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Na Venezuela, tráfico por militares envolve malas de cocaína e alta patente

Líder da Venezuela, Nicolás Maduro, durante parada militar em Caracas  - Palácio de Miraflores/Arquivo
Líder da Venezuela, Nicolás Maduro, durante parada militar em Caracas Imagem: Palácio de Miraflores/Arquivo

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

03/07/2019 04h00Atualizada em 03/07/2019 12h01

A carga de 39 kg de cocaína apreendida com o sargento brasileiro na Espanha surpreendeu pelo volume e pela ousadia.

Mas, na Venezuela, um grupo formado por integrantes das Forças Armadas, que envolve desde soldados até oficiais de altas patentes e conta com a proteção e a participação do governo de Nicolás Maduro, já esteve envolvido na apreensão de 1.400 kg de cocaína dentro de um avião que partiu de uma base militar.

Conhecido como Cartel de los Soles (Cartel dos Sóis), ganhou este nome por causa das insígnias dos uniformes militares dos generais venezuelanos --os sóis seriam como as estrelas dos equivalentes brasileiros.

A droga embarcada na base militar de La Carlota, em Caracas, em 2011, não foi um caso isolado. Em setembro de 2013, foram encontrados em Paris, a bordo de um voo da Air France vindo do aeroporto internacional de Caracas, 1.300 kg de cocaína pura em 31 bagagens despachadas sem identificação de qualquer passageiro. Em comum, os dois voos passaram pela segurança de militares chavistas. As quantidades são exageradamente maiores do que a apreendida em um aeroporto na Espanha com um sargento brasileiro na semana passada.

Em entrevista ao UOL, o professor John Polga-Hecimovich, autor de "A Criminalização dos Estados: A Relação entre os Estados e o Crime Organizado", conta que o termo cartel para identificar o grupo é "um pouco errado". "O Cartel dos Sóis é uma organização, é uma rede de traficantes e na verdade não produz a cocaína que trafica. No entanto, a Venezuela representa uma 'estrada' do tráfico de drogas através desses grupos", diz.

Polga-Hecimovich explica ainda que o Cartel dos Sóis não é ligado a nenhuma outra organização criminosa sul-americana, "embora haja algumas indicações de que indivíduos ou grupos de militares venezuelanos traficam drogas ilícitas e armas com outros grupos criminosos". Segundo o especialista, "há evidências de que o PCC (Primeiro Comando da Capital) em Boa Vista pode estar envolvido no tráfico de cocaína e armas da Venezuela através da fronteira em Roraima".

O professor da Academia Naval dos EUA diz ainda o cartel existe desde a década de 1990 e cresceu sob as vistas grossas de Hugo Chávez e agora de Nicolás Maduro. "Ele cresce com a erosão contínua da capacidade do Estado venezuelano e da sua falta de vontade --ou capacidade-- para punir os traficantes. Em outras palavras, os traficantes de drogas estão explorando cada vez mais a cumplicidade das autoridades venezuelanas e, mais recentemente, o vácuo de poder", explica o cientista político.

Segundo o autor conta em seu livro, a primeira vez em que o grupo foi identificado pelas insígnias militares foi em 1993, quando dois generais da Guarda Nacional Bolivariana, o chefe antidrogas Ramón Guillén Dávila e seu sucessor, Orlando Hernández Villegas, foram investigados por tráfico de drogas. Comandantes, cada um carregava um "sol" nos uniformes. Posteriormente, novas acusações contra comandantes com mais sóis acabaram dando o nome pelo qual o grupo é conhecido até hoje.

Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em cerimônia militar em Caracas em agosto de 2012 - Palácio de Miraflores/Arquivo
Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em cerimônia militar em Caracas em agosto de 2012
Imagem: Palácio de Miraflores/Arquivo

Nos anos 2000, quando o Plano Colômbia fez com que as guerrilhas como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional) migrassem para a região da fronteira com a Venezuela, essas facções acabavam pagando subornos para as tropas chavistas para entrar com a droga em território venezuelano.

Em sua pesquisa, o cientista político explica ainda que, conforme o contato entre militares e guerrilheiros se tornou mais frequente, o Cartel de los Soles passou a comprar, armazenar e transportar cocaína --em troca, forneciam armas para as duas facções colombianas.

Há relatos de que existe competição entre os próprios militares venezuelanos pelo tráfico no país por rotas e fornecedores --por isso que, em sua pesquisa, Polga-Hecimovich descreve o Cartel de los Soles como uma espécie de rede de concorrentes. Há relatos até mesmo de roubo de carga entre as diferentes facções dentro dos militares venezuelanos.

"Embora as Farc tenham se desmobilizado em 2017 após assinar um acordo de paz com o governo colombiano, existem ainda muitos dissidentes na Venezuela, profundamente envolvidos no tráfico de drogas", diz Polga-Hecimovich no livro.

Diferentes reportagens sobre o tráfico de drogas dentro das Forças Armadas venezuelanas citam o envolvimento de pelo menos 123 autoridades, na ativa ou na reserva, em todas as áreas militares. "A Guarda Nacional Bolivariana e o Exército, em particular, parecem estar profundamente envolvidos no crime organizado e no tráfico de cocaína", aponta o professor em seu livro.

Em 2015, um ex-chefe da segurança presidencial de Chávez, Leamsy Salazar, acusou Diosdado Cabello, ex-vice-presidente de Chávez e atual presidente da Assembleia Constituinte de Maduro, de ser um dos líderes do Cartel dos Sóis.

Em abril, Hugo Carvajal, ex-chefe militar de inteligência de Maduro foi preso na Espanha, a pedido dos EUA, por acusações de tráfico de drogas. Ex-general e aliado de Chávez, Carvajal tinha feito graves denúncias contra Maduro em fevereiro, afirmando que o herdeiro de Chávez estaria envolvido com o narcotráfico.

Em entrevista ao jornal americano The New York Times, o ex-chefe de inteligência disse que o tráfico de drogas na Venezuela é gerenciado por políticos como Néstor Reverol, ministro do Interior; Tareck El Aissami, ministro que já foi vice-presidente, e pelo próprio Maduro. O próprio Carvajal admitiu seu envolvimento no tráfico.

O professor lembra ainda o "famoso caso dos narcossobrinhos", sobrinhos de Celia Flores e Nicolás Maduro que foram presos pelas autoridades norte-americanas.

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