Ataques terroristas deixam pergunta sem resposta: por que essas vítimas?

Andrew Jacobs*

  • Divulgação via The New York Times

    Vítima do atentado em Burkina Fasso, a professora canadense Maude Carrier, 37, era membro de uma missão de ajuda que atendia escolas no país africano

    Vítima do atentado em Burkina Fasso, a professora canadense Maude Carrier, 37, era membro de uma missão de ajuda que atendia escolas no país africano

Uma família de voluntários canadenses que se dedica a atenuar a pobreza na África. Um grupo de intrépidos aposentados alemães em excursão pela Turquia e o Oriente Médio. Um iraquiano que tinha ido para Bagdá buscando refúgio da violência jihadista em sua cidade. Um audiólogo canadense que se apaixonou pela Indonésia.

Eles estavam entre as dezenas de pessoas assassinadas pelos extremistas islâmicos em quatro países na semana passada, em espasmos sangrentos que deixaram seus entes queridos atônitos com o caráter aleatório da matança.

"Nunca se compreenderá: 'Por que você?' Ninguém pode responder", observou André Franke, parente de uma das vítimas, Karin Franke-Dutz, 70, uma professora aposentada que estava entre os alemães mortos por um homem-bomba em Istambul. Franke resumiu a angústia universal em uma postagem no Facebook: "É incompreensível que tenhamos perdido uma pessoa tão cordial, maravilhosa, de maneira tão terrível".

Os ambientes dos ataques foram os alvos mais fáceis: um shopping center no Iraque; um hotel e café em Uagadugu, capital de Burkina Fasso; uma área comercial popular em Jacarta, Indonésia; e a Praça Sultanahmet, centro histórico e cultural de Istambul.

Aparentemente descoordenada, a violência indiscriminada salientou o objetivo dos militantes islâmicos determinados a semear o terror em diversos cantos do mundo. Ao mesmo tempo, a ONU relatou na terça-feira (19) que mais de 19 mil iraquianos morreram em um período de 22 meses marcado pelo que foi chamado de nível "impressionante" de violência.

No último ano desde que atiradores mataram 12 pessoas em Paris em um ataque contra o "Charlie Hebdo", um jornal humorístico semanal que havia feito sátiras ao islamismo, os jihadistas embarcaram em uma campanha cada vez mais ampla de derramamento de sangue global que parece ter pouco valor estratégico.

Os ataques também salientam a crescente rivalidade entre os seguidores do Estado Islâmico e da Al Qaeda, organizações extremistas determinadas a provar sua fé jihadista por meio de terríveis assassinatos aleatórios.

Em Bagdá e na província próxima de Diyala, membros do EI mataram pelo menos 40 pessoas em 11 de janeiro, em ataques que visaram iraquianos comuns que faziam compras ou descansavam em um café. Em Jacarta na quinta-feira (14) atiradores mataram o audiólogo Tahar Amer-Ouali, que passou a maior parte da vida ajudando deficientes auditivos. Em Uagadugu, os mortos incluíam africanos, muçulmanos e cristãos.

Art Factum Gallery via The New York Times
A franco-marroquina Leila Alaoui, morta em Burkina Fasso

Leila Alaoui, 33, uma fotógrafa franco-marroquina cujas fotos extraordinariamente belas exploram temas de migração, identidade cultural e deslocamento, morreu na noite de segunda-feira (18) depois de levar tiros na perna e no tórax disparados por homens da Al Qaeda na sexta-feira (15), enquanto estava parada diante do Cappuccino Cafe em Uagadugu.

Alaoui, que estava em Burkina Fasso a trabalho para a Anistia Internacional, teve suas obras expostas em museus de todo o mundo e em publicações que incluem o "New York Times".

Maude Carrier, 37, uma professora colegial de francês de Quebec e mãe de duas meninas, estava entre os mortos no café, um ponto popular no centro de Uagadugu.

Também morreram o pai de Carrier, Yves; sua mulher, Gladys Chamberland; e o filho deles de 19 anos, todos membros de uma missão de ajuda que atendia escolas em Burkina Fasso, que já foi uma colônia francesa.

Sobreviventes em Uagadugu disseram que os militantes que atacaram o café e um hotel próximo escolheram as vítimas de maneira indiscriminada, mas dispararam tiros a mais nos corpos dos ocidentais.

Entre os mortos estavam Arie Houweling, 67, um consultor holandês que assessorava empresários em Burkina Fasso e no Níger; e Michael James Riddering, 45, um missionário da Flórida que trabalhava em um orfanato próximo à capital.

"Meu melhor amigo, parceiro em tudo e o amor da minha vida", escreveu a mulher de Riddering, Amy, em sua página no Facebook. "O melhor de todos os maridos, um pai incrível para seus filhos e um paizão para todo mundo."

As outras vítimas dos ataques tinham passaportes da França, Líbia, Portugal e Suíça. Mas muitas, como Victoria Yankovsky, uma ucraniana que dirigia o Cappuccino Cafe, consideravam-se cidadãos do mundo.

"Seus empregados os adoravam e alguns até os seguiam para novos lugares, o que é muito raro na África", disse Katerina Zolotaryova, uma amiga de Yankovsky, que morreu ao lado de seu marido e do filho de 9 anos. "É chocante, porque geralmente os terroristas não atacam pessoas tão comuns, que não estão ligadas à política ou a algo importante."

Os mortos também incluíam pelo menos sete cidadãos de Burkina Fasso; entre eles estava Simplice Armel Kinané, um bombeiro que trabalhava para uma organização de segurança aérea, e Ahmed Kéré, coordenador local de um grupo beneficente dos EUA.

Kinané, segundo sua irmã, participava de uma festa à beira da piscina do Splendid Hotel quando os atacantes provocaram uma explosão fora do edifício e depois o invadiram. Ela disse que seu irmão recebeu um tiro quando tentava apagar as chamas que tinham envolvido um hóspede do hotel.

"Ele era generoso e colaborativo, a ponto de dar sua vida pelos outros", disse sua irmã, Yolande Kinané. "Era nosso protetor, nosso defensor."

The Sonder Project via The New York Times
Ahmed Kere, de Burkina Faso, morto nos ataques em Uagadugu

Ian Vardy, um canadense, fez uma caminhada de oito dias em agosto com Kéré, que trabalhava para o Sonder Project, um grupo de ajuda à pobreza sediado na Flórida.

"Ele era como muitas pessoas em Burkina Fasso: altruísta, bom, ávido para transmitir alegria e amor", escreveu Vardy em uma correspondência por e-mail.

"Eles acreditam no conceito de que todos precisamos dos outros, porque é a realidade deles há muitos anos. Essas são as pessoas mais ricas, e não têm dinheiro."

Na Indonésia, os militantes do EI que detonaram explosivos diante de um café Starbucks em Jacarta na quinta-feira pareciam visar estrangeiros. Amer-Ouali, 70, um cidadão canadense nascido na Argélia, dividia seu tempo entre Montreal e Jacarta e operava uma clínica de ouvido nos dois lugares. Seu irmão foi uma das 22 pessoas feridas no ataque.

Divulgação via The New York Times
Gunther Hoppner, alemão morto em Istambul

Em Istambul, o homem-bomba que se misturou à multidão perto da Mesquita Azul e da Hagia Sophia em 12 de janeiro parecia ter escolhido um grupo de turistas alemães que tinha chegado à Turquia um dia antes. As autoridades turcas disseram que o atacante, um sírio de 20 e poucos anos, era membro do EI.

A maioria das dez pessoas mortas na explosão que ele provocou eram aposentados de classe média: um tinha sido açougueiro, outro professor, outro um gerente de obra.

Os mortos incluíam um pai e filho de Dresden, Gunther Hoppner, 75, um garçom aposentado, e Steffen Hoppner, 51, que trabalhava em uma fábrica da Volkswagen. "Tudo isso é tão sem sentido e impossível de compreender neste momento", disse por telefone Petra Hoppner, mulher de Steffen. "Estou sem palavras e desolada. Meu marido levou seu pai nesta viagem porque meu sogro se interessava muito por lugares históricos."

 *Colaboraram na reportagem Victor Homola, Laura Fauss, Katarina Johannsen, Dionne Searcey, Caroline Chauvet, Aurelien Breeden, Lilia Blaise, Ian Austen, Dan Bilefsky, Joe Cochrane, Kevin Dougherty, Raphael Minder e Sarah Barclay

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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