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Bolsonaro ignora convite para ir à Palestina; embaixador pede neutralidade

Evaristo Sá/AFP
O embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Alzeben Imagem: Evaristo Sá/AFP

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

2019-03-29T13:59:31

2019-03-29T15:27:26

29/03/2019 13h59Atualizada em 29/03/2019 15h27

A viagem do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para Israel não vai contemplar visitas a territórios palestinos, segundo o cronograma divulgado pelo Palácio do Planalto. O presidente também não respondeu ao convite feito pela embaixada palestina em Brasília para visitar a Igreja da Natividade, em Belém, na Cisjordânia, e se reunir com autoridades.

Bolsonaro embarca neste sábado e passará o domingo, quando desembarca em Israel, ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O Itamaraty confirma que Bolsonaro não visitará a região palestina. Procurado, o Planalto afirmou que a agenda ainda pode sofrer modificações.

Em entrevista ao UOL, o embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Alzeben, afirmou que o governo brasileiro não deu qualquer resposta ao convite feito para que Bolsonaro visitasse a Cisjordânia. "Mas o convite para o presidente Bolsonaro ainda é válido para qualquer momento que ele quiser visitar os territórios palestinos, não somente agora. Ele poderia até mesmo mudar de ideia durante sua viagem por Israel. Consideramos que seria mais conveniente fazer a visita agora, enquanto visita Israel, como outros presidentes fazem. Mas ele pode nos visitar no futuro", disse Ibrahim Alzeben.

O diplomata também sinaliza que visitar os territórios palestinos neste momento seria um bom sinal por parte do governo brasileiro. "Para servir como um mensageiro de paz e como ponte para duas nações em conflito, dando continuidade à política equilibrada dos governos brasileiros desde a criação do Estado de Israel até agora", diz o embaixador palestino.

Sempre se visitou os dois lados ao longo dos tempos, e apreciamos muito a política brasileira que sempre foi equilibrada. Queremos que o Brasil siga como um fiador da paz e não parte do conflito

Embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Alzeben

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro presidente brasileiro a visitar Israel, em 2010. Na ocasião, visitou tanto Tel Aviv, Jerusalém e a Cisjordânia, passando por Belém. Ele ainda se reuniu com o presidente Shimon Perez e com o líder palestino Mahmoud Abbas. É na cidade de Belém que fica a Igreja da Natividade. Segundo a tradição cristã, Jesus Cristo teria nascido no local.

MARK NEYMAN/AFP
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente israelense Shimon Peres em Israel em 2010 Imagem: MARK NEYMAN/AFP

A questão da embaixada

Durante a campanha e após a vitória no segundo turno, Bolsonaro se comprometeu a transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, reconhecendo a cidade como capital de Israel, e atendendo a uma demanda do governo israelense. Em sua passagem pelo Brasil, em dezembro, o próprio Netanyahu disse que Bolsonaro se comprometeu a mudar o local da missão diplomática brasileira.

Entretanto, ontem, o brasileiro afirmou que deve anunciar a instalação de um escritório de negócios na cidade, e não a transferência da embaixada, o que indica um recuo diplomático em sua retórica. A criação de um escritório militar foi uma medida adotada pela Austrália por exemplo, ao alinhar-se junto aos EUA, que transferiram sua embaixada para Jerusalém. Os australianos reconheceram Jerusalém como capital, mas mantiveram a embaixada em Tel Aviv, capital reconhecida pela comunidade internacional.

Segundo o embaixador Alzeben, a eventual abertura de um escritório de negócios brasileiro em Jerusalém é algo incomum, "que sai do ritmo normal da política brasileira e não ajuda no processo de paz". "Se o objetivo final é a paz no Oriente Médio, entre Israel e Palestina, esta medida não ajuda", afirmou.

Hoje, Israel considera Jerusalém sua capital indivisível, enquanto os palestinos defendem que a parte oriental da cidade seja a capital da Palestina.

"O Brasil é um bom mediador no processo de paz entre as duas nações, e gostaríamos de que o país não se aliasse a um lado ou a outro, seja com a Palestina ou com Israel. Gostaríamos que o Brasil sempre mantivesse a mesma distância dos dois lados do conflito, alinhado ao direito internacional, um país que sempre respeitou o direito internacional", comentou o diplomata palestino.

Além da agenda no domingo ao lado do líder israelense, Bolsonaro tem reuniões e homenagens previstas para serem cumpridas no país.

Na segunda-feira, ele deve visitar e condecorar a brigada israelense que atuou nas buscas em Brumadinho (MG) após a tragédia com o rompimento da barragem da Vale. No mesmo dia, Bolsonaro ainda visitará o Muro das Lamentações, lugar sagrado para os judeus.

Na terça, a agenda de Bolsonaro é dedicada a eventos empresariais. Segundo fontes confirmaram ao UOL, Netanyahu deve participar das agendas ao lado do presidente brasileiro. Bolsonaro visita ainda o Centro de Memória do Holocausto.

Na quarta, antes de retornar ao Brasil, Bolsonaro visita uma comunidade brasileira na cidade israelense de Raanana.

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