violência sexual como uma arma de guerra e conflito armado", anunciou o comitê do prêmio, em Oslo, nesta sexta-feira (5).

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Ao justificar o prêmio deste ano, o Nobel ressaltou o trabalho do médico Denis Mukwege, que dedica parte de sua vida ajudando vítimas de violência sexual em seu país, na República Democrática do Congo. O ginecologista é fundador do hospital Panzi, que atende crianças e mulheres vítimas de abusos na África.

Segundo o comitê, Mukwege repetidamente condenou a impunidade a estupros em massa e criticou o governo congolês e de outros países por não fazerem o suficiente para acabar com a violência contra as mulheres.

A importância do trabalho de Mukwege já tinha sido reconhecida, em 2014, pelo Parlamento Europeu, que concedeu a ele o prêmio Sakharov por sua luta a favor das mulheres vítimas de violência sexual.

Denis Mukwege e Nadia Murad arriscaram ambos pessoalmente suas vidas lutando corajosamente contra os crimes de guerra e pedindo justiça para as vítimas
Presidente do Comitê do Nobel, Berit Reiss-Andersen

A ativista dos direitos humanos Nadia Murad, ela mesma uma vítima de violência sexual, é descrita como alguém que mostra "coragem incomum" ao contar sua própria experiência e como porta-voz de outras vítimas. Nadia é uma das milhares de vítimas dos abusos cometidos pelo Estado Islâmico no Iraque.

O comitê afirma que os estupros são usados pelo grupo como arma de guerra contra minorias religiosas, como as do yazidi, da qual Nadia faz parte. Os yazidi são uma minoria curda, que ocupa regiões atacadas pelo Estado Islâmico e foi alvo do grupo.

L'Osservatore Romano/Pool Photo via AP
Em 2017, Nadia se encontrou com o papa Francisco no Vaticano Imagem: L'Osservatore Romano/Pool Photo via AP

Nadia foi raptada com duas irmãs da vila de Kocho, no norte do Iraque, no dia 3 de agosto de 2014. Ela viu os jihadistas matarem sua mãe e seus seis irmãos, todos da minoria muçulmana yazidi. Da vila, foi levada com as irmãs para Mosul e sofreu uma série de abusos - físicos, sexuais e psicológicos - e foi vendida como escrava na cidade. Depois de três meses, ela conseguiu fugir do Iraque com a ajuda de observadores.

Ela conta o que viveu em sua autobiografia "The Last Girl" (A Última Garota), que teve o prefácio escrito por Amal Clooney, advogada de direitos humanos que a representa.

No ano passado, ela se encontrou com o papa Francisco. De acordo com o jornal católico "L'Osservatore Romano", Nadia quis encontrar com o líder católico por seu forte discurso contrário ao tráfico de pessoas e suas preocupações com os povos perseguidos pelo terrorismo.

Em 2016, Nadia foi nomeada Embaixadora da Boa Vontade para a dignidade dos sobreviventes do tráfico humano do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Reprodução/Nobel
Anúncio do prêmio feito pelo Comitê do Nobel Imagem: Reprodução/Nobel

Na época, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, celebrou a indicação dizendo que ela é "uma protetora feroz e incansável da comunidade yazidi e das vítimas de tráfico de seres humanos em todo o mundo". E acrescentou: "Ela foi submetida a violações de direitos humanos e a abusos indizíveis. Nadia mostrou excepcional coragem em se pronunciar. Ela dá uma voz muito necessária às vítimas de tráfico que continuam sofrendo, e que exigem justiça".

Ambos dividirão também um prêmio em dinheiro, no valor de 9 milhões de coroas suecas, que corresponde a cerca de R$ 3,9 milhões.

No ano passado, o prêmio foi atribuído à Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN) por sua contribuição à aprovação de um tratado histórico de proibição de armas atômicas

Violência sexual no centro da discussão

O prêmio também é significativo porque é entregue em um momento em que a Academia Real Sueca de Ciências se vê envolvida em um escândalo de abuso sexual e que teve como consequência o adiamento da entrega do Nobel de Literatura.

O artista Jean-Claude Arnault, que tinha estreita ligação com a Academia e é marido de uma ex-integrante do conselho da entidade, Katarina Frostenson, foi acusado e condenado a dois anos de prisão pelo estupro de uma jovem. As denúncias geraram uma crise na entidade e vários membros do conselho da Academia, incluindo Katarina, renunciaram.

Como o prêmio de Literatura não será entregue neste ano, a Academia anunciou, em maio, que serão concedidos dois prêmios nesta categoria em 2019.

Demais prêmios

O prêmio de Medicina abriu a semana do Nobel em 2018 com a vitória do americano James Allison e do japonês Tasuku Honjo por trabalhos sobre a capacidade de defesa do corpo em relação a casos de câncer agressivos, como o de pulmão ou o melanoma.

Na terça-feira, a canadense Donna Strickland se tornou a terceira mulher a vencer o Nobel de Física. Ela compartilhou o prêmio com outros dois cientistas, o francês Gérard Mourou e o americano Arthur Ashkin. Os estudos do trio revolucionaram o conhecimento sobre a física do laser e permitiram o desenvolvimento de ferramentas utilizadas na indústria e na medicina.

Na quarta-feira, os americanos Frances H. Arnold e George P. Smith e o britânico Gregory P. Winter foram agraciados com o Nobel de Química pela aplicação dos princípios da evolução no desenvolvimento de proteínas que podem ser usadas na produção de compostos que vão de biocombustíveis a medicamentos.

Na próxima segunda (8) será anunciado o vencedor do Nobel de Economia.

Os vencedores receberão seus prêmios no dia 10 de dezembro, aniversário da morte do idealizador da premiação, Alfred Nobel (1833-1896).