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G20 deu o apoio que buscávamos à reforma da OMC, diz diretor brasileiro

Roberto Azevêdo cumprimenta o presidente argentino Mauricio Macri na Cúpula do G20 em Buenos Aires - Ludovic Marin (AFP)
Roberto Azevêdo cumprimenta o presidente argentino Mauricio Macri na Cúpula do G20 em Buenos Aires Imagem: Ludovic Marin (AFP)

Talita Marchao

Do UOL, em Buenos Aires

01/12/2018 19h47

O diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), o brasileiro Roberto Azevêdo, comemorou o fato de a declaração final do G20 de Buenos Aires apoiar a reforma da entidade, com o endosso de EUA e China, protagonistas da guerra comercial vigente desde o início do governo de Donald Trump. Em entrevista ao UOL após a divulgação do texto, Azevêdo ressaltou que este era o resultado desejado pelo organismo: “um apoio político claro do G20 à OMC e à sua modernização”.

Neste sábado (1), o grupo com as 20 maiores economias do mundo, que respondem por 85% da riqueza do planeja, apresentou pela primeira vez um consenso sobre a reforma da entidade –entre os que ratificaram o documento estão o presidente chinês, Xi  Jinping, e o norte-americano Donald Trump. "Não há vencedores numa guerra comercial", comentou o brasileiro diretor da OMC.

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UOL - De que forma o sr. avalia o texto final da Cúpula do G20, que apoiou a reforma da OMC?

Roberto Azevêdo - O texto final é muito positivo para o comércio. Para começar, vale destacar que houve um entendimento entre os líderes mundiais, o que em si é positivo e nem sempre acontece. Mais do que isso, na substância, a declaração contém um compromisso claro com o fortalecimento da OMC. Em resumo, os líderes das maiores economias mundiais formalmente reconheceram o valor da OMC, manifestaram apoio às reformas necessárias para melhorar o funcionamento da Organização e afirmaram que, na próxima reunião de Cúpula do G20, ano que vem, vão avaliar o progresso desses esforços. Era exatamente o resultado que nós buscávamos: um apoio político claro do G20 à OMC e à sua modernização. Agora, é dar seguimento a esse compromisso em Genebra, conversando com todos os membros da Organização.


Como o sr. avalia a possibilidade de remeter à reforma da OMC a guerra comercial entre China e Estados Unidos? De que forma isso poderia ser feito?

Em primeiro lugar, a OMC pode servir de fórum de diálogo para ajudar a reduzir as atuais tensões comerciais. E a situação atual requer muito diálogo. Além disso, existe a percepção de que essas tensões comerciais existem principalmente porque as regras da OMC não são capazes de lidar de maneira adequada com os desafios atuais do comércio internacional, alguns deles presentes nas diferenças entre EUA e China. Nesse sentido, esta reunião do G20 foi muito positiva, por reconhecer o papel da OMC diante dessas dificuldades e por transmitir uma mensagem clara de apoio ao fortalecimento da Organização.

A posição protecionista de Trump no comando dos EUA e outros países com a mesma postura têm sido um entrave para o avanço da reforma?

A conversa sobre reforma da OMC está apenas começando, mas rapidamente está ganhando ímpeto. Propostas estão sendo apresentadas por negociadores comerciais em Genebra e agora, no G20, o assunto foi uma parte central da discussão entre os presidentes. O fato de que a declaração final da reunião expressa claro apoio à reforma da Organização mostra que todos os membros do G20, incluindo China e EUA, estão de acordo com isso. Ficou evidente que todos reconhecem o papel crítico que o sistema assume nesses momentos de crise e de tensões. Evidentemente, cada membro terá suas ideias, sua agenda de mudanças. E portanto as discussões, como sempre, serão difíceis. Isso faz parte do nosso trabalho. Mas certamente a disposição para discutir e negociar é o ponto de partida, e o apoio político dos líderes, como manifestado no G20, é fundamental para avançarmos.

O sr. mencionou no início do ano que via o risco de uma guerra comercial entre China e EUA como possibilidade. Ainda vê desta forma? Por quais razões? Qual é a sua expectativa em relação a este impasse?

Há sim o risco de mais tensão comercial, de medidas e contramedidas. Muitas medidas que tinham sido anunciadas no início do ano agora estão em pleno vigor. A OMC divulgou há poucos dias um levantamento sobre novas restrições ao comércio adotadas pelos países do G20. A situação é preocupante. Nos últimos seis meses, medidas restritivas passaram a atingir US$ 481 bilhões, o maior volume de comércio desde que começamos a fazer esse monitoramento, em 2012. Como eu disse aos líderes do G20, aumentar tensões, escalar, é fácil. O difícil é baixar a temperatura. É preciso reverter essa tendência com urgência. Não há vencedores numa guerra comercial.

Quais são as expectativas da OMC e do sr. com a mudança de governo no Brasil no próximo ano? A equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) planeja uma abertura maior da economia brasileira.

Acho muito positivo que, com a mudança de governo, haja uma reflexão sobre política comercial, sobre uma maior inserção da economia brasileira no mundo. Estou convencido de que o comércio internacional pode contribuir muito para modernizar a economia brasileira, aumentar sua competitividade e estimular o crescimento econômico no Brasil. Há muito potencial a ser explorado ainda.

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