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Entenda por que Trump critica programa nuclear que EUA ajudaram a construir

13.jan.2015 - O presidente iraniano, Hassan Rouhani, visitando a sala de controle da usina nuclear de Bushehr, na cidade portuária de Bushehr, no Golfo - Arquivo/Presidência do Irã/AFP
13.jan.2015 - O presidente iraniano, Hassan Rouhani, visitando a sala de controle da usina nuclear de Bushehr, na cidade portuária de Bushehr, no Golfo Imagem: Arquivo/Presidência do Irã/AFP

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

16/05/2019 04h01

A relação entre Estados Unidos e Irã voltou a esquentar nas últimas semanas, e Washington enviou navios de guerra e mísseis ao Oriente Médio. O acirramento acontece um ano depois de Donald Trump anunciar a retirada do acordo nuclear firmado em 2015 com o Irã.

O desgaste entre os dois países tem como ponto central o programa nuclear do Irã, que desagrada diversos países do Oriente Médio, como Iraque, Arábia Saudita e Israel, além do próprio Estados Unidos.

No entanto, o programa nasceu justamente com incentivo americano, durante o governo de Dwight Eisenhower, em 1957. Entenda como isso aconteceu e por que o programa, agora, irrita o presidente norte-americano.

Como surgiu o Programa Nuclear Iraniano?

O Programa Nuclear do Irã surgiu junto com a iniciativa Átomos para Paz, de Eisenhower, que visava compartilhar e desenvolver energia nuclear com fins pacíficos, como medicina e energia.

Os Estados Unidos e diversos países europeus ajudaram a desenvolver a tecnologia nuclear iraniana, com construção de reatores e enriquecimento de urânio. Na época, o Irã assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), se comprometendo a não desenvolver armas e submeter seu programa a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Quando ele se tornou um problema para os EUA?

O falecido líder e fundador da Revolução Islâmica aiatolá Khomeini fala de uma varanda da escola Alavi em Teerã, Irã, durante a revolução do país em fevereiro de 1979 - Arquivo/Reuters
O falecido líder e fundador da Revolução Islâmica aiatolá Khomeini fala de uma varanda da escola Alavi em Teerã, Irã, durante a revolução do país em fevereiro de 1979
Imagem: Arquivo/Reuters

A situação mudou em 1979, ano da Revolução Iraniana, que derrubou o Xá Mohammad Reza Pahlevi. A embaixada americana foi tomada, e as relações cortadas. Com a chegada de um novo regime, diversas pessoas ligadas ao programa deixaram o país. Além disso, o líder da revolução, aiatolá Khomeini era um grande opositor da tecnologia nuclear. O programa foi paralisado por alguns anos.

Mas ao longo da década de 80, na esteira da guerra Irã-Iraque, Khomeini retomou as atividades nucleares, agora com suporte de outros países, como Rússia, China e Paquistão.

A partir desse momento, os Estados Unidos passaram a suspeitar de que o país estivesse aprimorando o programa para fins bélicos, o que assustava parceiros estratégicos como Arábia Saudita e Israel, além de causar temor de um desequilíbrio de forças ou de uma corrida armamentista no Oriente Médio. O Departamento de Estado americano colocou o Irã em sua lista de patrocinadores do terrorismo.

As suspeitas se aprofundaram quando foi revelada em 2002 a existência de instalações nucleares não declaradas. Para evitar sanções, o Irã permitiu inspeções da AIEA e assinou um protocolo adicional no qual suspendia seu enriquecimento de urânio.

O governo americano continuou suspeitando da nação persa e começou a estabelecer sanções contra indivíduos e entidades envolvidos com o programa, o que levou o Irã a abandonar o protocolo adicional. Depois disso, diversas retaliações foram feitas, mas o então presidente Mahmoud Ahmadinejad ignorou os apelos do Ocidente.

8.mai.2008 - O ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, durante uma visita à instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, a cerca de 300 quilômetros ao sul da capital Teerã. - Arquivo/Presidência do Irã/AFP
8.mai.2008 - O ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, durante uma visita à instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, a cerca de 300 quilômetros ao sul da capital Teerã.
Imagem: Arquivo/Presidência do Irã/AFP

Durante anos, as tensões escalaram para níveis preocupantes, com mais sanções impostas e tentativas de diálogos fracassando. Em 2015, o governo de Barack Obama conseguiu firmar o Plano de Ação Conjunta, um acordo nuclear no qual o Irã se comprometia a reduzir sua produção nuclear em troca do alívio nas sanções. O acordo foi assinado por Irã, EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha.

Por que Trump saiu?

Donald Trump já assumiu a presidência com fortes críticas ao acordo, que ele chamava de "desastroso" por beneficiar, em sua visão, muito mais ao Irã que aos EUA.

Pela regra, a cada 90 dias o presidente deveria revisar o acordo. Na primeira revisão de seu governo, Trump assinou, mas com ressalvas. Na segunda, ele anunciou que pretendia sair e reimpor sanções, algo lamentado pelos demais signatários.

Poucos dias antes do anúncio de Trump, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, fez uma apresentação na qual denunciava "arquivos atômicos secretos do Irã" que teriam sido obtidos pela inteligência do país. Trump citou a denúncia em seu discurso de saída do acordo.

No entanto, durante suas revistas periódicas, a AIEA não encontrou irregularidades no país.

"[...] Este acordo desastroso deu a este regime - e é um regime de grande terror - muitos bilhões de dólares, alguns em dinheiro real - um grande embaraço para mim como cidadão e para todos os cidadãos dos Estados Unidos".

Donald Trump em durante discurso de saída do acordo

8.mai.2018 - Presidente dos EUA Donald Trump durante anúncio de saída do acordo nuclear com o Irã - Jonathan Ernst/Reuters
8.mai.2018 - Presidente dos EUA Donald Trump durante anúncio de saída do acordo nuclear com o Irã
Imagem: Jonathan Ernst/Reuters

E agora, por que o Irã ameaça sair?

Mesmo com a saída dos EUA, o acordo seguiu em vigor com outros signatários. Trump pediu aos demais países que também deixassem o pacto, mas eles se recusaram e viram mais malefícios do que benefícios na retirada, já que temiam uma retomada sem controle do programa iraniano. Durante um ano as tensões amenizaram. Até as últimas semanas.

O Irã se vê insatisfeito com os desdobramentos do último ano desde a saída americana.

O retorno das antigas sanções e até o estabelecimento de novas têm afetado fortemente a economia iraniana. Por isso, o presidente Hassan Rouhani ameaçou deixar partes do acordo e enriquecer urânio em níveis não permitidos caso os demais signatários não resolvam esta situação. Os europeus já disseram que não vão aceitar um ultimato.

A situação piorou depois de os EUA enviarem bombardeiros, porta-aviões e mísseis ao Oriente Médio como uma "mensagem clara e inequívoca de que qualquer ataque aos interesses dos Estados Unidos ou de seus aliados enfrentará uma força implacável", disse o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton.

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