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Espanha processa empresa por causar mais de mil terremotos no país; entenda

Plataforma que sediava estrutura de perfurações para construir reserva de gás do Projeto Castor - Reprodução/Youtube
Plataforma que sediava estrutura de perfurações para construir reserva de gás do Projeto Castor Imagem: Reprodução/Youtube

Do UOL, em São Paulo

19/10/2021 18h43Atualizada em 19/10/2021 18h43

Começou hoje, na Espanha, o julgamento do processo contra os responsáveis pela empresa Escal, que administrava o chamado Projeto Castor, uma instalação submarina de gás natural. Mas, ao contrário de outras reservas, esta precisou ser construída artificialmente, com injeções de gás — o que teria causado mais de 1000 terremotos na região do delta do Ebro, conhecida pela baixa atividade sísmica.

Após o desastre, o governo espanhol decidiu pedir investigações contra os administradores da companhia. As acusações são de crimes contra o meio ambiente e recursos naturais, com risco à vida e integridade física das pessoas que moravam nos arredores, inclusive grandes cidades do país, como Valência.

A promotoria do caso pede uma pena de seis anos de prisão às pessoas físicas acusadas e que a Escal não tenha mais autorização para realizar atividades no subsolo e nos sistemas de gás do país. As informações são do jornal espanhol El País.

A previsão é de que cerca de 200 testemunhas e 40 peritos participem do julgamento. Os profissionais técnicos devem explicar como todo o processo do projeto levou às centenas de abalos sísmicos. Segundo o relatório inicial da acusação, a empresa atuou de maneira "totalmente irresponsável", já que havia sido avisada sobre os riscos de injetar gás na reserva, e os danos causados pelos terremotos atingiram dezenas e casa e comprometeram 30 unidades comerciais, detalha a publicação espanhola.

O Projeto Castor foi instalado por concessão do Estado em 2008 para a exploração de um depósito subterrâneo de gás, que aproveitaria uma estrutura geológica. No passado, ela pertenceu a um poço de petróleo, a mais de 1.700 metros de profundidade e 22 quilômetros da costa da cidade de Vinaroz, a mais próxima às instalações.

A ideia era armazenar cerca de 1,9 bilhão de m³ de gás natural, o suficiente para abastecer toda a Espanha por 50 dias. Mas, para isso, era necessário que o gás fosse injetado no espaço de forma artificial.

O Observatório de Ebro, instituto de pesquisa científica que mantém convênio com o Ministério da Ciência espanhol, alertou, em relatório, sobre os riscos de terremotos no processo e recomendou a implementação de um sistema de monitoramento sísmico. Mas, segundo as investigações, o projeto começou em 13 de junho de 2013 sem tomar medidas para minimizar danos, sendo paralisado pelo governo em 17 de setembro do mesmo ano.

Em levantamento de 2020, o Observatório de Ebro afirmou que, até o dia da paralisação, 285 abalos sísmicos já haviam sido registrados. E mesmo após a interrupção das atividades, os terremotos continuaram, com mais 733 registros entre o final de 2013 e o final de 2020, o maior deles de magnitude 4,1 na escala Richter.

Em uma pesquisa publicada em agosto deste ano na revista científica Nature Communications, pesquisadores de Itália, Espanha e Estados Unidos detalharam o processo observado no depósito de gás da Escal.

Segundo eles, a "crise sísmica" pode ser dividida em três fases. A primeira, no início da inserção do gás, causou uma atividade sísmica moderada, com aumento progressivo da magnitude. A segunda, já ao fim da inserção de gás, fez a atividade migrar para o sudoeste da costa, graças à difusão da pressão no depósito. A terceira foi caracterizada por uma rápida e nova migração da energia, na direção nordeste.

Apesar da diferença de posição dos terremotos registrados, todos os abalos de maior magnitude foram consequência da ruptura de rochas, estimulada pelo gás, nas falhas em placas tectônicas que, naturalmente, estavam adormecidas ou apresentavam pouca atividade.

Os pesquisadores que explicaram as causas e efeitos do fenômeno vistos no Projeto Castro afirmaram que o objetivo do estudo é mostrar como é possível reconstituir, de forma detalhada, a dinâmica de uma atividade sísmica "induzida", mesmo sem uma grande rede de monitoramento, fornecendo uma base para países que queiram investir em ideias semelhantes.

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