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Por que nada abala a popularidade de Putin na Rússia?

Putin não costuma demonstrar emoções em público, mas tem grande aprovação popular - Getty Images
Putin não costuma demonstrar emoções em público, mas tem grande aprovação popular Imagem: Getty Images

Rebecca Vettore

Colaboração para UOL

10/05/2022 04h00

O conflito entre Rússia e Ucrânia passou de dois meses e, neste período, quase mil ucranianos foram mortos, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). Diversos líderes, principalmente do Ocidente, demonstraram insatisfação com a situação, inclusive impondo sanções pesadas contra os russos. Mas nada parece prejudicar a imagem e a popularidade de Putin dentro da Rússia.

A guerra, que tem sido justificada pelo governo dele como uma "operação especial" para combater o nazismo no território vizinho, foi aprovada por cerca de 83% dos russos em março, segundo o instituto independente russo Levada.

A pesquisa ainda demonstrou que a ação contra a Ucrânia fez com que Putin ganhasse 12 pontos de popularidade em comparação com fevereiro.

O controle da mídia pelo governo russo e a repressão a manifestações da oposição ajudam a explicar a popularidade inabalável de Putin.

A Rússia tem registrado protestos diários contra a invasão à Ucrânia, ainda que de forma limitada. Preso por oposição ao governo, o dissidente Alexey Navalny lançou um apelo por manifestações constantes em defesa da paz.

A polícia da Rússia prendeu apenas no dia 6 de março mais de 5.000 pessoas que protestavam em 60 cidades do país, segundo a ONG russa de direitos humanos OVD-Info. As informações são da agência Ansa.

Para garantir o apoio da população, Putin tem feito discursos baseados em alguns pilares importantes para a nação:

  • glorificar o passado vitorioso do país durante a segunda guerra mundial
  • estimular a imagem mítica de uma potência russa que continua batalhando contra o nazismo

Esse enaltecimento, além de estar sendo usado para manter o apoio atual, há anos já é algo que faz parte da estratégia de propaganda de Putin, tanto que passou a fazer parte da Constituição em 2020, com a inclusão da proibição de qualquer forma de minimizar o heroísmo dos russos.

A vitória da Rússia contra a Alemanha nazista é comemorada todos os anos no dia 9 de maio, desde a década de 2000.

Governo Putin

Para entender a popularidade de Putin é importante relembrar quando o presidente russo chegou ao poder e quais eram seus objetivos.

Desde 2000, ele mostra sua vontade de restaurar o status da Rússia como potência global, após o colapso da União Soviética —e esse desejo tem conquistado os russos.

"Putin se vê como o salvador da Rússia. Porque a tentativa da Rússia de fazer a transição democrática na década de 1990 falhou; houve um colapso completo e falência do país", diz Mira Milosevich, analista para Rússia e Eurásia do Real Instituto Elcano da Espanha, à BBC News Mundo.

Para o líder russo, a restauração do status da Rússia aconteceria junto com a recuperação da imagem de uma nação antinazista, retorno a toda a glória conquistada em 1945 e sendo novamente uma potência global.

Uma das formas de reverter o declínio pós-URSS era impedir o avanço de potências estrangeiras em ex-regiões soviéticas. Por essa razão, em 2008 o exército russo invadiu a Geórgia para impedir que o presidente pró-Ocidente reconquistasse o território separatista.

Em 2014, foi a vez da Crimeia.

Na época, os protestos pró-Ocidente feitos na Ucrânia derrubaram o presidente aliado de Moscou, Viktor Yanukovych. Após essa queda, a Rússia resolveu intervir, primeiro anexando a península da Crimeia e, na sequência, apoiando os rebeldes anti-Kiev em Donbass, a região de língua russa no leste da Ucrânia.

Oito anos após anexar a Crimeia, agora a Rússia invadiu a Ucrânia com a justificativa de combater os nazistas.

Mas diferentemente do que se pode imaginar, esse descontentamento com o país vizinho não é recente. A Ucrânia entrou na lista dos inimigos dos russos depois que o líder ucraniano nacionalista Stepan Bandeira colaborou com a Alemanha nazista na esperança de que o regime de Hitler mais tarde apoiasse a independência da Ucrânia da URSS, de acordo com o artigo "De onde vem a obsessão russa com uma Ucrânia nazi", da historiadora Korine Amacher.

Poder contínuo

Durante os nove anos entre a criação da Federação Russa e a ascensão de Vladimir Putin ao poder, a economia nacional sofreu várias grandes crises, o PIB caiu quase 50%, e a perspectiva média de vida diminuiu, de acordo com o portal de notícias DW.

Mas com Putin no governo, a Rússia se tornou novamente relevante e teve uma recuperação econômica, por isso o líder passou a ser visto como um salvador do país por seus apoiadores, que são a maioria da população do país.

Em razão desses resultados e da expansão do nacionalismo, Putin está há mais de duas décadas no poder, se revezando como primeiro-ministro e presidente do país.

Ele tem ideia do poder que exerce, por isso nas últimas eleições, em 2018, se esforçou mais para reforçar sua imagem como líder russo do que para se vender como candidato.

Ainda de acordo com a DW, Putin, que nunca gostou de fazer campanha eleitoral, fez poucas ações para conquistar votos. Durante um evento no estádio de futebol Luzhniki, ele foi recebido por 80 mil pessoas e discursou por menos de seis minutos.

Apesar disso e do pouco tempo da campanha presidencial, apenas três meses, Putin ganhou a reeleição para seu quarto mandato no primeiro turno com cerca de 77% dos votos.

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