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"Nova etapa" e "preocupante": visita de Netanyahu divide judeus no Brasil

Benjamin Netanyahu chega ao Rio de Janeiro e cumprimenta o prefeito Marcelo Crivella - Divulgação/Prefeitura do Rio
Benjamin Netanyahu chega ao Rio de Janeiro e cumprimenta o prefeito Marcelo Crivella Imagem: Divulgação/Prefeitura do Rio

Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

29/12/2018 04h00

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu gera controvérsias em Israel assim como seu anfitrião desta sexta-feira (28), Jair Bolsonaro. A primeira visita de um líder israelense ao Brasil também dividiu a heterogênea comunidade judaica no Brasil, formada por cerca de 100 mil pessoas.

O UOL ouviu diferentes representantes para entender como interpretam alguns dos temas mais prementes nas relações entre Brasil e Israel hoje. Em discussão, estão o simbolismo do gesto, o que representa o futuro alinhamento dos dois líderes da direita, os revezes políticos que Netanyahu enfrenta em seu país e a polêmica mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém --que na prática, significa o reconhecimento da disputada cidade como capital israelense.

"A sociedade israelense é uma sociedade muito plural. E, tal qual a sociedade israelense, a comunidade judaica no Brasil também é", explica Michel Gherman, colaborador do Instituto Brasil-Israel e coordenador do núcleo de estudos judaicos e árabes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

"Nessa comunidade, você tem pessoas alinhadas ao governo de Israel, que é um governo vinculado à questão da segurança, e você tem pessoas que são muito críticas, que o veem como um governo vinculado ao não avanço do acordo de paz [com os palestinos]", diz ele.

Para Arnon Velmovitzky, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Firj), a visita marca uma mudança importante na política governamental brasileira. "Israel sempre foi tratada por governos anteriores sem nenhum tipo de parceria, igualdade. Vamos caminhar agora para uma política no sentido de valorizar a meritocracia", diz ele, referindo-se às possibilidades de comércio que se abrem entre os dois países. No geral, resumem-se à importação de tecnologia israelense pelo Brasil.

Rabino da Congregação Israelita Paulista, Michel Schlesinger também acredita que a primeira visita de um premiê israelense ao Brasil tem significado relevante para a comunidade judaica. "O valor simbólico dessa visita é muito grande e representa o início de uma nova etapa nas relações entre os dois países", comenta.

Já Michel Gherman vê a chegada de Netanyahu como meramente pragmática. "Para mim, pessoalmente, como judeu, a visita não significa nada. O primeiro-ministro está vindo para fazer avançar perspectivas econômicas que, na avaliação dele, sua presença física pode ajudar."

Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro se cumprimentam no Rio de Janeiro - Fernando Frazao/Agência Brasil
Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro se cumprimentam no Rio de Janeiro
Imagem: Fernando Frazao/Agência Brasil
Ainda segundo Gherman, enquanto Israel trata essas relações de forma pragmática, o Brasil é motivado por razões ideológicas --errôneas, em sua perspectiva.

"Israel é muito diferente daquilo que Bolsonaro imagina. É um Estado preocupado com direitos de minorias, com legalização do aborto, com direitos homossexuais. Essas perspectivas não são percebidas pelo futuro governo brasileiro, que olha para Israel imaginando um país muito vinculado com suas perspectivas ideológicas", diz.

Integrantes do grupo Judeus pela Democracia, criado durante as eleições brasileiras e que hoje reúne cerca de 120 pessoas, vêm com preocupação o alinhamento entre os dois países.

"A aproximação, em si, não é ruim. Mas o contexto em que ela ocorre é o que é problemático: um período em que ambos os Estados têm (ou terão) governos com políticas de exclusão", escreveu o grupo à reportagem, pelo Facebook. "Para os judeus no Brasil, existe o lado positivo, que é o lado da aproximação com o único Estado judeu no mundo. Para um povo que foi perseguido por tantos milênios, isso é algo que pode trazer a impressão de conforto e segurança. Por outro lado, essa aproximação é baseada em um discurso belicista, de cunho totalmente ideológico."

O estudante de administração pública Fernando Sancovsky, que durante anos foi parte de um movimento juvenil da Congregação Israelita Paulista, compartilha a opinião. "Tem um lado da aproximação que não é muito falado, que é a questão dos direitos humanos. Soa estranho que dois governos criticados pelo desrespeito aos direitos humanos se aproximem tanto", diz.

Compra de tecnologia

Principal item da pauta de discussões de Netanyahu no Brasil é a ampliação do comércio entre os dois países. Israel vê no país um mercado próspero para a venda de tecnologia de segurança, agronegócio e dessalinização.

10.dez.2018 - Governador eleito no Rio, Wilson Witzel (PSC) visita Israel para prospectar a compra de drones - Ricardo Minussi/Divulgação
10.dez.2018 - Governador eleito no Rio, Wilson Witzel (PSC) visita Israel para prospectar a compra de drones
Imagem: Ricardo Minussi/Divulgação

Presidente da Firj, Arnon Velmovitzky se entusiasma com o fato. "Estive com o governador eleito do Rio [Wilson Witzel] em Israel, visitamos indústrias de segurança, de dessalinização, é um troço de outro mundo", comenta.

Schlesinger concorda: "As expectativas são altas e carregam o potencial de se refletir nas mais diferentes áreas, desde uma maior cooperação econômica até a solução da seca no Nordeste. Isso porque Israel tem clima desértico e desenvolveu tecnologias que possibilitaram o plantio de inúmeros produtos agrícolas. Os judeus do Brasil ficariam muito orgulhosos em ver o incremento desta cooperação", escreveu ao UOL.

Integrantes do grupo Judeus pela Democracia, por sua vez, temem o aumento da cooperação entre os dois países na área de segurança, considerando denúncias feitas contra Israel no conflito com os palestinos. "Aqui no Rio de Janeiro fala-se muito de uma aproximação dentro do campo da segurança pública, no intercâmbio de tecnologias e experiências. Isso é preocupante."

Bruno Cintra, integrante do Judeus contra Bolsonaro, outro coletivo criado durante as eleições, ressoa a preocupação: "É impressionante ver o diálogo que Bolsonaro estabelece, quando ele e Witzel vão a Israel atrás de tecnologia militar, quando há uma série de críticas sobre como a guerra se dá em Israel", diz.

Casos de corrupção

Netanyahu é atualmente investigado em três diferentes casos, mas sua popularidade segue elevada --o atual premiê lidera as pesquisas de intenção de voto para as próximas eleições israelenses, antecipadas para abril. Em um Brasil que acaba de eleger um candidato calcado no discurso anticorrupção, os eleitores divergem sobre o tema: há quem veja incoerência, há quem contemporize.

"Ele é um primeiro-ministro com excelentes serviços prestados ao Estado judeu, a comunidade enxerga ele como um líder carismático, competente, que realiza suas funções com bastante esmero", diz Velmovitzky, da Fierj. "Se ele cometeu algum malfeito, tem que pagar, mas as qualidades do serviço que ele prestou à Israel são inegáveis."

Para o rabino Michel Schlesinger, "enquanto não sofrer alguma condenação, Bibi é o representante legítimo de Israel, democraticamente eleito e deve representá-la". "Na comunidade judaica do Brasil há aqueles que simpatizam mais ou menos com ele, mas todos o reconhecem como o governante legítimo daquele país", diz.

Integrantes do Judeus pela Democracia são mais céticos: "Nos preocupa o discurso anticorrupção como um discurso político, quando deveria ser uma luta moral. A luta 'anticorrupção' é demagógica. Bolsonaro, como já está muito claro, não é o paladino da honestidade, assim como Bibi também não é", escrevem.

Agentes fazem segurança de sinagoga em Copacabana para visita de Bolsonaro e Netanyahu - Marina Lang/UOL
Agentes fazem segurança de sinagoga em Copacabana para visita de Bolsonaro e Netanyahu
Imagem: Marina Lang/UOL

Sancovsky vê certo desconhecimento sobre Netanyahu entre a comunidade judaica brasileira. "Eu vejo muito esse discurso de que é necessário uma pessoa forte no poder, mesmo que polêmica, mas que está defendendo os interesses de Israel. Eu não concordo com essa opinião", diz.

"Acho que as pessoas se restringem muito à questão simplesmente ao conflito Israel-Palestina. Fala-se muito da segurança de Israel. Mas acho engraçado que a mesma parcela da comunidade judaica que condena a corrupção no Brasil e apoiou abertamente Bolsonaro nas eleições com o discurso anticorrupção e contra 'tudo que tá aí', agora ignora os casos do Bibi e outros que têm aparecido", conclui.

Mudança da embaixada

Representantes da comunidade judaica que falaram ao UOL foram unânimes em considerar Jerusalém a capital de Israel. Divergem, no entanto, sobre os impactos da possível mudança da embaixada brasileira no país de Tel Aviv para Jerusalém.

Jerusalém é reivindicada por Israel como sua capital "única e indivisível". Palestinos, no entanto, esperam tornar a parte oriental da cidade, atualmente ocupada, capital de seu futuro Estado. Países árabes, grandes compradores de carne brasileira, já prometeram responder com "medidas concretas" caso a mudança se concretize.

"A capital de Israel é Jerusalém. Isso não é dúvida para nenhum israelense e nenhum judeu no mundo", enfatiza o professor Michel Gherman. "A questão é que, se consolidando a transferência da embaixada, o que vai ficar para o cenário internacional é que esse debate acabou, que os palestinos não têm direito a sua capital. O problema é esse", completa.

"Os riscos de uma aproximação incondicional com Israel passam pelo possível afastamento do relacionamento do Brasil com países árabes e de religião muçulmana (grandes parceiros econômicos nos últimos anos) além de uma polarização que pode trazer mais consequências negativas que positivas no âmbito das relações internacionais", escreveram os integrantes do grupo Judeus pela Democracia.

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