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O que se sabe sobre o militar da comitiva de Bolsonaro preso com cocaína

Reprodução Rede Social
O segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso em Sevilha, na Espanha, por transportar cocaína Imagem: Reprodução Rede Social

Talita Marchao*

Do UOL, em São Paulo

2019-06-27T20:53:53

27/06/2019 20h53

A investigação sobre a prisão do sargento da Aeronáutica Manoel da Silva Rodrigues, na Espanha, com 39 kg de cocaína, corre sob sigilo na Justiça Militar brasileira. Na Justiça espanhola, ele será julgado como civil.

Entre outras coisas, não se sabe como ele conseguiu embarcar com a droga no voo da FAB (Força Aérea Brasileira), que era parte da comitiva do presidente Jair Bolsonaro (PSL) rumo ao Japão.

O UOL selecionou algumas questões sobre o caso:

Quem é o militar preso na Espanha?

Manoel da Silva Rodrigues, 38, é segundo-sargento da Aeronáutica. Ele integrava a equipe de apoio à comitiva oficial que acompanhava Bolsonaro em sua viagem para o Japão, onde o presidente participa da Cúpula do G20.

Entrou para a FAB em fevereiro de 2000 e passou a integrar o grupo de transporte especial em março de 2010.

Seu salário bruto, segundo o Portal da Transparência, é de R$ 7.298. Rodrigues fez ao menos 29 viagens no Brasil e no exterior desde 2011, várias delas com a equipe presidencial --incluindo os ex-presidentes Michel Temer (MDB), Dilma Rousseff (PT) e Bolsonaro (PSL). A partir de 2016, ele passou a integrar o quadro de tripulantes da aeronave VC2, que leva as equipes de apoio nas viagens oficiais da Presidência.

Ele esteve no voo do presidente em viagem de Brasília a São Paulo, em 27 de fevereiro, quando Bolsonaro viajou para exames médicos, após a segunda cirurgia devido ao ataque a faca de que foi vítima na campanha.

Ele não estava a bordo do avião presidencial principal, mas do reserva, que fazia escala técnica em Sevilha e transportava uma equipe de apoio.

Bolsonaro chegaria àquele aeroporto para uma escala no dia seguinte, mas mudou a parada para Lisboa após o escândalo. Rodrigues viajou ainda com representantes do Itamaraty a Washington, nos Estados Unidos, e a Saint John, em Antígua e Barbuda.

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Como a cocaína foi descoberta pela Espanha?

A Guarda Civil espanhola encontrou os 39 kg de cocaína na bagagem do sargento em uma averiguação de rotina na aduana de Sevilha, depois que o militar desembarcou. O sargento não tem imunidade diplomática.

O avião da FAB não foi vistoriado --o interior da aeronave é considerado território brasileiro, assim como embaixadas e consulados.

A droga foi descoberta na mala de mão de Rodrigues: 37 tabletes de cocaína com alto teor de pureza. Avaliada em R$ 6 milhões, a droga estava dividida em blocos dentro de uma mala de rodinhas e não estava nem disfarçada, segundo as autoridades espanholas. O sargento teria passado pelas autoridades espanholas fardado e, por não ter ocultado a droga, acredita-se que ele não esperava a inspeção aduaneira.

A imprensa local diz ainda que os agentes responsáveis pela prisão do militar não perceberam que Rodrigues era parte da comitiva do presidente brasileiro e seguiram com o protocolo padrão para qualquer passageiro vindo da América do Sul, já que o aeroporto foi um ponto de entrada de drogas sul-americanas para a Europa por muitos anos. A apreensão é uma das maiores já efetuadas no aeroporto de Sevilha.

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O sargento pode ser extraditado pela Espanha?

Preso na Espanha desde então como civil, Rodrigues é alvo de investigações conduzidas pela polícia espanhola e pelas Forças Armadas brasileiras. O militar responderá na Justiça da Espanha por crime contra a saúde pública, em que se enquadra o tráfico de drogas. Aqui, será julgado pela Justiça Militar. Entretanto, quem pode pedir a extradição é o Ministério da Justiça.

Segundo o Ministério da Justiça, "pode ser solicitada a extradição tanto para fins de instrução de processo penal a que responde a pessoa reclamada (instrutória), quanto para cumprimento de pena já imposta (executória). É importante ressaltar que o da extradição exige decretação ou condenação de pena privativa de liberdade".

O site do ministério afirma ainda que, "em caso de urgência, poderá ser solicitada ao país requerido a prisão preventiva para fins de extradição, com o encaminhamento de informações relacionadas ao mandado de prisão expedido pelo Juízo solicitante e/ou eventual decisão condenatória, assim como notícia de localização do extraditando no território nacional". Vale lembrar que a Justiça espanhola poderia negar o pedido.

O que o militar fazia na comitiva?

Segundo a Folha, o avião da FAB, um Embraer-190, levava o Escalão Avançado, que cuida de burocracias aeroportuárias antes da chegada do presidente. O sargento foi identificado pela Aeronáutica como um comissário de bordo. A aeronave e o resto da tripulação do voo seguiram viagem para o Japão.

A Aeronáutica diz que Rodrigues não voaria na mesma aeronave que Bolsonaro. O avião partiu de Brasília na noite de segunda-feira (24) --Bolsonaro só chegaria a Sevilha na quarta-feira.

A bagagem não passou por checagem no Brasil?

A FAB não confirmou se a tripulação da aeronave passou por inspeções, como as feitas por equipamentos de raio-X, antes do embarque e da decolagem. O inquérito que vai apurar se a vistoria ocorreu está sob sigilo.

A Aeronáutica diz que, em voos destinados para o transporte de pessoas, a inspeção de bagagens é feita pelo GSI (Gabinete de Segurança Institucional), responsável também pela segurança do presidente da República. Mas, como o voo em questão era de uma aeronave reserva, disse o porta-voz, a checagem das bagagens foi feita apenas pela FAB.

"Neste caso específico, por se tratar de um voo de traslado, e não de transporte do presidente, o GSI não teve ingerência sobre os procedimentos de segurança de embarque", disse o porta-voz da FAB, major Daniel Oliveira, sem confirmar se a bagagem dos tripulantes passou ou não por checagem antes do embarque na base militar de Brasília. Segundo ele, era de responsabilidade da FAB verificar o embarque da aeronave de apoio. No avião que leva o presidente, segundo o major, toda bagagem passa pelo raio-x e a segurança é feita pelo GSI.

Ele já era investigado?

A Força Aérea não quis dar informações sobre se Rodrigues já era investigado por tráfico internacional de drogas antes, afirmando que o caso corre sob sigilo. O porta-voz também não quis comentar se outros militares estão sendo investigados neste caso.

* Colaborou Leandro Prazeres, de Brasília; com agência Efe

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