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Retrospectiva 2012: Cuba evoluiu - e o papel da Igreja Católica também

O papa Bento 16 se encontra com o ex-líder cubano Fidel Castro (à direita) em março - Reuters/Osservatore Romano
O papa Bento 16 se encontra com o ex-líder cubano Fidel Castro (à direita) em março Imagem: Reuters/Osservatore Romano

Cardeal Jaime Ortega*

Do New York Times

11/12/2012 06h00

Há muito a Igreja Católica se dedica a ações sociais e humanitárias, e sua influência em Cuba, que até recentemente era um país ateu, está crescendo.

Nota do editor: O silêncio que separava o governo cubano da Igreja Católica há décadas recentemente se rompeu através do diálogo. O cardeal Jaime Ortega foi uma das peças-chave na abertura e expansão dessas discussões. Esta é a história dele e de como a igreja se aproximou do governo e de seus cidadãos numa época de transição.



RAIO-X: JAIME ORTEGA

Idade75
NacionalidadeCubano
CargoCardeal arcebispo de São Cristovão de Havana
AtuaçãoFoi representante da Igreja Católica nas negociações com o governo cubano que resultaram na libertação, em 2010, de quase 130 prisioneiros políticos

Durante o voo para o México, na mesma viagem que o levaria a Cuba, no fim de março deste ano, Bento 16 disse a um jornalista: “É óbvio que a ideologia marxista, como foi concebida, hoje já não corresponde à realidade; não é mais possível reagir ou construir uma sociedade dessa forma. É preciso encontrar novos modelos, com paciência, de forma construtiva”.

O papa - um teólogo, homem sábio e analítico, que entendeu e vivenciou os grandes eventos que sacudiram a Europa no último século - queria estar conosco em seu Ano Jubilar para comemorar os 400 anos da presença de nossa santa padroeira, a Virgem da Caridade, em nossa terra. Ele também sabia que estava visitando Cuba num momento único de nossa história.

Suas palavras, pronunciadas dias antes de sua recepção, não foram rejeitadas pelo governo - o mesmo que, presidido por Raúl Castro desde 2008, iniciou uma nova etapa na vida do país. Aplicou várias reformas econômicas e sociais que sugerem que, de fato, as propostas socioeconômicas nascidas durante o marxismo, baseadas numa concepção materialista do mundo e do homem - que não oferecem nenhum ponto de referência transcendentes, estabelecendo limites que não apoiam e são contraproducentes à liberdade humana -, não funcionam em Cuba.

Nos últimos dois anos, ocorreram alguns eventos em nosso país que chamaram a atenção internacional de uma nova maneira. Desde 1959 e o triunfo da revolução popular liderada por Fidel Castro, Cuba sempre foi manchete na imprensa mundial: os conflitos iniciais com a igreja, a emigração, o ataque na Baía dos Porcos, o embargo comercial dos EUA, as guerras na África e a proximidade do governo cubano de movimentos revolucionários de outras nações (especialmente na América Latina, onde eles se alastraram); essas eram as histórias que nos colocavam no noticiário. Também é bastante conhecido o conflito longo e custoso com os EUA, que, às vezes, parece ser a causa, noutras a consequência de todos os problemas mencionados acima.

Entretanto, desde abril de 2010, um novo capítulo começou a ser escrito em nossa história recente e notado no exterior: foi quando enviei uma carta a Raúl Castro expressando minha rejeição pessoal e da igreja à oposição do governo às mulheres dos prisioneiros políticos, conhecidas como as “Damas de Branco”, que se reuniam depois da missa, todos os domingos, na porta da Igreja de Santa Rita, em Havana.

O resultado foi uma resposta verbal positiva vinda do presidente.

Em fevereiro de 2008, com os bispos de Cuba, eu o cumprimentei rapidamente quando ele recebeu o secretário de Estado do papa, o cardeal Tarcisio Bertone, que estava em Cuba para presidir vários eventos e comemorações do décimo aniversário da inesquecível visita de João Paulo 2º.

Alguns meses depois, em novembro, nós nos encontramos de novo, dessa vez em Camagüey, para a cerimônia de beatificação do frei José Olallo Valdes, líder religioso do século 19 que dedicou sua vida a servir os pobres e doentes da cidade. A presença do novo chefe de Estado sugeria uma nova abordagem não só em relação à necessidade de mudanças socioeconômicas, mas em relação à igreja.

Porém, o passo mais significativo e transformador desse relacionamento com a igreja foi a resposta positiva de Raúl Castro à minha carta de abril de 2010, na qual me disse que tinha posto fim às ações contra as mulheres e familiares dos prisioneiros e deixado claro seu desejo de ouvir, através da intervenção da igreja, suas exigências.

Foi um gesto inédito e inesperado, que surpreendeu a todos. Não era a primeira vez que os bispos cubanos apelavam para as autoridades intercederem em nome dos prisioneiros e suas famílias - ato apropriado à missão da instituição -, mas quase nunca tínhamos uma resposta. A igreja em Cuba nunca tinha sido reconhecida como uma mensageira respeitada do povo. Minha carta tinha gerado uma resposta e a resposta gerou o diálogo.

Diálogo esse que levou à libertação de 53 prisioneiros de um grupo de 75 que estava preso desde 2003. Outro grupo, de mais de 70, foi solto depois, de maneira que entre julho de 2010 e março de 2011, mais de 126 pessoas foram libertadas. A maioria foi para a Espanha, para encontrar os familiares; outros se mudaram para Miami ou outras cidades dos EUA; 12 preferiram ficar em Cuba.

Em dezembro de 2011, o governo soltou quase 3.000 presos, motivado, de acordo com Raúl Castro, pela visita de Bento 16, em março de 2012, e por respeito ao 400º aniversário da santa padroeira do país.

O diálogo nos permitiu discutir outros assuntos de interesse da igreja e da sociedade. Falamos com as autoridades - não só o presidente - sobre a precária situação econômica do país, os medos e exigências dos cidadãos, as dúvidas, desejos e esperanças de uma parte significativa da população. Conhecemos essas realidades graças à rede de paróquias, igrejas e capelas que nossos padres construíram pelo país e aos religiosos e missionários que visitam os doentes, como os voluntários do Caritas, catequistas e outros agentes pastorais que vão de cidade em cidade, por menores que sejam.

Nossa função, como pastores em Cuba, abrange homens e mulheres, com seus medos e frustrações, ilusões e expectativas, possíveis ou irreais. De fato, a situação está se alterando, talvez com idas e vindas difíceis de definir e objetivos ainda não claros. A mudança começou, esporadicamente e sem um caminho traçado, mesmo que alguns não a desejem nem a reconheçam. Nesse contexto social em mutação, no qual as mais variadas expressões sociais querem ser ouvidas, de uma forma ou de outra, a igreja conseguiu ser reconhecida como uma instituição que tem um papel na sociedade cubana.

Não sabemos até que ponto esse diálogo vai avançar, nem seu conteúdo ou os possíveis resultados que trará, mas é através dele e só dele que a igreja almeja ao bem-estar material e espiritual dos cubanos e da sociedade. É parte essencial da nossa missão. Em meio à profunda crise econômica que afeta o mundo, Cuba vive seu turbilhão particular.

Incapaz de escapar das dificuldades mais amplas, vivemos também um momento de aflição espiritual e existencial. O “sonho cubano”, iniciado em janeiro de 1959, mesclado à simples intuição e ao desejo sincero dos pobres dessa terra, não foi realizado, pelo menos não como foi idealizado.

É verdade que houve conquistas sociais importantes, mas também muito sofrimento; racionamentos e confrontos; excessivas limitações à liberdade e frustração. Durante anos, a igreja, tanto em público quanto em particular, pediu às autoridades que pusesse em prática as mudanças necessárias para melhorar a vida da população, para que ela realizasse todo o seu potencial. Ela estimula as mudanças que estão acontecendo e espera que outras sejam introduzidas pelo bem do país e de seus cidadãos.

“Nesse processo”, disse Bento 16 a bordo do avião que o levou à América Latina, “que requer paciência, mas também determinação, pretendemos ajudar com o diálogo, para evitar traumas. Por essa razão queremos que todos se unam num esforço pela reconciliação e renovação da esperança”.

As cinzas dos sonhos passados não ajudam a construir um futuro promissor. É preciso uma transformação que venha do coração e é por isso que agimos de acordo com a fé cristã.

* O cardeal Jaime Ortega é arcebispo de Havana. (Este texto faz parte da série "Fator de Mudança: Pauta Global 2013", com fotos e desenhos sobre eventos e tendências de 2012 que continuarão repercutindo em 2013.)