Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Análise: Queda de Dilma assinala derrocada do PT no Brasil

Claire Gatinois

  • Paulo Whitaker/Reuters

Impeachment da presidente marca o fim de um ciclo iniciado pela chegada do presidente Lula ao poder em 2003

Dividida entre raiva e exaustão, Elizabeth Galvão foi até o palácio da Alvorada, em Brasília, para dar um último "adeus" a Dilma Rousseff. A destituição da presidente brasileira, nesta quarta-feira (31), revoltou a professora, eleitora do Partido dos Trabalhadores (PT) desde 1986. Mas nesse dia a tristeza superou todos os outros sentimentos.

"É o fim de uma era", ela acredita, assim como muitos militantes do PT parados em frente aos portões do palácio presidencial. O impeachment decidido por mais de dois terços dos senadores assinala o fim de um ciclo, iniciado em 2003 pela chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, o ex-menino pobre do Nordeste que se tornou porta-voz dos esquecidos, dos pobres e dos sem voz.

Em treze anos de poder, essa esquerda, oriunda em parte do movimento sindical que lutou contra a ditadura militar (1964-1985), transformou a cara do país. Tirou da miséria milhões de brasileiros, deu a jovens desfavorecidos acesso às universidades, impediu que se morressem de fome nas zonas mais áridas como o sertão e permitiu que os mais humildes tivessem acesso à sociedade de consumo.

Elizabeth Galvão tem certeza de que o novo governo de Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ex-aliado do PT, quer acabar com todos esses programas sociais. "Cheira ao fim de um reinado", descreve uma pessoa próxima do partido.

"Nós voltaremos"

"A história não acaba assim", afirmou Rousseff aos militantes que foram apoiá-la nesse dia, "nós voltaremos". Lula, de rosto fechado, observa à distância sem nada dizer àquela que já foi sua protegida. A destituição de Dilma Rousseff é seu fracasso também. Mas sua saída, ainda que traumatizante, é quase um alívio. Ela coloca fim a um segundo mandato presidencial que mais parecia um calvário, durante o qual a imagem do partido foi manchada pelos erros de Dilma, pela crise e pelos casos de corrupção.

Veja a íntegra do pronunciamento de Dilma após o impeachment

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Agora começa outra luta: restaurar o mito Lula e reconstruir um partido fragmentado antes da eleição presidencial de 2018, uma tarefa quase impossível. Já afetado pelo escândalo do mensalão (compra de votos de parlamentares) em 2005, o ex-sindicalista é suspeito de ser um dos elos do esquema de corrupção envolvendo a estatal Petrobras e os gigantes da construção civil.

Esse caso respingou em toda a classe política e foi trazido à tona pela investigação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, inimigo declarado do ex-presidente.

Como contra-ataque, PT e Lula passaram a mobilizar a opinião pública, acusando as elites conservadoras de estarem conspirando para destruir o partido e seu carismático líder. Segundo analistas, essa retórica de um complô orquestrado pelo grande capital pode funcionar a curto prazo. Mas para permitir que o PT renasça de verdade, "falta um mea culpa", observa o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Beijo da morte

O poder desgastou o PT. Esse partido, que prometia ser tão diferente dos outros, foi aos poucos se perdendo em um sistema que ele criticava, provocando a decepção de parte dos eleitores.

"O PT não é mais a esquerda", acredita o ex-ministro da Educação de Lula, Cristovam Buarque, senador do Partido Popular Socialista (PPS), que votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff. A sociedade evoluiu sem que o discurso do PT acompanhasse. "A revolução não é mais feita nas fábricas, mas sim nas escolas", diz o senador.

Jean Wyllys, deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), embora estivesse do lado de Dilma Rousseff contra o impeachment, também espera que o PT reconheça suas falhas, como o fato de ter feito alianças espúrias com partidos conservadores e fundamentalistas religiosos para governar.

"De uma certa maneira, o PT pediu para ser aceito no condomínio do poder e agora está sendo expulso dele por aqueles que sempre foram proprietários desse condomínio", ele resume.

Temer vai enfrentar 5 pedras em seu caminho

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Prova desse descrédito é o fato de o apoio de Lula aos candidatos do PT nas eleições municipais de outubro parecer, em certos distritos, um beijo da morte. Em São Paulo, 73% dos eleitores afirmam que não votariam "de jeito nenhum" em uma pessoa apoiada pelo ex-presidente, segundo uma pesquisa Datafolha publicada no dia 25 de agosto.

A "grife" PT não é mais tão popular. Tanto que os candidatos agora estão tentando apagar os sinais ostentatórios de sua filiação ao PT, reduzindo o tamanho da estrela em seus cartazes ou evitando a cor vermelha. "É um desastre", diz em pânico uma pessoa próxima do PT.

O Partido dos Trabalhadores também deve imaginar o pior: uma condenação de Lula, que impediria que o septuagenário se candidatasse em 2018. As suspeitas se acumularam nos últimos meses.

Segundo o jornal "Estado de São Paulo", de 26 de agosto, os investigadores agora estariam tentando incriminar o ex-presidente nos casos do "tríplex" e da casa de Atibaia: um apartamento no Guarujá e uma casa de férias, que Lula e sua mulher Marisa teriam - de acordo com os policiais- recebido de presente de construtoras envolvidas na Lava Jato.

Será que o PT conseguiria sobreviver à morte política daquele que continua sendo um ídolo? "Enquanto Lula estiver por aqui, é impossível criticar o PT, muito menos falar em um pós-Lula", diz com preocupação uma pessoa próxima do partido.

Tradutor: UOL

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