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Afinal, a China é um país comunista ou capitalista, como disse Bolsonaro?

Jair Bolsonaro em visita à Muralha da China - Isac Nóbrega/PR
Jair Bolsonaro em visita à Muralha da China Imagem: Isac Nóbrega/PR

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

24/10/2019 14h47

"Estou em um país capitalista." Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro respondeu à imprensa sobre a suposta contradição de sua visita de dois dias à China, um país oficialmente comunista, doutrina político-econômica frequentemente criticada pelo presidente.

A declaração é polêmica porque, embora a China acabe de comemorar os 70 anos de sua revolução, o país é hoje é um dos mais agressivos economicamente. Mas, afinal, a segunda maior economia do mundo é comunista ou capitalista?

As opiniões também se dividem entre os especialistas consultados pelo UOL. O professor de relações internacionais Oliver Stuenkel, da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que o país mantém uma estrutura centralizada, tipicamente comunista. Já Lauro Ávila Pereira, professor de história da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) especializado em Ásia, diz que o presidente acerta ao afirmar que a China já é um país capitalista.

"Bolsonaro tem uma margem de manobra porque, de fato, a China não se deixa classificar facilmente. Ela tem alguns elementos tanto comunistas quanto capitalistas", afirma Stuenkel. "Mas a constatação de Bolsonaro não é inteiramente correta. Se Lênin [comandante da União Soviética após a Revolução Russa] visse a estrutura do Partido Chinês, ele imediatamente perceberia a atuação comunista, articulada claramente a partir de conceitos de Lênin."

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Imagem: Getty Images
O professor lembra que a China adaptou a estrutura soviética de partido único e sem divisão em relação ao governo. "O cargo mais importante do país é a liderança do partido. A posição do presidente é secundária", diz.

Ele afirma que empresas chinesas têm de responder ao governo chinês. "O partido tem mais de 80 milhões de membros. A partir de um certo tamanho, todas as empresas precisam ter uma pessoa do partido comunista no conselho, inclusive as estrangeiras. Isso é impensável num país capitalista."

Stuenkel afirma que a China mantém "um Estado policial na atividade econômica, que intervém muito mais incisivamente do que qualquer sistema capitalista".

Bolsonaro falou isso para resolver um dilema que ele mesmo produziu ao atacar o comunismo na campanha. A necessidade de agora lidar com a China, no entanto, o obriga a adaptar sua retórica e evitar impacto nessa relação bilateral
Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da USP

Economicamente capitalista

O professor da PUC pensa diferente. Embora concorde que o partido único caracterize a China como uma nação comunista, "do ponto de vista econômico, ela é capitalista". "O país tem extração de mais-valia [lucro], uma quantidade gigantesca de bilionários. Além disso, a forte intervenção do Estado na economia também ocorre em países capitalistas", diz Pereira.

Bolsonaro não está errado nesse discurso de que a China é capitalista. A revolução de 1949 foi comunista? Sim, teve uma perspectiva marxista, mas, após a morte de Mao Tsé-tung (1976) [fundador da República Popular da China] e a ascensão de Deng Xiaoping (1978), tudo mudou. Sua frase é: 'Não importa a cor do gato desde que cace o rato'
Lauro Ávila Pereira, professor da PUC-SP

O historiador afirma que o componente de maior identidade chinesa não é o comunismo, mas seu orgulho nacionalista. "É o que mais importa no desenho político da China hoje em dia", diz.

O nome do país em mandarim significa "lugar do centro do mundo", diz o professor. "Essa perspectiva autocentrada, identitária, como centro do mundo, está na história chinesa que a revolução resgatou", conta.

Para Pereira, o objetivo da China é "enriquecer gloriosa". "Vamos desenvolver o país, ter boas relações com os Estados Unidos. A perspectiva cultural chinesa é diferente da do Ocidente. Eles planejam as coisas por décadas, isso não se deve ao comunismo."

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que foi informado na reportagem, Oliver Stuenkel é professor de relações internacionais da FGV e não da USP. A matéria já foi corrigida.

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