Norte-coreano conta como fugiu da fome em seu país e viveu clandestinamente em Moscou

Isabelle Mandraud

Em Moscou

  • Ed Jones/AFP

Sobrevivente da fome que avassalou a Coreia do Norte nos anos 1990, Kim nunca conseguiu obter asilo na Rússia, país vizinho onde ele viveu com dificuldades durante três anos. Hoje refugiado nos Estados Unidos, ele conta sua história

Entre duas panelas fumegantes, Kim rodopia, jogando sal aqui, um pouco de especiarias ali, ou picando freneticamente uma cebola fresca. Um cheiro agradável logo toma conta do lugar, e surgem algas refogadas nos pratos. Esta noite, a poucas horas de sua partida, o homem miúdo e afável, de cabelos negros, cozinhou uma refeição de despedida. Após anos de errância, e depois mais três em situação precária em Moscou, esse norte-coreano em breve vai voar para os Estados Unidos, país que o acolherá, tendo lhe concedido a chave de seus sonhos: o status de refugiado. O "Le Monde" havia prometido esperar por esse momento antes de contar sua incrível odisseia de imigrante clandestino perseguido.

Às 5h30, finalmente, da terça-feira (22 de novembro), ele partiu assustado do aeroporto de Moscou-Sheremetyevo, terminal E, carregando consigo seus poucos pertences, duas bolsas de menos de 10 kg, acompanhado até o guichê de controle policial por uma ativista, um representante da ONU e um médico. O timing foi perfeito: a partir de 12 de dezembro a Duma, câmara baixa do Parlamento russo, se prepara para votar o projeto de lei de extradição recíproca entre a Rússia e a Coreia do Norte para as pessoas condenadas a um ano ou mais de prisão, assinado por Vladimir Putin.

O texto dá sequência ao acordo firmado no dia 3 de fevereiro entre Pyongyang e Moscou, segundo o qual as duas partes acordaram enviar para seus países de origem "qualquer pessoa que tenha entrado ilegalmente" no território do outro, separados por uma minúscula fronteira terrestre comum de menos de 17 km. A convenção de 1951 da ONU relativa aos refugiados, que foi ratificada pela Rússia em 1993, tem sido cada vez mais esvaziada de sentido. Segundo estatísticas oficiais do Escritório de Migrações, somente 770 refugiados políticos residiam em território russo no dia 1º de janeiro de 2016, sendo dois norte-coreanos e dois sírios. Uma ninharia. E a promessa do pior para aqueles que serão enviados de volta para a ditadura comunista mais fechada do mundo, e a mais militarizada também.

"Nunca tive amigos antes"

"Tenho vergonha de ver que nosso país, como nos tempos soviéticos, envia pessoas à morte e à tortura", lamenta Svetlana Gannushkina, presidente da associação Assistência Civil, especializada em ajuda para refugiados. "Com a nova lei, não teremos tempo nem mesmo para fazer esse apelo, é uma violação da convenção de 1951." Essa matemática de 74 anos, de vivacidade e humanidade extraordinárias, recebeu, no dia 25 de novembro, em Estocolmo, o Right Livelihood de 2016, o "prêmio Nobel alternativo", por seu "engajamento na promoção dos direitos humanos e da justiça para os imigrantes forçados". Foi na sede de sua ONG, considerada pela Justiça como "agente estrangeira", que Kim acabou encontrando refúgio.

O homem, que diz ter 39 anos —seria essa realmente sua idade?— se curva diante de cada visitante, apertando efusivamente suas mãos e repetindo "Spaciba, spaciba" (obrigado, obrigado em russo) umas dez vezes seguidas. Na noite de 8 de novembro, vidrado na frente da TV, Kim chorou copiosamente, convencido de que a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos iria pôr um fim a seus sonhos. Ele ainda não sabe nada sobre seu destino final em território americano, onde ele viverá. Uma vez no local, ele será cuidado por uma associação.

Nessa última noite, ele está nervoso e usa como pretexto seu russo fraco para se esquivar das últimas perguntas. Pouco antes de passar pelo controle da polícia das fronteiras do aeroporto, onde ele permaneceu com a respiração suspensa por 15 longos minutos, ele virou uma última vez para sua acompanhante Natalia Gontsova, ativista da Assistência Civil: "Por que você veio?". "Porque sou sua amiga", ela lhe respondeu gentilmente. Pensativo, Kim soltou as seguintes palavras: "Nunca tive amigos antes."

Ed Jones/AFP
Soldados caminham na zona desmilitarizada entre as Coreias do Norte e do Sul

Sua assombrosa história é um depoimento esclarecedor sobre a fome que avassalou a Coreia do Norte no final dos anos 1990, durante os quais, segundo estimativas, de 1 milhão a 3 milhões de pessoas teriam morrido, de uma população de 22 milhões. Kim vivia em uma cidade costeira cujo nome ele prefere não dizer. Ele tinha cerca de dez anos quando perdeu primeiro sua mãe e depois seu pai, marinheiro em um barco pesqueiro, que era obrigado a entregar toda sua produção ao Estado. "Eles tiveram algo na barriga", ele diz discretamente. "Fome", traduz Svetlana Gannushkina.

Kim foi então entregue, juntamente com sua irmã mais nova, a uma família adotiva, que já tinha dois filhos biológicos, e que assim, ampliada, poderia ter direito a um apartamento maior. Os pais davam mais à sua prole, e um pouco menos aos filhos adotivos. Kim achava isso "normal", como ele conta, com a ajuda de um intérprete, aos ativistas da Assistência Civil em uma longa entrevista gravada. Mas ali também faltava comida. "Dois outros órfãos chegaram, e eles não ficaram mais do que três ou quatro dias", conta Kim. "Naquele momento, a gente só se alimentava de farelo de cereais. Minhas roupas ficavam cobertas de piolhos."

Após dois anos e meio, a família se separou do jovem rapaz. Enviado para um orfanato onde também faltava de tudo, ele acabou entregue à própria sorte. Nas ruas, ele viu cadáveres. O adolescente se convenceu de que sobreviveria e em 1997, no auge da mortalidade causada pela fome, ele tomou o caminho da China, certo de que ali não se morria de fome. "Em nosso país", ele explica, "o arroz equivalia a ouro. Aquele que tivesse arroz era rico."

Começou então um périplo inacreditável. Depois de atravessar a fronteira a pé, clandestinamente, Kim sobreviveu durante dez anos entre Xangai e Hangzhou, na fachada leste da China. Ele viveu à base de bicos, sem nunca conseguir regularizar sua situação. Perseguido pela polícia, um dia ele pegou o mapa da Rússia, que na cabeça dele era a porta para a Europa, se enganou com um mapa antigo da União Soviética e atravessou a China inteira para tentar chegar até o Cazaquistão, sem saber que essa antiga república soviética havia se tornado independente em 1991. Preso na fronteira, ele foi entregue às autoridades de seu país, condenado e enviado por dez anos para um campo de trabalhos forçados.

"Fui mandado para a prisão porque traí meu país. Pessoas como eu são traidoras", ele diz. "Mas o que você fez de errado?", perguntamos a ele. "Nada, eu queria comer". Apesar das dificuldades, Kim reluta em criticar seu país de origem. Em 2013, aproveitando uma fuga coletiva, ele escapou de sua prisão, onde os espancamentos e maus tratos eram quase cotidianos. Somente ele e dois outros companheiros sobreviveram a essa tentativa. Dessa vez, ele chegou até o Extremo Oriente russo, em Blagoveshchensk, na região de Amur, onde ele foi preso, condenado a seis meses de prisão "por atravessar ilegalmente a fronteira" e ameaçado de deportação. Os serviços consulares norte-coreanos foram avisados. No último minuto, a advogada Liubov Tatariets, jurista da rede Migração e Direitos, conseguiu tirá-lo de sua cela. Para ter mais segurança, Kim foi enviado a Moscou.

ONG entrou com diversos recursos

Durante três anos, ele foi sobrevivendo de bicos em cozinhas de restaurantes, aprendeu sua primeira palavra em russo (depois de "obrigado"), "rabota" (trabalho), enquanto Svetlana Gannushkina e sua equipe brigavam com as autoridades para tentar obter para ele um status de refugiado político.

"A princípio ele não tem nada de opositor, mas como ele fugiu duas vezes, na Coreia do Norte isso é o suficiente para ele ser considerado um criminoso político", suspira Svetlana Gannushkina. Todos os pedidos foram negados porque, entre outros motivos, Kim não conseguia citar os artigos do código penal, em seu país, que o colocavam em risco.

Paralelamente, as redes de televisão bombardeavam notícias sobre a crise dos imigrantes que vinha desestabilizando a Europa. A ONG foi entrando com diversos recursos para ganhar tempo e, com sua persistência, conseguiu, em maio de 2016, arrumar para ele um título de "refugiado temporário", válido por um ano, enquanto continuava o processo para ele obter um local de refúgio. Por fim, chegou uma resposta positiva, dos Estados Unidos.

Extasiada, Svetlana Gannushkina anunciou prematuramente a boa notícia para Kim sem lhe dar uma data. Sem hesitar, o coreano decidiu então ir com seus próprios meios até a terra prometida. No final de agosto, ele partiu para a ilha de Sakhalin, a 6.600 km de Moscou, de onde ele tentou chegar até o Alasca de lancha.

Enviada à Coreia do Norte revela cotidiano do país

"Ele desapareceu e ficamos doidos, porque já aconteceram sequestros", ri Svetlana Gannushkina hoje. "Todas as histórias de coreanos são terríveis", ela diz, recobrando a seriedade.

São quantos os que estão vivendo clandestinamente na Rússia? Pelo menos 10 mil, de acordo com a associação Assistência Civil. No Extremo Oriente russo, várias áreas florestais foram cedidas a empresas norte-coreanas, que enviam uma mão de obra fácil de explorar. Alguns deles conseguem fugir e vivem escondidos em vilarejos. "A Rússia vende sua madeira, era assim antigamente, com os búlgaros que acabavam ganhando o suficiente para comprar um apartamento e um carro, mas com os norte-coreanos é diferente. Eles vivem em acampamentos cercados por arames farpado, sem poder sair, e ganham muito pouco. Aqueles que fogem são rastreados, às vezes sequestrados."

Svetlana Gannushkina já enfrentou essas situações. E ela ficou tão aliviada quando Kim reapareceu, após sua fuga infrutífera para a ilha Sakhalin, que ela ameaçou, meio de brincadeira, "amarrá-lo" até o momento de sua partida. "Spaciba", respondeu seu protegido, curvando-se em sua direção.

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Tradutor: UOL

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