Segundo turno coloca extrema-direita às portas da Chancelaria na Áustria

Blaise Gauquelin

  • Dominic Ebenbichler/Reuters

    Norbert Hofer (esquerda) e Heinz-Christian Strache, do FPÖ, Partido da Liberdade Austríaca, de extrema-direita, em Linz, na Áustria

    Norbert Hofer (esquerda) e Heinz-Christian Strache, do FPÖ, Partido da Liberdade Austríaca, de extrema-direita, em Linz, na Áustria

O segundo turno da eleição presidencial de 22 de maio na Áustria poderá ser uma virada histórica para toda a Europa. Isso porque se o candidato da extrema-direita (FPÖ; Partido da Liberdade Austríaca), Norbert Hofer, vencer o dos Verdes, Alexander Van der Bellen —o que tem grandes chances de acontecer--, ele usará todos os meios possíveis que a generosa Constituição austríaca coloca à disposição do chefe do Estado desde 1929 em seus artigos 29 e 70 para enviar a esquerda e a direita governistas para a oposição, e isso bem antes das próximas eleições legislativas previstas para 2018.

"A situação atual não foi bem compreendida fora da Áustria", comenta Patrick Moreau, pesquisador do CNRS e exímio conhecedor dos mecanismos políticos austríacos.

"A Constituição austríaca é muito parecida com a da República de Weimar. O presidente tem poderes consideráveis. Se Norbert Hofer for eleito no dia 22 de maio, ele pode perfeitamente nomear como chanceler Heinz-Christian Strache, o atual líder do FPÖ".

Em Viena, são raros aqueles que descartam tal perspectiva, sabendo que os Verdes terão dificuldades para mobilizar os abstencionistas das camadas populares a votar em um professor universitário aposentado, que às vezes fala como se estivesse diante de um anfiteatro da faculdade.

As transferências de votos para o candidato Verde são tudo menos previsíveis, ainda mais que o tema dos imigrantes tem monopolizado diariamente a atenção da mídia. Um segundo caso de agressão sexual, cometido contra uma jovem no banheiro de uma estação de metrô por três jovens requerentes de asilo afegãos, tem obliterado os argumentos a favor dos direitos humanos atualmente.

Clima nefasto

A equação é simples: uma vez apontado para a liderança do governo,Strache poderia escolher os ministros que ele deseja e buscar para si uma maioria no Parlamento, ou tentando governar junto com a direita, ou aliciando deputados de esquerda e dividindo o Partido Social-Democrata, que se encontra acuado.

Um certo número de interlocutores entre os conservadores cristãos do ÖVP já informaram ao "Le Monde" que eles não precisariam ser persuadidos a consagrar, pela primeira vez desde 1945, um chanceler austríaco de extrema-direita, ainda que suas declarações antieuropeias sejam diametralmente opostas a seus próprios posicionamentos.

Também são muitos os sinais de inclinação do lado da esquerda, que já governou em 1983 juntamente com o FPÖ.

As manobras com o intuito de persuadir o Partido Social-Democrata (SPÖ) a aceitar a mão estendida pelo FPÖ já começaram. Erich Foglar, o presidente da intersindical ÖGB, próxima do SPÖ e muito influente, exigiu deste último que ele "não descarte de cara a possibilidade de um trabalho conjunto no governo com o FPÖ", uma vez que a extrema direita já governa juntamente com a esquerda a região de origem de Hofer, a Burgenland.

Quando se conhece o peso dos sindicatos na Áustria e sua proximidade com o governo socialdemocrata, só se pode interpretar essa declaração pública como uma manobra do chanceler Werner Faymann, que em seguida descartou a possibilidade de qualquer acordo com "o FPÖ de Strache".

Para as tropas, a mensagem era clara: se a extrema direita se livrar de seu controverso líder, então uma esquerda conduzida por Faymann poderia perfeitamente se voltar a entender com ela.

Além disso, o chefe do governo foi vaiado durante o tradicional desfile de seu partido, no dia 1º de maio, pela ala esquerda do SPÖ, que tem se indignado com essas aliciações recíprocas e ameaça uma cisão. Esses encrenqueiros, gravados em vídeo por gerentes do partido, sofreram pressões internas, sintoma de um clima nefasto.

Mesma base eleitoral

A extrema direita vienense sempre repetiu aos deputados social-democratas que ela preferia voltar para os ministérios com eles: ela divide com a direita a mesma base eleitoral, uma vez que a sociologia manda que o voto burguês e o daqueles que possuem nível superior de estudo sejam garantidos para a direita e aos Verdes, enquanto a esquerda e os nacionalistas disputem os votos dos operários e dos proletários.

A esquerda austríaca, em uma parte de seu grande bastião vienense, assim como em várias regiões, se deixaria seduzir por esse beijo da morte, ainda mais porque ela não teria que temer uma reação violenta de Bruxelas, como durante as amargas sanções sofridas pela Áustria em 2000, quando os conservadores foram os primeiros da UE a oferecerem o poder à extrema-direita.

A Áustria está certa de que os nacionalistas húngaros, poloneses e croatas, mas também os populistas de esquerda na Eslováquia, vetariam a repetição de tal cenário.

Se Strache não conseguir aliciar um número suficiente de deputados, então Hofer continuaria tendo a possibilidade de dissolver o Parlamento, o que continua sendo o cenário mais provável.

"Do ponto de vista jurídico, bastaria que ele desse uma explicação, que poderia ser, por exemplo, o fato de que sua eleição lhe deu uma legitimidade que o Parlamento não possui mais", segundo Patrick Moreau.

Só que em caso de eleições antecipadas, que ocorreriam após o verão, o FPÖ está certo de que vencerá, uma vez que está bem à frente de seus concorrentes em todas as pesquisas de opinião.

 

Tradutor: UOL

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