A Argentina de Macri vê recessão e tensões sociais aumentarem

Christine Legrand

  • Victor R. Caivano/AP

    Agricultores jogam verduras de graça para população em protesto pelo alto custo de vida e por mais crédito agrícola, próximo à Casa Rosada, em Buenos Aires (Argentina)

    Agricultores jogam verduras de graça para população em protesto pelo alto custo de vida e por mais crédito agrícola, próximo à Casa Rosada, em Buenos Aires (Argentina)

Dez meses após a eleição de um presidente de centro-direita e do mundo empresarial, a recuperação da terceira maior economia da América Latina ainda está por vir, a pobreza aumenta e as tensões sociais se exacerbam

Não importa que a Argentina esteja imersa em imensas dificuldades econômicas e sociais: seu presidente, Mauricio Macri, vindo da centro-direita e do mundo empresarial, quer seduzir os investidores. Centenas de diretores de grandes empresas, em sua maioria estrangeiros, responderam a seu chamado e se deslocaram até Buenos Aires para participar, entre os dias 13 e 15 de setembro, do Fórum dos Negócios e dos Investimentos.

Macri apostava nesse encontro para convencer seus antigos colegas a investirem na Argentina. Com razão: o CEO da Siemens, Joe Kaeser, anunciou na capital argentina que fará "cerca de 5 bilhões de euros" em investimentos "em infraestrutura, transporte e energia".

A terceira maior economia da América Latina dispõe de imensas riquezas agrícolas, grandes reservas de lítio e de gás de xisto. O sucessor de Cristina Kirchner na Casa Rosada, sede do Executivo, que sonha com US$ 35 bilhões (R$ 116 bilhões) em investimentos, quer fazer de seu país "o supermercado do mundo", uma versão atualizada de "o celeiro do mundo" que foi a Argentina no início do século 20.

Até agora, os investimentos chegaram a conta-gotas. A recuperação da economia, que se encontra em recessão, será mais lenta que o previsto. O coquetel recessão (-0,5% de crescimento em 2016, segundo o Banco Mundial), inflação (40% nos doze últimos meses), queda do consumo e aumento do desemprego é explosivo.

Nesse contexto, as estatísticas publicadas no dia 11 de agosto pela Universidade Católica de Buenos Aires (UCA) caíram como uma bomba. Segundo a UCA, próxima do papa argentino Francisco, e cujas estatísticas são referência, há 1,4 milhão de novos pobres desde que Macri tomou posse no dia 10 de dezembro de 2015, sendo que este, durante sua campanha, havia prometido "pobreza zero". Muito pelo contrário. A pobreza agora atinge mais de um terço dos 41 milhões de argentinos.

Dezenas de milhares de cidadãos têm saído regularmente às ruas para expressar sua insatisfação. Manifestações, bloqueios nas estradas, cozinhas comunitárias paralisam diariamente bairros inteiros da capital.

Até então divididos, os sindicatos estão em pé de guerra e ameaçam fazer uma greve geral em outubro.

"Haverá conflitos sociais enquanto o governo não mudar a política econômica", garante Pablo Micheli, secretário-geral da Central dos Trabalhadores da Argentina, autônoma (CTA).

"O governo tomou medidas que agravaram seriamente a situação das classes mais vulneráveis", concorda Hector Daer, um dos membros do triunvirato que dirige a nova Confederação Geral do Trabalho (CGT).

Victor R. Caivano/AP
Manifestantes bloqueiam avenida em Buenos Aires durante greve

Reunificada no dia 22 de agosto após oito anos de divisões internas, a central operária endureceu o tom contra o presidente Macri. Segundo cálculos dos sindicatos, mais de 200 mil empregos foram perdidos desde o início do ano.

A abertura econômica preocupa

Uma parte dos argentinos esperava que Macri, por vir do mundo empresarial, tivesse um talento em gestão. Ele lançou reformas impopulares, como o fim dos subsídios para as contas de gás, de água e energia, uma prática instaurada pelos Kirchner, que afundou o orçamento do Estado e levou o deficit orçamentário a níveis recordes.

Um reajuste era necessário, mas o aumento de uma só vez (chegando a 900%) da tarifa do gás em pleno inverno austral se revelou uma ideia infeliz. O presidente teve de recuar. No final de agosto ele teve de enfrentar o Supremo Tribunal, que se mostrou sensível aos argumentos dos usuários que denunciaram aumentos bruscos. Então as novas tarifas de gás deverão ser progressivas e decididas após consultas públicas, uma pedra no sapato da liberalização.

A população está começando a apertar o cinto e os comerciantes enfrentam maus bocados. Placas de "aluga-se" e "vende-se" ornam várias das lojas da avenida Santa Fé, a tradicional artéria comercial de Buenos Aires. Esses pontos foram fechados nos últimos meses após a queda no consumo provocada por uma inflação ainda mais galopante pelo fato de que a Argentina de repente reabriu suas fronteiras após 12 anos de protecionismo.

Os aumentos "vertiginosos das tarifas de gás, de eletricidade e de água", que pesam no consumo da população, indiretamente levaram Sergio Moral a fechar as portas de sua loja de roupas.

"As vendas caíram mais de 3% em 2016", lamenta Jorge Luis Di Fiori, presidente da Câmara de Comércio argentina. No entanto ele continua otimista, apostando na "chegada de marcas internacionais que haviam saído do país e que estão voltando". Ele dá o exemplo da Apple, que deverá se instalar em breve na Argentina.

A reativação da economia prometida por Macri é esperada em todos os setores, mas com uma certa preocupação dos meios empresariais. Os industriais argentinos temem os efeitos da política de abertura, e em especial dos laços criados com a China, sobre suas atividades. A produção industrial caiu 4% em um ano.

As pequenas e médias empresas não se sentem preparadas para competir com uma oferta externa barata. Diante da falta de divisas e das dificuldades enfrentadas para se obter créditos estrangeiros, a ex-presidente peronista Cristina Kirchner (2007-2015) havia imposto restrições severas às importações.

Hoje está muito mais fácil importar. A queda da produção —de 30%, por exemplo, para a indústria de calçados em relação a 2015— levou a uma onda de demissões. O desemprego subiu 9,3%, sendo que o trabalho informal afeta ainda quase metade dos trabalhadores.

O país continua a sofrer com a recessão no Brasil, seu principal parceiro comercial, que está importando menos. Por isso, na indústria automobilística argentina, cerca de 6 mil operários têm menos horas de trabalho.

A indústria local também precisa competir com o chamado comércio "porta a porta", legalizado em agosto pelo governo, que permite que os consumidores comprem pela internet sem ter de pagar impostos alfandegários.

Xinhua/Presidencia/TELAM
O presidente da Argentina, Mauricio Macri, faz selfie durante inauguração de obra em Llavallol, na província de Buenos Aires

"Não podemos condenar os argentinos a pagarem produtos mais caros que no resto do mundo", disse no final de agosto o presidente Macri, a partir da China, onde ele participava da cúpula do G20.

O presidente atribui as dificuldades econômicas atuais ao pesado legado deixado pelos Kirchner: Néstor (2003-2007), e depois sua esposa Cristina (2007-2015).

"Os doze anos de kirchnerismo foram devastadores, os piores governos em duzentos anos", concorda Luis Miguel Etchevehere, presidente da Sociedade Rural Argentina (SRA), que, desde 1866, reúne os maiores proprietários fundiários. "O único objetivo deles foi o enriquecimento pessoal às custas do Estado", diz esse produtor agrícola de origem basca.

A revelação diária de casos de corrupção envolvendo a família Kirchner e ex-funcionários de alto escalão contribui para confirmar essa opinião entre a população.

Prazo decisivo em 2017

"O presidente Macri colocou um fim à guerra contra o agronegócio", que os Kirchner haviam transformado em principal inimigo, comemora Etchevehere, lembrando que esse setor "garante 60% das divisas e um terço dos empregos na Argentina", e que, "para 2016-2017, os investimentos na produção agrícola aumentarão para US$ 58 bilhões."

De fato, a agricultura é um dos grandes beneficiários da nova política: fim dos impostos sobre todos os cultivos, com exceção da soja, para a qual a tributação passou de 35% para 30%, e desvalorização de 30% do peso em relação ao dólar, o que torna os exportadores argentinos mais competitivos.

Eleito com 51,34% dos votos no segundo turno da eleição presidencial de novembro de 2015, Macri se beneficiou mais com a rejeição ao antigo governo do que de uma onda de entusiasmo em torno de sua pessoa e de seu programa.

Segundo a última pesquisa nacional, conduzida no final de agosto pelo instituto de pesquisas Ricardo Rouvier, ele ainda conta com 47% de opiniões favoráveis, contra 50,6% de opiniões negativas. É um desempenho mais do que honroso, levando em consideração as dificuldades que a Argentina vem atravessando.

Mas o prazo decisivo será em 2017, com as eleições legislativas, onde o presidente Macri tentará conquistar uma maioria, da qual atualmente ele não dispõe no Congresso. Até lá, para ampliar seu círculo de apoiadores, ele precisará obter resultados na frente econômica e acalmar um clima social tenso. Sem crescimento, essa será uma tarefa quase impossível.

Tradutor: UOL

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