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Fernández preserva possibilidade de relação com Brasil, diz ex-chanceler

24.out.2019 - Ato de encerramento de campanha do candidato Alberto Fernández em Mar del Plata, na Argentina - Martín Zabala/Xinhua
24.out.2019 - Ato de encerramento de campanha do candidato Alberto Fernández em Mar del Plata, na Argentina Imagem: Martín Zabala/Xinhua

Luciana Taddeo

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires (ARG)

26/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Celso Amorim diz que Mercosul tem sido objeto de declarações "pouco pensadas"
  • Para ele, democracias na região têm abandonado lado social
  • E essa mudança provocou as crises do Chile e do Equador
  • Eleição de Fernández, diz, seria equivalente à saída da ditadura

A ponto de embarcar para Buenos Aires, para acompanhar as eleições argentinas a convite do candidato à presidência Alberto Fernández, o ex-chanceler e ex-ministro da Defesa Celso Amorim afirma que, com a vitória do peronista, a Argentina poderá ser o pivô de um movimento de retorno "a uma verdadeira democracia na região".

Amorim é amigo do presidenciável argentino que, no ano passado, visitou com ele o papa Francisco para discutir a situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao UOL, ele fala sobre as expectativas para as relações entre Argentina e Brasil, e para o Mercosul, com uma provável vitória de Fernández.

"Diria que é vital para a nossa região [a eleição na Argentina] e tem transcendência global, com uma América Latina tão ameaçada e o Mercosul sendo objeto de declarações, a meu ver, pouco pensadas", diz. Segundo ele, "todo o neoliberalismo está em crise", citando as crises no Equador e o Chile. "A oportunidade de voltar a ter um governo progressista, voltado para a integração sul-americana e os ideais de justiça social na região é muito importante."

Para Amorim, as democracias na região têm abandonado o lado social, o que traz consequências graves, citando especificamente o Chile. Ele aponta a eleição de Raúl Alfonsín para a presidência argentina, em 1983, como um fator importante para a redemocratização da região, que vivia regimes militares não só na Argentina mas também no Brasil, no Chile, no Uruguai e no Paraguai.

"A eleição do Alfonsín [foi] muito importante para que todos os países da região se democratizassem. Não seria a primeira vez da Argentina como pioneira nesse movimento positivo." Leia os principais trechos da entrevista:

UOL - Fernández parou de discutir pela imprensa com o presidente Jair Bolsonaro. Como o senhor, que o conhece, prevê a relação deles como presidentes?

Celso Amorim - Prever o que vai acontecer aqui do lado brasileiro é muito difícil, porque é tudo muito fora da normalidade. Até na ditadura militar era mais previsível. Falar na possibilidade de suspender a Argentina do Mercosul ou do Brasil analisar sair está fora de qualquer cogitação normal.

Não é questão de ser de esquerda ou direita. O Mercosul foi assinado pelo governo [de Fernando] Collor, institucionalizado com Itamar Franco, continuou com Fernando Henrique e o governo Lula aprofundou. O início desse processo de integração foram os governos [de José] Sarney e Alfonsín.

O Mercosul para nós está identificado não só com o progresso econômico, é sinônimo de democracia. Abandoná-lo é como anunciar que está abandonando a democracia. Acho muito grave, mas não creio que ocorra.

Acredita que são só ameaças?

Não farei muitos comentários porque não seriam construtivos. Acho que a atitude do Alberto Fernández é correta, de preservar a possibilidade de uma relação dos Estados que tem que ser mantida, porque beneficia o Brasil como um todo, a indústria brasileira.

A Argentina é a maior compradora de produtos manufaturados do Brasil e nosso terceiro maior mercado. A atitude de Fernández vai no sentido de agir com tranquilidade, não aceitar provocações, e acho que ele está muito certo.

Acha que, se eleito, ele manterá esse tom mais moderado?

Não tenha a menor dúvida. Ele é um homem racional e revelou isso até na política interna argentina. É ponderado, o que não quer dizer que não tenha convicções. Acho que vai trabalhar a favor da integração sul-americana, para além do Mercosul, e que até a Unasul pode ser revivida, porque tem países que não abandonaram e a volta da Argentina seria importante. Mas eu não sei, é uma decisão que ele vai tomar.

Certamente haverá solidariedade com os movimentos democráticos e penso que fará isso preservando as relações entre Estados.

Já tivemos governos com ideologias diferentes, na Europa isso é muito comum, não é um problema.

Até 2015, o comércio mundial aumentou 4 vezes e o comércio no Mercosul 14. Seria uma total insensatez do Brasil abandoná-lo.

Com a economia argentina debilitada, como acha que Fernández lidaria com a pressão para reduzir a Tarifa Externa Comum do bloco?

A redução é um erro. Aliás, a Confederação Nacional da Indústria e organizações estão preocupadas com tarifas tão ou mais baixas que as da União Europeia. É inacreditável, somos um país em desenvolvimento. Nem os governos militares frequentemente elogiados pelo atual presidente agiram dessa maneira.

Creio que a Argentina tem muita razão em resistir a essa redução, provavelmente de níveis similares ou inferiores aos de uma rodada da Organização Mundial de Comércio, mas sem contrapartida, dando de presente, sem obter reivindicações que o Brasil e outros países em desenvolvimento deveríamos manter. Até para negociar com outro bloco você já está de antemão se enfraquecendo, é sem cabimento e de grande prejuízo para nossa indústria.

O acordo com a União Europeia pode ser dilatado com um governo Fernández?

Quem mais trabalhou para o acordo não sair foi o próprio governo brasileiro ao ofender o governo francês, que entre os grandes na União Europeia, é o país mais difícil para um acordo. Depois das atitudes e declarações sobre a Amazônia, até o parlamento austríaco disse que não vai ratificar. Acho que esse acordo está morto.

Não estou dizendo que isso é bom ou mau. Se não está, vai ficar na geladeira por um muito tempo, independentemente do Fernández.

O senhor acha que foi acertada a visita de Fernández ao ex-presidente Lula? Não joga contra uma boa relação entre os países?

Não deveria jogar porque tem a ver com a convicção pessoal dele, não foi uma atitude agressiva em relação ao presidente Bolsonaro, apenas manifestou uma solidariedade. Se somos contra presos políticos em outros países, como é que nós vamos manter presos políticos aqui?

Juristas do mundo inteiro consideram o Lula um preso político, inclusive alguns gurus intelectuais do pessoal da Lava Jato que veem que ele não teve um julgamento justo. Acho natural o Fernández, uma pessoa de princípios e coerente, o que não impede de ser racional e pragmático, ter feito essa visita de amizade e solidariedade. Não foi de maneira nenhuma algo agressivo contra o governo brasileiro.

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