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Trump fez sua vida como negociador, mas nunca enfrentou alguém como Kim Jong-un

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Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, desembarca em Singapura para encontro com líder norte-coreano Kim Jong-Un Imagem: Evan Vucci/AP Photo

David E. Sanger e Choe Sang Hun

Em Singapura,

11/06/2018 12h42

O presidente Donald Trump se imaginou no centro de negociações nucleares de alto nível desde pelo menos meados dos anos 1980, quando tentou, sem sucesso, convencer o governo Reagan de que precisava de um empresário do ramo de imóveis de Nova York para liderar as negociações sobre controle de armas com a União Soviética.

Em 1989, quando ele encontrou o homem que exerceu esse cargo para o presidente George H.W. Bush, ele tinha um conselho sobre a negociação: chegue atrasado, espete o dedo no peito de seu adversário e trate-o com um insulto vulgar, disse ele a Richard Burt.

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Hoje, Trump finalmente tem uma negociação nuclear própria, não com os russos, mas com um norte-coreano que tem a metade de sua idade: Kim Jong-un, o líder instável e repressor do país.

Na reunião de cúpula desta terça-feira (12), entretanto, parece seguro que Trump não seguirá o próprio conselho sobre como manipular as negociações, que envolvem um arsenal nuclear muito menor, mas de certa forma mais assustador, por causa da imprevisibilidade da Coreia do Norte, do que o que ameaçava os EUA durante a Guerra Fria.

Trump chegou a Singapura com ofertas de um tratado de paz, uma presença diplomática americana em Pyongyang e ajuda econômica, incluindo franquias de hambúrgueres no país, em vez de socos e ameaças.

E apesar de toda a sua vaidade sobre proezas feitas em negociações, Trump nunca esteve em um duelo com um adversário como este, um ditador impiedoso que prendeu um enorme número de cidadãos em campos de trabalho brutais e sumariamente executou ou assassinou os que o contestaram.

Ele também nunca esteve numa negociação com riscos de fracasso tão claros. Nem Kim, que até este ano nunca havia se encontrado com outro líder mundial ou saído de seu país como chefe de Estado. Ele estará cercado, entretanto, por autoridades que desgastaram os EUA em diversos impasses, durante décadas.

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Kim sorridente passeia por Singapura na véspera do encontro com Trump Imagem: REUTERS/Edgar Su

Tanto seu pai como seu avô concordaram, ainda em 1994, em trocar as ambições atômicas de seu país por energia, ajuda e a reintegração da Coreia do Norte com o mundo. Todos esses acordos começaram com amplas promessas e afinal fracassaram.

Como Trump e Kim, ambos de pavio curto e decididos a nunca demonstrar fraqueza, vão interagir é o grande drama da cúpula.

No último ano, para adquirir vantagem, ambos se mostraram adeptos da teoria de negociação do "maluco", expressando disposição a adotar medidas radicais para conseguir o que queriam.

Trump ameaçou despejar "fogo e fúria" sobre a Coreia do Norte e "destruí-la totalmente".

Ministry of Communications and Information Singapore via AP
11.jun.2018 - Donald Trump em reunião com o premiê de Singapura, Lee Hsien Loong, na véspera da cúpula com Kim Jong-un na cidade-Estado Imagem: Ministry of Communications and Information Singapore via AP

A Coreia do Norte, que demonstrou ter solucionado os mistérios da combinação de ogivas nucleares com mísseis, advertiu em novembro que testou com sucesso um míssil com "uma ogiva nuclear pesada e supergrande, capaz de atingir todo o território continental dos EUA".

Apesar de toda a retórica beligerante, incluindo a troca de insultos pessoais, ambos parecem decididos a declarar que o encontro foi um sucesso, por mais vago que seja o resultado.

Trump e Kim estão muito investidos em seus países a declarar um resultado positivo, segundo suas condições, mesmo que os detalhes sejam deixados para outros resolverem.

E ambos sabem que é altamente improvável que nesta reunião eles mesmos resolvam suas diferenças sobre as armas. Por isso eles poderão se concentrar em um tratado de paz que acabe com o armistício de 65 anos e lhes permita, como na frase excessivamente otimista de Henry Kissinger sobre o Vietnã, declarar que a paz está próxima.

Se o relacionamento desmoronar depois disso, como geralmente ocorre nas interações entre Washington e Pyongyang, será após a conclusão das negociações, quando o secretário de Estado, Mike Pompeo, e seu homólogo norte-coreano discutirem o significado e o ritmo de "desnuclearização completa, verificável e irreversível", que é como Pompeo descreveu o único resultado aceitável.

A maioria dos especialistas acredita que esse critério é inaceitável no caso da Coreia do Norte, e que insistir nele encaminha o governo Trump ao fracasso. Mas Pompeo repetidamente insistiu nesse objetivo, ainda nesta sexta-feira (8), e portanto ele se tornou a única medida de sucesso.

Atingir esse objetivo é praticamente a única maneira como Trump poderá plausivelmente alegar que conseguiu mais da Coreia do Norte do que o presidente Barack Obama conseguiu do Irã.

Para Trump, a pergunta que paira é se sua aposta de que Kim quer o desenvolvimento econômico mais que armas nucleares está certa.

"Entendo por que o governo está oferecendo tantas cenouras, mas temo que Trump pense que Kim é um empresário", disse Jung Pak, bolsista no Instituto Brookings que supervisionou a análise da Coreia do Norte para órgãos de inteligência americanos até um ano atrás.

"O que ele está esquecendo é que Kim não está procurando riqueza", disse ele. "Ele tem toda a riqueza do país. Kim procura legitimidade."

E está a caminho de obter essa posição de estadista global, depois de se encontrar duas vezes com os presidentes da China e da Coreia do Sul. Às 9h de terça-feira em Singapura, ele poderá acrescentar Trump à sua lista.

Alguns dos que prepararam Trump para tratar com a Coreia, que só quiseram falar anonimamente sobre suas reuniões com o presidente, dizem temer que Trump esteja tão supremamente confiante em suas técnicas de negociação que tenha desprezado informações detalhadas sobre como Kim vê o mundo.

Quando ele disse durante o fim de semana que "em um minuto" depois de conversar com Kim ele saberá se o norte-coreano está disposto a se desnuclearizar, foi uma declaração de que o instinto de negociador, mais que um estudo profundo do assunto, é o caminho para o sucesso.

"Apenas meu toque, minha sensação", disse ele. "É assim que eu faço."

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Em imagem divulgada em 2017, Kim conversa com militar diante de lança-mísseis Imagem: KRT via AP

Os norte-coreanos também têm seu estilo próprio de negociar. Quando os EUA discutiam um armistício para encerrar a guerra da Coreia de 1950-53, o principal delegado norte-coreano embaraçou seu homólogo americano ao aparecer para as conversas no carro do embaixador americano, que suas tropas tinham apreendido ao invadir Seul no início da guerra.

Os norte-coreanos também tinham secretamente serrado vários centímetros da cadeira do delegado americano, para que seu próprio negociador pudesse olhar para ele de cima para baixo durante as discussões.

Nada disso deverá acontecer na terça-feira. Mas o minuto inicial poderá dizer muito.

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Quando Kim se encontrou com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, na Zona Desmilitarizada em abril, pegou a mão de Moon e o conduziu para o território norte-coreano, um jogo de poder inesperado. Não haverá uma fronteira equivalente na terça, mas Kim certamente tentará usar qualquer margem que ele conseguir.

E ele tem duas fontes básicas de alavancagem: sua capacidade recém-conquistada de colocar San Francisco e talvez Chicago ao alcance de suas armas nucleares e a antiga capacidade da Coreia do Norte de destruir Seul com artilharia convencional disposta ao longo da Zona Desmilitarizada.

Enquanto Kim pode ver utilidade em abandonar algumas dessas capacidades em troca de benefícios econômicos, ele sabe que seu arsenal nuclear é sua melhor aposta para continuar no poder.

Korea Summit Press Pool via AP
Kim Jong-Un e Moon Jae-In durante Cúpula das Coreias em abril de 2018 Imagem: Korea Summit Press Pool via AP

A questão é como Trump ampliará seu repertório de incentivos a Kim que vão além da economia.

Ele poderia oferecer a retirada de dezenas de milhares de forças americanas no Sul, cuja presença ele mesmo já afirmou que deve ser encerrada devido ao excesso de compromissos de defesa dos EUA e do superavit comercial do Sul.

Ele poderá oferecer para impedir que os bombardeiros, submarinos com capacidade nuclear e navios americanos exibam suas armas em visitas ao Sul, sabendo que, se necessário, na mais extrema emergência nuclear, um míssil americano partindo de Nebraska é capaz de atingir o Norte.

Mas os dois lados enfrentam a questão de quanto podem confiar no outro.

As poucas autoridades sul-coreanas, incluindo Moon, que se encontraram com Kim dizem que saíram com a convicção de que o líder do Norte é sincero em seu empenho para selar um acordo e que ele tem uma visão mais ampla de sua segurança do que seu pai tinha.

"O presidente Kim mais uma vez expressou claramente seu firme compromisso com uma completa desnuclearização da península da Coreia", declarou Moon depois de sua segunda reunião com Kim, no mês passado.

O presidente sul-coreano acrescentou: "O que não está claro para ele é quão firmemente ele pode confiar no compromisso dos EUA de pôr fim às relações hostis e oferecer garantias de segurança a seu governo caso ele se desnuclearize".

Independentemente do resultado da cúpula de Singapura, Kim já ganhou muito. Ao se tornar o primeiro presidente norte-coreano a se encontrar com um presidente americano em exercício, ele provou a seu povo que é uma força que os americanos têm de reconhecer.

Isso pode ser suficiente, pelo menos por enquanto.